Literatura Inglesa Brasil

Anne Carson: uma recomendação

Por sua obra “ousada e inventiva que, em diálogo lúdico com a tradição clássica, criou novas formas para a literatura contemporânea”, a poeta, classicista, tradutora e ensaísta canadense Anne Carson recebeu em outubro deste ano o prêmio Nobel de Literatura. A escritora tem construído desde a década de 1980 uma contribuição que, realizando uma fusão de diferentes domínios e formas, apresentou novas maneiras de enxergar a literatura. O mês de outubro não forneceu somente essa vitória, mas também outra ainda mais valiosa para o mantimento da democracia, da literatura e da vida em termos globais. As duas conquistas, uma no campo das literaturas de língua inglesa, e outra no campo da política brasileira, comprovam mais do que o trabalho de seus autores; elas refletem a relevância deles no cenário atual, a insistência de um mundo para com eles, e por isso, elaboro neste ensaio uma recomendação de leitura dessa importante autora.

As publicações de Carson mantiveram uma relação estreita com a sua longa carreira acadêmica, com a sua dissertação de doutorado vindo a se tornar o seu primeiro livro crítico, Eros, o doce-amargo: um ensaio. Lançado em 1986, a obra explora conceitos relacionados ao Eros e ao erótico por meio da filosofia clássica e a literatura grega antiga, e da literatura ao longo dos séculos. O texto tem se desdobrado em leituras nos campos da literatura, filosofia e psicanálise acerca do desejo e dos afetos. Tais questões, recorrentes na obra de Carson, refletem a questões de uma voz poética que se entrelaça com a voz ensaística na escrita da autora. Como sugerido no próprio livro, “parece haver alguma semelhança entre o modo como Eros age na mente de quem ama e o modo como o conhecimento age na mente de quem pensa” (2022, p.107, trad. Julia Raiz).

A sua primeira poesia foi publicada ainda antes de Eros, em 1984, um poema em prosa sob o nome de “Canicula di Anna”, que veio a ser republicado na coleção de textos Plainwater, de 1995. No poema, a voz do eu-lírico se desloca por entre diferentes formas e tempos, ao narrar uma conferência de fenomenologistas em Perugia, na Itália, ao mesmo tempo em que narra o seu ato de pintar essa conferência, depois de ter introduzido a mesma cena, num conclave, na Perugia do século XV. Ao longo do poema, o eu-lírico referencia a Anna titular como uma mulher do seu passado cuja falta permeia a narrativa, ensaiando sobre e posando diferentes questões não apenas sobre o afeto, mas sobre uma ontologia daquelas cenas ali enredadas. A coleção Plainwater segue essa mesma linha em torno de indagações que, partindo da filosofia, da tradução e da academia, tentam responder a respeito do vão entre “eu” e “você” – uma distância, uma falta própria do outro em si, que já é discorrida no livro de 1986.

Outro livro de poemas, dessa vez bem menos longos, foi publicado em 1992 sob o nome de Falas curtas, em que cada fala articula uma reflexão acerca de determinado assunto, como os Homo Sapiens, Sylvia Plath, Gertrude Stein, Ovídio, entre muitos outros. Similarmente, no ano de 1995, Carson publicou Vidro, ironia e deus, uma coleção de cinco ciclos de poemas que examinam e transitam entre a teologia, a literatura e a história, numa tentativa de refletir tanto aquilo que é histórico, quanto aquilo que é íntimo e pessoal. A obra é introduzida pelo condecorado poema “O Ensaio de Vidro”, no qual a narradora visita a mãe viúva para compartilhar a solidão após um desencontro amoroso, explorando, por meio dessa ida a “moorland” canadense, às suas leituras da obra de Emily Brontë. A escrita ronda as dores emocionais da narradora ao lado da obra da escritora inglesa, um poema confessional que esboça um ensaio de crítica literária.

Um título muito popular de sua bibliografia, Autobiografia do vermelho: um romance em versos, foi lançado em 1998. No romance, a autora resgata as próprias traduções dos fragmentos do poeta grego Estesícoro sobre o monstro vermelho e alado Gerião que é derrotado, na obra-fonte, por Héracles, em um dos seus dez trabalhos; nesta obra, o mito é transformado em Bildungsroman, em que Gerião é um jovem que se apaixona por Héracles, que parte o seu coração. Considerada uma obra que Carson ser reconhecida, a Autobiografia apresenta uma narrativa humorística e sensível sobre os afetos emocionais e sobre ser um artista, relacionando isso com a monstruosidade de Gerião, que o atormenta ao longo da narrativa, especialmente em meio à rejeição de Héracles e de outras pessoas. Ou seja, a autora transforma a batalha vencida da obra-fonte no amor perdido entre os mesmos personagens, a força física na fragilidade emocional dos afetos e afeições. O romance foi seguido por uma sequência narrativa em 2013, sob o nome de Red Doc>, no qual o par de personagens segue mais adiante na vida adulta.

Tendo vencido à autora o prêmio T. S Eliot em 2002, conquistado pela primeira vez por uma mulher, a coleção de poesia A beleza do marido: um ensaio ficcional em 29 tangos foi publicada em 2001. A escrita parte como uma elucubração dos versos de John Keats, que declaram que “Beleza é verdade, e verdade beleza”, para apresentar um relacionamento “fadado ao fracasso” que, calcado pela ideia do desejo como uma fixação, torna a durar décadas. Dessa maneira, o poema vislumbra que, assim como o tango, um casamento deve ser “dançado até o fim”. Como em outros de seus poemas longos, Carson secciona a sua narrativa, desta vez em “tangos”, cujos versos alternam entre longos e curtos, espelhando os movimentos da dança.

A escritora também enlaça a produção cultural de gêneros e meios diferentes, seja retratando ela na literatura, seja brincando entre formas. Noutro livro de textos, Men in the Off Hours, lançado no ano 2000, Carson inclui epitáfio, entrevista, tradução e até mesmo roteiro de TV entre os gêneros textuais utilizados. Dez anos depois, a autora lançou Nox, um livro que é tanto uma obra literária quanto uma obra visual; o objeto livro é um epitáfio em formato de caixa, da qual se tira um acordeão de papéis de fotografias, desenhos, e de uma tradução da elegia 101 do poeta romano Catulo. O luto é então traduzido para diferentes meios na mesma obra.

É importante, portanto, destacar aqui o trabalho de tradução de Carson, visto a sua presença nos seus poemas e na sua bibliografia, que elenca textos de autores clássicos importantes como Eurípides, Sófocles, e Ésquilo, além de Safo, cujos versos, na tradução de Carson, nomeiam a sua primeira grande obra. A escritora tanto traduziu as obras para o inglês, quanto as adaptou para novos enredos ou as inseriu em outras narrativas. O ato de traduzir aparece de diferentes maneiras, de uma indagação ontológica e epistemológica, como já é apontado em Eros e Plainwater, à forma de recriações de textos clássicos. Nesse sentido, nas reflexões e realizações da tradução, a autora recupera a situação da distância entre a partida e a chegada, similar a “eu” e “você”, a lover e beloved, a quem pensa e aquilo a ser concebido. De acordo com a sua leitura, no vão entre os dois reside o Eros, fazendo que mesmo os atos cognitivos e racionais sejam perpassados pelo afeto.

Assim, Anne Carson é autora de muitas obras de literatura, crítica, teoria e tradução, de modo que ainda há muito de sua escrita a ser desbravado e discutido. Esperamos ser possível identificar o ato da autora de destrinchar as linhas demarcadas entre os gêneros textuais, formas literárias e meios artísticos, de modo que possa ser entendido um movimento que unifica aquilo que parece ser da ordem do pensamento, do teórico, do racional e acadêmico, àquilo que parece ser da ordem do sentimento, do poético, do emocional e íntimo. Uma leitura da autora, nesse sentido, pode ser um convite para iluminar novas maneiras de enxergar a literatura e a história, a academia e a crítica, e, principalmente, os afetos. No contexto da luta pela democracia, o progresso e a vida, é possível resgatar a fala de Virginia Woolf sobre “lutar com a mente” para acender na obra de Anne Carson uma luz em meio à ameaça de tempos sombrios — uma das duas luzes acesas nesse outubro.

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