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Slave Play: a experimentação da performance com questões raciaisLeitura em 9 minutos

Escrita pelo dramaturgo americano Jeremy O. Harris, a peça Slave Play tem carregado desde a sua estréia em 2018 uma história de recepção que junta tanto sucesso artístico quanto críticas mais severas e mesmo tentativas de boicote. A obra quebrou um novo número recorde de 12 nomeações ao Tony Awards (um dos mais prestigiados prêmios americanos de teatro), mas, ao mesmo tempo, apresentou problemas sérios para diferentes linhas críticas. A recepção radicalmente controversa da obra já devia ser esperada pelo dramaturgo: como avisado no playtext, e também em algumas produções, a peça não pretende “reconfortar quem a assiste”, assumindo-se uma experiência desconfortável e difícil. Tratando-se da encenação sexual da escravidão (slave play) no sul dos Estados Unidos, que coloca os parceiros de três relacionamentos interraciais nos papéis de pessoas negras escravizadas e de seus reforçadores escravistas brancos, a peça realiza um experimento que põe em pauta a violência racial na sua própria maneira. A experiência teatral suscitou, como pretendido, uma diversidade de falas a respeito do que Harris admitiu ser um drama experimental que ele havia escrito no seu primeiro ano de universidade, que foi trazido às grandes proporções dos palcos prestigiados da Broadway em Nova York e do West End em Londres. 

A princípio, é importante demarcar que a recepção do texto dramático no Brasil vai ser diferente daquela da apresentação teatral nos Estados Unidos, por este país ambientar a obra, a ponto dela encenar “a história de nós, americanos, até chegarmos nos tempos atuais” e “o que significa ser americano nos dias de hoje”, segundo o autor. Além disso, muito da obra se deve à performance: a coreografia erótica e racializada dos corpos em cena, a forte presença de um jogo com a música e as cores, como assinalado no playtext, e também as próprias nuances da comédia, tragédia e sensualidade. Principalmente, a teatralidade de tanto o roleplay sexual (a peça dentro da peça) quanto da obra se deve ao poder que ela recebe e dá às representações sociais desses grupos. Todos esses elementos contribuem para a discussão da peça sobre a questão da negritude nos Estados Unidos.

Ainda, a experiência da apresentação, que requer a recepção dos corpos em cena por meio do aqui-e-agora do próprio corpo de quem os recebe, junto dos diferentes corpos da platéia, já marca a performance. Isso é ainda mais ampliado com as representações sociais sendo colocadas em cena recriando cenas e dinâmicas tão difíceis da história humana, fazendo um esforço consciente de interligar a audiência com os personagens e partir disso para um imaginário dos seus antepassados naquela estrutura.

A obra é dividida em três atos, “Work”, “Process” e “Exorcise”: o primeiro dá lugar ao roleplay sexual dos casais em diferentes partes de uma residência plantation no sul dos Estados Unidos; no segundo, os personagens se retiram das cenas para sentarem-se em roda com uma dupla de terapeutas sexuais que os pedem para “processar” a cena e os sentimentos que ela evoca; o último junta os dois parceiros da primeira cena finalmente se encontrando na mesma página e sexualmente “exorcizando” o mal dentro do relacionamento. O segundo ato revela a tentativa da slave play como um experimento terapêutico de duas psicólogas para tratar a falta de prazer sentida por pessoas negras em relacionamentos interraciais como a esfera individual, cognitiva, psíquica do macrocosmo do racismo.

Harris elabora três casais pacientes da terapia, cada um com sua respectiva dinâmica. O primeiro relacionamento enlaça Kaneisha, uma escritora do sul americano que sempre esteve antenada com a própria negritude e ancestralidade, e Jim, um homem britânico e mais velho que não tem nenhum vínculo ou entendimento da questão racial nos Estados Unidos. O segundo casal é formado por Alana, uma mulher que é instruída nas causas sociais, mas que não percebe o alienamento racial de seu marido pardo, Philip, nem o próprio lugar dela em meio a ele. No terceiro casal, são unidos Dustin, um rapaz branco “escuro” ou branco fosco, e outro rapaz, Gary, que por sua vez é preto retinto, “blue-black” – o playtext referencia o romance de Toni Morrison.  

Além deles, há também o casal de terapeutas cuja dinâmica racial também ecoa a dos seus pacientes, porque, apesar das duas mulheres serem afro-descendentes, uma delas é ainda mais clara que a outra. Mostrado no próprio relacionamento delas, as terapeutas localizam uma falta de expressividade verbal dos parceiros negros a respeito da questão da raça, que poderia ser compensada através da representação dela na relação sexual. Desse jeito, a peça parte de um elenco de diversos pontos em um espectro de negritude e branquitude que contempla a maneira que os personagens veem a si mesmos, veem aos outros e são vistos pelos outros. A slave play, desse modo, seria uma forma de performar abertamente, como se exorcizando, aquilo que já está latente nas performances diárias das relações. 

Iniciado pela canção de mesmo nome da cantora Rihanna, o primeiro ato já trabalha as tensões dos três casais. Aqui Harris apresenta a realidade abstrata dos relacionamentos: no papel de escrava, Kaneisha tinha que limpar a casa até deixá-la “pristina”, mas “Work” liberou o seu corpo desse trabalho – já o trabalho de “Sinhô Jim” era o de colocá-la no lugar dela, e ele se surpreende ao ter que domar e disciplinar uma imundice que não é só literal, mas sexual, cultural, espiritual. No papel de escravo, Philip serve à madame da casa uma forma dela de experimentar com o próprio desejo, deixando de ser a esposa de um homem para ser homem sexualmente com o seu servo. Com Gary no papel do escravo negro que é  superintendente de Dustin, que atua sob contrato como servo, os dois travam rixas sobre a subjulgação um do outro até Gary retomar o topo da hierarquia e fazer Dustin curvar-se perante ele, adorando-o. 

No segundo ato, “Process”, é possível ver de onde surgiram essas fantasias. Tal como o triângulo amoroso e a relação de poder racial na cena sexual deles, Philip e Alana começaram a se relacionar por meio do fetiche do ex-marido branco de Alana, que gostava de assisti-los no ato sexual. O fetiche recriava e supria a ansiedade do homem branco de ser superado pelo homem negro. Isso ressurge memórias da adolescência de Philip crescendo em escolas particulares de maioria branca, em que, mesmo habitando um não-lugar por ser mestiço, a sua negritude aparecia como um fator na competição por masculinidade com outros rapazes. 

Ainda no campo da disputa por valor social, as rixas entre Dustin e Gary refletem as discussões reais em torno da questão racial no relacionamento, com Dustin não querendo assumir-se um personagem branco nem na cena sexual ou na peça. Assim, em um dos monólogos mais marcantes da obra, Gary apresenta que, para além dessas rixas, existe uma verdade mais profunda de que ele nunca foi o “prêmio” da relação – ele nunca foi o objeto de desejo da mesma forma que foi o seu parceiro. 

Diferente dessas duas relações, a cena sexual de Kaneisha e Jim foi interrompida pela recusa dele de sustentar os papéis e suas falas, especialmente as injúrias raciais – ela não é “imunda”, mas sim “sua rainha”. A relação dos dois se apresenta como a mais desafiadora e central da peça, porque o mal que eles conseguem exorcizar no último ato não é o alienamento da própria negritude ou a permanência dos padrões do que torna alguém desejável, mas a presunção de que, apagadas as diferenças, os dois parceiros devem se ver de igual para igual e tratar uns aos outros moralmente. 

É nesse ponto, e nesse relacionamento, que fica o que a obra tem a dizer não só sobre relacionamentos interraciais, mas sobre uma sociedade interracial que foi construída por meio da colonização e da escravidão. Em outro monólogo muito impactante, Kaneisha afirma para Jim que “a sua própria entrada no continente foi terrorismo biológico para os nativos” e que, da mesma forma, a brancura é “um vírus”, porque a própria maneira da sociedade americana de se tornar interracial foi por meio da invasão, do saqueamento de certos povos para a formação da sua própria nação e de suas próprias pessoas. Desse jeito, ainda que num nível prático haja um tratamento que tente ser igualitário e compensar pelo passado, os valores inscritos na branquitude e na negritude, e na convivência entre as duas, ainda são traçados pela dominação. 

No fim da obra, Jim e Kaneisha entram num consenso e realizam a slave play em uma cena especialmente impactante que leva a cabo os aspectos mais difíceis e desconfortáveis da prática. Os outros dois relacionamentos são deixados no ato anterior, sem uma solução para os parceiros, que mais parecem afastados do que unidos pela terapia. No entanto, a peça de Harris não é um argumento contra a inter-racialidade e manutenção da diversidade, e, a princípio, foi criticada por argumentar pelo contrário. Ultimamente, a obra é um experimento com a dominação para trazer à superfície aspectos reprimidos e sublimados da interioridade dos personagens. O autor realiza um estudo profundo do passado psíquico e sociocultural dos seus personagens, escavando a área proibida do cotidiano das relações e a vulnerabilidade que ela expõe. De muitas formas, a peça apresenta um material muito desafiador e reafirma, no campo da performance e da teatralidade, o solo para mudança.

Publicado por

É graduando em Letras - Inglês/Literaturas na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e bolsista do projeto de extensão Literatura Inglesa Brasil, sob orientação da Profa. Dra. Marcela Santos Brigida.

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