Uma das obras mais populares de Caryl Churchill, Cloud Nine baseia-se na intenção da autora de ilustrar o “paralelo entre a opressão colonial e a opressão sexual”, explorando a repressão do desejo de múltiplos personagens em torno do núcleo familiar tradicional. No primeiro dos dois atos, ambientado na era vitoriana, são apresentados os filhos, esposa e criados de um reforçador da colonização britânica de um país africano. Em seu segundo ato, a peça mostra os mesmos personagens numa tentativa de desvencilhá-los dessa estrutura forçada, transferindo-os para o agora da estréia da peça: 1979, em Londres. Com o paralelo proposto por Churchill se mostrando, efetivamente, uma personificação e encenação do patriarcado, Cloud Nine contrasta o passado e o presente (que agora também já é passado) à procura de um fio precursor das narrativas sociais e sexuais, imaginando possíveis caminhos, uma vez que demarcado.
A peça tornou Churchill um nome internacional: foi um hit mesmo depois de sua primeira temporada, e em 1982 passou a ter apresentações no Japão, Nova Zelândia, Dinamarca, Alemanha Ocidental e Bélgica, chegando no Brasil em 1983, sob o título de “Cloud Nine – Numa Nice”. Tão popular quanto controversa, a obra dividiu as opiniões da crítica principalmente por conta das escolhas particulares que ela levou, como as críticas ao imperialismo, a heterossexualidade e ao patriarcado, a sexualidade explícita, e as práticas de cross-gender e cross-race casting (declaradas no playtext como não-negociáveis para novas produções), entre outras questões.
O primeiro ato introduz as maneiras em que os personagens são ornamentados em volta de Clive, o patriarca, sendo precedido por uma canção de tom parecido com o hino “God Save The Queen”. Todos cantam, apresentando seus respectivos papéis, em um pedido de atenção tanto ao fato de mesmo os personagens da peça estarem interpretando outros personagens, quanto à disparidade entre o que os personagens afirmam ser e o que a platéia enxerga nos atores do palco. De acordo com Churchill, Joshua, o criado negro de Clive, deve ser interpretrado por um ator branco; Betty, a esposa, por um ator em vez de uma atriz; Edward, o filho de nove anos do casal, é vivido por uma mulher adulta e sua irmãzinha Victoria, por uma boneca.
De acordo com os personagens durante a canção, Joshua pode ser “negro na pele” mas é “branco na alma”; o objetivo de toda a vida de Betty é ser o que Clive procura numa esposa; e Edward está no caminho para virar homem, mas, “como vocês podem ver, está tendo dificuldade para chegar lá”. Esses personagens afirmam o dever de ser o que Clive quer que eles sejam, assim como ele quer colonizar a terra e os povos africanos sob a lealdade a Deus e à rainha da Inglaterra. O homem branco é então tanto um ideal a ser alcançado por Joshua e Betty quanto alguém a quem eles devem a própria existência, os impedindo de imaginá-la por si mesmos e de seguir os seus próprios desejos.
Não só os moldes patriarcais e colonialistas são retratados, mas também as tentativas humanas de realizá-los ou desmentir-los. Joshua desobedece Betty e Edward antes de ser corrigido por Clive, dorme com Harry, o explorador secretamente homossexual que é amigo da família, e, na cena final do ato, atira em Clive. Betty tem guardado sentimentos por Harry e finalmente ousa manifestá-los para ele, beijando-o, e é também beijada pela governanta, que, por sua vez, guardava sentimentos por Betty. Edward insiste em brincar com a bonequinha da irmã, sob a desculpa de que está apenas a segurando por ela. O menino também tem uma relação, que é proibida de mais de uma maneira, com Harry, que o abusa sexualmente sem seus pais saberem.
A visita de Harry, assim como a da viúva Ms Saunders, uma mulher mais liberada com quem Clive se relaciona livremente, questiona a estrutura da família e mostra a dissidência que os personagens escondem debaixo dos lençóis. Mas essa disrupção acaba por reforçar os moldes anteriores, com Betty e Clive casando Harry com a governanta para silenciar a homossexualidade dos dois personagens. Isso também é propiciado pela presença de Ms Saunders, por apresentar uma mulheridade diferente às outras personagens femininas da peça, que estão não apenas no domínio de Clive, mas disciplinadas por Lucy, a mãe de Betty, que frequentemente lembra a sua filha e a governanta de seus lugares naquela conjectura. Com Ms Saunders optando por deixar a família por não se encaixar em um grupo tão conservador, as últimas falas que Betty e a governanta trocam são o conselho de uma esposa para outra, quando a governanta pergunta “como se faz com um homem”. Descrevendo mais do que a troca de núpcias, Betty responde que “você fica parada”.
Ao mesmo tempo que os personagens enfrentam a própria domesticação e dominação, a platéia é informada em diferentes momentos da colonização ocorrendo fora de cena. Segundo as conversas de Clive com outros homens, a casa está sempre na ameaça de sofrer uma revolta, seja dos nativos do país que ele está colonizando, seja das pessoas que ele escraviza. Em uma cena, Clive ordena que o resto da família não saia, enquanto ele e outros homens torturam e punem fisicamente o grupo de pessoas escravizadas da casa, que planejavam se revoltar. Assim como os momentos de dissidência dos membros da família, e às próprias ameaças de violência de Clive contra a sua esposa e filho, o grupo é punido, e a ordem é restabelecida.
O segundo ato mostra um contexto mais liberado em muitos aspectos. Ao contrário dos diferentes cômodos de uma casa vitoriana, o cenário dá lugar somente a um parque na cidade de Londres, em 1979, mas para os personagens, a mudança de século é reduzida a uma diferença de 25 anos passados entre os atos. O parque é o mesmo lugar em que os filhos agora adultos, Victoria e Edward, passeiam com os filhos de dia, e se relacionam sexualmente com pessoas do mesmo gênero durante a noite. Em vez de uma canção dedicada à Inglaterra, a rainha e Deus, o segundo ato se abre com um monólogo de um homem gay sobre cruising, narrando uma experiência sexual espontânea com um desconhecido no trem. Embora o ator do personagem de Clive seja sugerido por Churchill para interpretar o homem que realiza esse monólogo, o patriarca não retorna neste ato, dando lugar à desmontagem da estrutura fixa do ato anterior.
A partir da entrada na cena dos personagens já crescidos, a platéia descobre que o personagem do monólogo é Gerry, o homem mais velho e sexualmente liberado com quem Edward está saindo, e que rejeita a ideia de um relacionamento exclusivo com ele. Ganhando uma voz muito mais presente nesta parte da peça, Victoria vinga as mulheres submissas do primeiro ato em um certo nível, mostrando-se uma feminista que pensa minuciosamente sobre a relação com o marido, a criação do filho e a sua sociedade, na companhia de sua amiga Linn, uma mãe que divorciou-se de um marido violento.
Nesta segunda metade da peça, os personagens tentam navegar um novo mundo, e navegar novas maneiras de serem si mesmos e de relacionar-se com os outros. Victoria, Linn, Edward, Gerry, e Martin, o esposo de Victoria que tem uma visão progressista como ela, mas que ainda tem certo controle sobre a sua esposa, discutem a maneira que veem a si mesmos e a possibilidade de navegar e fluir entre outras maneiras de ser. Victoria reflete sobre admitir a falta de felicidade e prazer no relacionamento com Martin e aproveitar o trabalho em Manchester para se mudar e terminar de uma vez o relacionamento. Linn desabafa sobre as dificuldades de ser uma mãe solo, de criar a sua filha sem seguir certos padrões femininos; de tentar ler, ir ao cinema e ver a cidade ao mesmo tempo que tendo que trabalhar fora e dentro de casa, com a filha. Edward lamenta a solidão no relacionamento com Gerry, que recusa a sua tentativa de um relacionamento doméstico e monogâmico, reprisando os papéis de gênero de uma relação heteronormativa.
Os três personagens acabam decidindo viver juntos em um relacionamento doméstico e sexual, cuidando das filhas das duas mulheres. Numa das últimas cenas, eles ficam bêbados e começam uma orgia entre si durante a noite no parque, enquanto tentam se comunicar com espíritos do além. O irmão falecido de Linn, um soldado do exército britânico que foi enviado para a Irlanda do Norte durante os conflitos entre protestantes e católicos, aparece e vocaliza um dos monólogos mais marcantes da obra. O discurso lembra a plateia da atualidade do colonialismo e do imperialismo, e leva ao extremo as tensões dos personagens do ato anterior, com ele descrevendo, na sua experiência no exército, um espectro muito limitado de emoções que se compõe primariamente do profundo tédio e depressão de não poder encarnar seu próprio desejo e subjetividade, além do terror paralisante e constante em meio à violência. Contracenados pela lembrança dessa realidade desumanizante, os personagens desfrutam da possibilidade de um presente diferente.
A outra ruptura a ser realizada no segundo ato ocorre no personagem de Betty, agora uma avó que ainda tem que lidar com as lembranças de viver a violência e domínio patriarcal como uma esposa. Divorciada, ela tenta aceitar a nova realidade de ser uma pessoa separada de Clive, como ela expressa no monólogo mais marcante da peça. Além de isso incluir a escolha de como viver e o que fazer, mesmo inserindo a si mesma no mercado de trabalho e gerenciando a própria economia, Betty também passa a aceitar o próprio desejo sexual e a aposentar a aversão que ela tinha ao próprio prazer, mesmo não deixando-se chegar no orgasmo no passado. Assim, Cloud Nine ganha seu título em referência a um prazer que é tão grande e intenso que não parece pertencer à realidade terrestre.
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É graduando em Letras - Inglês/Literaturas na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e bolsista do projeto de extensão Literatura Inglesa Brasil, sob orientação da Profa. Dra. Marcela Santos Brigida.
