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Woolf lê o “hitlerismo inconsciente” no coração dos homens: leituras contemporâneas de “Thoughts on Peace in an Air Raid” (1940)Leitura em 15 minutos

Em meio à ascensão das direitas aos espaços de poder e à cooptação do pensamento político para práticas cada vez menos democráticas, é impossível não lembrar dos movimentos literários e políticos de Virginia Woolf. A autora modernista nasceu em meio a tantas crises que marcaram a passagem do século XIX para o século XX, como a Revolução Russa, a Primeira Guerra Mundial, o período entreguerras e a Segunda Guerra e a ascensão dos nazifascismos — estes que deram origem ao ensaio trazido à luz neste texto. Escrito em 1940 e publicado postumamente, “Thoughts on Peace in an Air Raid” (ou “Pensamentos de paz durante um ataque aéreo”, como foi publicado pela Editora Nós em 2021, com tradução de Ana Carolina Mesquita) reflete, em uma bela meditação sobre a vida humana e sua intrínseca condição de precariedade, sobre como o pensamento de paz, ainda que abalado ou visto como “secundário”, é o que mantém a possibilidade de superação. O presente texto propõe uma leitura que leve em consideração as reverberações contemporâneas deste e de outros textos Woolfianos. 

Em um misto autobiográfico e de prática diarista, é em A Sketch of the Past (Um esboço do passado, Nós/2020, trad. Ana Carolina Mesquita) que Woolf propõe uma teorização sobre a vivência humana, dotada de metáforas. Ela entende que a vida diária é marcada por certa passividade, em que muitas vezes parecemos agir no piloto automático: realizam-se as tarefas de um cotidiano que nos parece estável, com uma menor percepção destes arredores — em uma malha, ou “rama” de algodão (“cotton wool”) que parece uniforme e lisa. No entanto, Woolf entende que essa mesma trama é passível de alguma fragmentação através de momentos de choque ou de “Ser” (“Moments of Being”) que tiram o ser humano do que parece um “estado natural das coisas” e o levam a tratar o pessoal como também político. Esse processo de enlutamento, em que a vulnerabilidade do próprio eu e a sua própria constituição são reveladas (e aqui, fica evidente que essa leitura de Woolf é atravessada também por uma perspectiva butleriana), é, para a autora modernista, onde o discurso e o pensamento crítico se solidificam enquanto forma de agir, existir e resistir:

“I feel that I have had a blow; but it is not, as I thought as a child, simply a blow from an enemy hidden behind the cotton wool of daily life; it is or will become a revelation of some order; it is a token of some real thing behind appearances; and I make it real by putting it into words. It is only by putting it into words that I make it whole; this wholeness means that it has lost its power to hurt me; it gives me, perhaps because by doing so I take away the pain, a great delight to put the severed parts together.” (Woolf, 1939, grifo meu)

É ao puxar o fio que advém da dissolução dessa trama da vida comum que Woolf estabelece o ato da reflexão como uma forma de luta: como escreve em seu diário, datado de maio de 1940, “This idea struck me: the army is the body: I am the brain. Thinking is my fighting.” No entanto, ao escrever o ensaio ainda naquele mesmo ano, Woolf assume que a vulnerabilidade a um estado de morte no contexto da guerra, o risco da dizimação, era também uma ameaça ao pensamento que se tentava conduzir: “One, two, three, four, five, six…the seconds pass. The bomb did not fall. But during those seconds of suspense all thinking stopped. All feeling, save one dull dread, ceased. A nail fixed the whole being to one hard board.” (Woolf, 1940) Tal vulnerabilidade se materializava na ameaça de bombardeamento, cada vez mais presente com a proximidade da casa dos Woolf em Rodmell das zonas em risco de ataque aéreo pela Operação Leão Marinho — que visava a invasão da Grã-Bretanha e não foi concluída devido à forte resistência britânica e ao seu poderio militar, que afetaram a logística nazista. No entanto, um estado de atenção também era criado por suas dissidências políticas e pelo envolvimento intelectual altamente condenados pela Gestapo (uma precariedade ampliada, também, pelo fato de seu marido, Leonard, ser judeu).   

Os pensamentos de Woolf se desenrolam em “Thoughts of peace in an air raid” enquanto os barulhos dos aviões e bombardeamentos alemães ressoam do lado de fora, em um alto engajamento do corpo e dos sentidos com o desgaste mental promovido pela exposição e proximidade ao conflito. Seu desenvolvimento, no entanto, não segue a estrutura de um tratado tradicional sobre paz, mas é como uma meditação dotada de uma estrutura conversacional e não-linear também presente em sua ficção: entre idas e vindas, a mulher inglesa sobre as estruturas sociais, de pensamento e de poder que fazem tantos homens se associarem à guerra e ao militarismo, criticando também uma passividade ou inutilidade associada ao papel feminino em momentos de conflito. Woolf discute como o papel de pensar o futuro da Grã-Bretanha não pode ser reservado aos gabinetes e às mesas de conferência, sobretudo quando estes não tratam das raízes da violência e sua imposição histórica em uma cultura patriarcal e militarista. Nesse momento, questiona-se como esses espaços formais de decisão são compostos fundamentalmente por homens, marcando como a exclusão feminina nesses debates limita a abrangência das ideias e estimula uma postura de alienação e irresponsabilidade social. No entanto, em vez de ceder à apatia diante da falta de representatividade política ou ao pensamento de que mulheres deveriam se abster da vida pública. Esse cenário excludente, demarcado no (con)texto de Woolf, ainda vem circulando na contemporaneidade apesar dos avanços em representação feminina: vem se materializando uma circulação crescente de discursos antifeministas e tradicionalistas em nosso país, que elegeu representantes mulheres para posições de poder contraditórias aos seus próprios ideais de submissão e silenciamento (com um número tristemente expressivo de votos). 

 

É convocada uma resistência intelectual que nasce no eixo privado e no cotidiano: pensar contra o militarismo na esfera doméstica, em meio às tradicionais mesas de chá inglesas, é estabelecido como uma forma válida de lutar contra a hegemonia militarista. Entende-se o exercício individual e coletivo do pensamento como um espaço tão legítimo de exercício ideológico e resistência como os espaços da câmara e dos parlamentos:

[…]  Why not bury the head in the pillow, plug the ears, and cease this futile activity of idea making? Because there are other tables besides officer tables and conference tables. Are we not leaving the young Englishman without a weapon that might be of value to him if we give up private thinking, tea-table thinking, because it seems useless? Are we not stressing our disability because our ability exposes us perhaps to abuse, perhaps to contempt? ‘I will not cease from mental fight’, Blake wrote. Mental fight means thinking against the current, not with it. (Woolf, 1940, grifo meu)

A autora expõe que o autossilenciamento surge como um mecanismo tentador diante da opressão sistêmica. O apego a uma suposta incapacidade própria abriga uma tentativa de esquiva em relação à agressividade e à retaliação das instituições e do discurso social por elas alimentados e perpetuados. Ao denunciar essa dinâmica, Woolf demonstra que abdicar do pensamento crítico por medo do desprezo público significa ceder terreno ao próprio autoritarismo, reforçando a necessidade de transformar a reflexão privada em um ato firme de resistência: ainda que a mulher se deite sem armamento físico para se proteger à noite, seu exercício particular permite dar munição ao combate dessas ideologias. 

O seu apelo à integração do pensamento sobre a paz à vivência humana propõe a liberação de uma escuridão ciclicamente lançada a nossas vidas, através de políticas que veneram o poderio e a divisão entre os homens. Woolf tece uma profunda reflexão sobre o homem e a mulher ingleses, na tentativa de conceber a libertação daqueles que cedem seus corpos às imposições necropolíticas do Estado — ocupando o que ela chama de “uma prisão em céu aberto” nos aviões lançados ao combate contra o Eixo. Enquanto isso, demarca como a nação, como um todo, é prisioneira dessa série de medidas ,ao se privar das possibilidades que uma vida fora dessas condições permite — a reunião despreocupada com amigos e família, a poesia dos encontros, o exercício da liberdade sem o alerta de risco iminente. Questiona-se o que afeta a ordem da vida comum e os alto-falantes respondem “Hitler” em uníssono; nessa, a voz Woolfiana treplica: ” Who is Hitler? What is he? Aggressiveness, tyranny, the insane love of power made manifest, they reply. Destroy that, and you will be free.” (Woolf, 1940)

A figura de Hitler é colocada para além de quem ele é e de sua centralidade para ideais tão perversos quanto os nazifascistas. Colocam-se em vigor os ideais que o representam, mas também o excedem: a agressividade, a tirania e o amor pelo poder — cuja destruição representaria verdadeira liberação. Woolf articula a ideia de um “hitlerismo inconsciente” no coração dos homens através de um discurso de Lady Astor — primeira mulher a ocupar uma cadeira no Parlamento do Reino Unido — que traz a questão à tona (e culpabiliza esse ideal como motivo da inércia de tantas mulheres que seriam importantes para tal luta). O movimento de Woolf tenta trazer esses ideais para a superfície da consciência e para o eixo da articulação um desejo de dominação que é inextricável dos próprios ideais de masculinidade e da psique moderna: 

So let us think for him. Let us try to drag up into consciousness the subconscious Hitlerism that holds us down. It is the desire for aggression; the desire to dominate and enslave. Even in the darkness we can see that made visible. We can see shop windows blazing; and women gazing; painted women; dressed-up women; women with crimson lips and crimson fingernails. They are slaves who are trying to enslave. If we could free ourselves from slavery we should free men from tyranny. Hitlers are bred by slaves. (Woolf, 1940, grifo meu)

O desejo de dominar se faz presente em uma realidade marcada por agressões de maior e menor grau, físicas ou institucionais, onde a intencionalidade sempre perpassa a subjeção de um Outro às garras da violência e é apoiada por uma realidade cultural. Em um período histórico marcado pelo autoritarismo,  a autora demarca que figuras como a de Hitler não surgem em um vácuo, mas são alimentadas pelo culto ao domínio e por uma mentalidade de servidão. Até que ponto se faz efetivo lutar contra essas questões no espaço da Grã-Bretanha, se os jovens alemães e italianos continuam escravos de tal máquina e do estado de guerra? Como pode-se compensar o homem pela perda de sua arma e libertá-lo de uma necessidade fajuta de obter medalhas e decorações, que vem levando-o em direção a mais e mais conflitos? Como estabelecer o bem-estar social e o acesso aos bens humanos e à criatividade como questões mais honoráveis a que nos dedicarmos?

O ensaio vem tensionando, dentre essas e tantas outras questões que se multiplicam na tessitura do texto Woolfiano, um problema de escala global dentro das relações humanas, que transcende o contexto e o tempo de produção de “Thoughts of Peace in an Air Raid”. A leitura de um texto tão denso faz-nos questionar até que ponto estamos realmente livres dessas configurações de guerra e dos ideais fascistas. Há pouco mais de um mês, encenei-o junto a uma belíssima companhia teatral mobilizada pela organização do evento, junto a estudantes do Instituto de Letras,  no I Colóquio Internacional de Estudos Woolfianos no Brasil — cujas atividades se concentraram majoritariamente na Universidade do Estado do Rio de Janeiro, da qual fazemos parte. Durante tantos meses em contato com o fio que Woolf desenrola ao longo dessa obra e em seu pensamento crítico-político-literário, lemos-o coletivamente e entendemos que o som dos ataques aéreos que ecoa ao longo do texto e faz o leitor prender a respiração junto a Woolf não se distanciava da realidade em que vivemos. Este mesmo Rio de Janeiro que permite tantas belezas, como a de criar e pensar espaços do lado de fora/para fora do que temos como configuração social [ou a ideia de “Making Room Outside”, que se estabelece em A Room of One’s Own (1929) e Three Guineas (1938), mas que também reverbera no texto de 1940 que estudamos aqui e na sua obra literária como um todo], é o mesmo Rio de Janeiro segregado, tomado pela violência e pelo caos urbano nas áreas periféricas. Em nossa exploração de Woolf em um fazer artístico também marcado por nossa autoralidade e vivência, misturaram-se, junto aos áudios ecoados pelos alto-falantes dos anos 1940, aos barulhos de sirenes e bombas a serem lançadas, a gravação de um estado de alarme dos cariocas, ameaçados pelo cotidiano de operação policial e sons de troca de tiros. Ao encenar o texto de Woolf, foi inevitável não associar o estado de terror em que a cidade se encontrou cerca de um ano antes, na operação mais letal de sua história e que paralisou a cidade, pensamentos tranquilos e consecutivos sobre a paz e qualquer atividade intelectual: a única movimentação da cidade passou a ser a concretização de medidas necropolíticas em tal chacina, tida como um sucesso pelo governador da época, Cláudio Castro (e que, segundo suas próprias palavras, “higienizou mais de 115 vagabundos”).

A glorificação de um estado de guerra doméstico na cidade não é incomum, ainda que este tenha vitimado tantos todos os dias, e é evidente que o tratamento dessas questões na cidade vem tomando nuances cada vez mais centradas na violência. Assim como Virginia Woolf denunciou o “hitlerismo subconsciente” que alimentava a guerra na Europa, é possível encontrar uma exaltação da possibilidade de relegar comunidades historicamente segregadas, pouco apoiadas pelo Estado, a um contínuo de cerco e coerção realizado por instituições corruptas. O vocabulário do confronto armado e da destruição é cooptado pela população e adentra a vida comum — grupos populares acabam por exaltar a mesma força que os oprime. No texto woolfiano, os ideais de masculinidade e dominação se fazem presentes através dos aviões e dos armamentos, o que, lido em consonância com o cenário político local, parece ter se convertido na fetichização da arma de fogo por grupos extremistas locais. É possível localizar na lógica bolsonarista, de aumento expressivo ao longo dos anos que seguiram o impeachment de Dilma Rousseff e uma forte frente antipetista, uma frequente utilização de slogans cujo léxico advém da conquista (“Tropa do Flávio”, “Capitão”), bem como da própria utilização de semióticas fascistas (como a imagem do rosto do candidato em fundo preto e branco, cuja estética parece fazer referência a campanhas de Mussolini na Itália durante o governo do ditador na Segunda Guerra Mundial).

É evidente que tais posturas não se distanciam de uma série de ataques à ordem democrática, que fazem alusões ou agem com saudosismo à Ditadura Empresarial-Cívico-Militar de 1964 — que não foi fortemente repudiada e ensinada após o restabelecimento da democracia, e da qual boa parte da população desconhece os verdadeiros impactos. Anuviadas pela defesa instrumental da família tradicional e pela vigilância moral contra pautas progressistas — que se desdobram, na prática, em ataques sistemáticos às universidades públicas, aos educadores e à produção cultural —, essas estruturas políticas recorrem frequentemente à religiosidade popular como disfarce moral para a corrupção e para a manutenção do controle social, bem como a uma suposta forma correta de deter o avanço da criminalidade. Nesses termos, as instituições e as dinâmicas de pensamento criticadas por Woolf se estabelecem de forma explícita na contemporaneidade, demonstrando que a sacralização da força e o cerceamento da liberdade intelectual permanecem como pilares de sustentação da lógica autoritária. 

Em um cenário mais global, pode-se perceber uma perduração dessas políticas de coerção há certo tempo, desde a Guerra ao Terror e as ditaduras financiadas pelos Estados Unidos em países do Sul Global até a imposição de embargos econômicos, as restrições e perseguições a imigrantes, como também a recente ascensão de partidários de discursos nazifascistas ao redor do globo, pautadas por lógicas cada vez mais individualistas. Paralelamente, o avanço de partidos extremistas e conservadores nos espaços legislativos busca ativamente retroceder direitos consolidados e bloquear pautas voltadas às minorias políticas ou políticas de bem-estar social. Essas questões ecoam a denúncia de Woolf sobre uma hegemonia autoritária que sufoca lutas coletivas e perspectivas críticas, e reforçam a necessidade global por uma “luta mental” que questione essas medidas. Nas reflexões que culminam no final de seu ensaio, Woolf recusa uma perspectiva assolada pela possibilidade da tragédia: entender essas estruturas e perspectivas de poder como algo culturalmente e historicamente construído permite entender que a libertação do sujeito da máquina de guerra permite conceber novas formas de existência e pacifismo: “the seed does not fall upon altogether stony ground. The seed may be fertile.” (Woolf, 1940)

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É graduanda em Letras - Inglês e literaturas na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e contribui com textos para o projeto de extensão Literatura Inglesa Brasil, do qual já participou como bolsista. Tem como principal interesse de pesquisa a literatura contemporânea, atuando sob orientação da Profa. Dra. Marcela Santos Brigida.

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