Muitas vezes, o drama mais recente não ganha a atenção que ganham as publicações contemporâneas de outros gêneros literários. Assim, apresentamos este pequeno número de dramaturgos da segunda metade do século XX e do século XXI, dentre muitos nomes importantíssimos, cuja obra reflete as preocupações artísticas recentes da leitura do passado, do presente, e de diferentes culturas
Caryl Churchill
Considerada uma das maiores dramaturgas vivas, Caryl Churchill é conhecida por uma escrita que tanto experimenta com a forma quanto reflete uma poderosa consciência social que estava tomando força popular na segunda metade do século XX. Começando a sua carreira na década de 1960, a escritora foi uma das pouquíssimas mulheres a ter seus dramas encenados na época, e as suas obras apontam a essa e outras dimensões da estrutura de poder do patriarcado. Em Owners e Top Girls, é retratado e satirizado o abuso de poder, compreendendo-o na forma de um patriarcado que também se apresenta no capitalismo neo-liberal. Cloud Nine (1979), considerado um clássico modernista assim como outras de suas obras, divide-se em dois atos para ter uma metade ambientada em uma colônia britânica na África em 1880, e outra em um parque londrino em 1979. A comédia ignora o tempo real entre os dois momentos históricos para seguir com uma diferença de 25 anos entre os dois atos, e brinca com o forte contraste entre a ética vitoriana e a revolução sexual dos anos 1970 para estabelecer um paralelo com as opressões coloniais e sexuais.
Wole Soyinka
Vencedor do Nobel de Literatura de 1986, Wole Soyinka é outro autor bastante engajado socialmente devido a sua crítica ao cenário político da Nigéria tanto no seu ativismo quanto na sua dramaturgia. Comemorando o dia da independência da Nigéria, Soyinka satirizou o país, em uma de suas peças mais filosóficas, The Dance of The Forests (1960). A obra exemplifica a técnica do autor de explorar paradigmas sociopolíticos através da cosmologia Yorubá da África Ocidental em uma estrutura dramática modernista, se tratando de um evento tradicional entre mortais e deuses que, no entanto, é alterado pelos deuses para forçarem o confronto dos vivos com os falecidos, convidando todos a revisitarem episódios históricos de violência. Soyinka também leva seus personagens a debaterem a interação da cultura cristã e inglesa com a sua própria cultura Yorubá e nigeriana, da mesma maneira que o autor funde convenções e tradições dessas diferentes culturas teatrais em sua escrita. Na comédia The Lion and The Jewel (1959), em que uma mulher precisa escolher entre dois pretendentes, um professor que preza a modernização, e um chefe de aldeia que prefere a tradição. Similarmente, em outra de suas peças filosóficas, Death and King’s Horseman (1975), um cavaleiro chefe é interrompido por oficiais britânicos de seguir a tradição Yorubá e suicidar-se após a morte de seu rei.
Winsome Pinnock
A primeira mulher negra a ter um drama apresentado no National Theater, Winsome Pinnock é uma autora importantíssima para conhecer o drama das últimas décadas. Suas obras, publicadas desde a década de 1980, são conhecidas por se centrarem em personagens negros em diferentes cenários geopolíticos dentro da relação colonial e imperialista com a Inglaterra. Em cena, as vozes das personagens exploram, desabafam e respondem às condições subalternizadas de diversos contextos, mas especialmente da diáspora negra. A Hero’s Welcome (1989) força as três jovens protagonistas à difícil procura de uma saída da precariedade tendo que o casamento, a solução, fica fora do contexto do pós-guerra das Índias Ocidentais. Uma das suas maiores obras, Rockets and Blue Lights (2020) reapropria o cenário de comércio escravista da pintura homônima do aquarelista JMW Turner para dar corpo à violência da história negra britânica, navegando entre o século XIX, no qual dois londrinos contemplam a recente abolição da escravidão e o peso e o sentido da liberdade, e o século XXI, em que um elenco tem que conviver com o trauma do passado enquanto produzem um filme sobre o pintor.
Tony Kushner
O autor Tony Kushner é conhecido por suas contribuições marcantes ao drama queer e judeu na forma de examinações da história americana em suas obras. Vencedor do Pulitzer, dos Tony e Academy Awards, entre outros, Kushner é também conhecido por seu trabalho como roteirista e adaptador, tendo colaborado repetidamente com o diretor americano Steven Spielberg. A sua magnum opus, Angels in America (1991), apresenta em uma trama complexa a cidade de Nova York na década de 1980, em meio a epidemia de AIDS. Acometidos pela homofobia internalizada e os conflitos causados por suas criações religiosas, além do luto pelos adoecidos e pelo adoecimento do próprio corpo, os personagens são visitados por figuras espectrais de outros tempos históricos e por anjos, que observam o caos espalhado junto deles.
Chris Bush
A dramaturga e liricista Chris Bush é um dos mais novos nomes no teatro contemporâneo britânico. A autora assume o contexto histórico e político do Reino Unido como o cenário e as condições materiais de seus personagens. O musical Standing at the Sky’s Edge (2019), cuja trilha sonora foi co-escrita por Richard Hawley, guitarrista da banda Pulp, segue, simultaneamente, três narrativas ambientadas no mesmo edifício residencial, em momentos históricos diferentes. Apropriando-se do edifício histórico do Park Hill, uma construção brutalista de 900 apartamentos finalizada no final da década de 1950, o drama segue o desenvolvimento sócio-político britânico mirando nos direitos mais básicos de seus protagonistas. Outro exemplo marcante que brinca com a história pode ser visto em Faustus: That Damned Woman (2020), em que o famoso personagem, aqui a filha de uma bruxa executada no século XVII, realiza o temido pacto não para o próprio ganho, mas para presenciar o avanço dos direitos das mulheres na história.
Já conhecendo ou não esses íncriveis autores, convidamos você a conhecer mais sobre o drama e o teatro contemporâneos, seja lendo os textos dramáticos que recomendamos ou assistindo suas produções gravadas/ao vivo.
Publicado por
É graduando em Letras - Inglês/Literaturas na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e bolsista do projeto de extensão Literatura Inglesa Brasil, sob orientação da Profa. Dra. Marcela Santos Brigida.
