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A experiência do devir em Winter (2017), de Ali SmithLeitura em 12 minutos

Em seu quarteto sazonal, como é explicado por Claire Armitstead em uma entrevista de 2019 com a autora, Ali Smith se propôs a escrever quatro romances que seriam publicados o mais próximo possível do final de sua escrita e discutiriam temas do contexto sociopolítico mais próximo, ao mesmo tempo em que trariam também referências da literatura inglesa canônica, como Charles Dickens e William Shakespeare. Baseados nas estações, os quatro livros são Autumn (2016), Winter (2017), Spring (2019) e Summer (2020). Nele, Ali Smith cria personagens que podem ser entendidos à luz do que a professora e crítica literária Toril Moi comenta sobre a escrita literária contemporânea e sua ênfase em personagens, em seu artigo de 2020 intitulado “Personagens reais – Crítica Literária e a virada existencial”1 .

No artigo, Moi discute a origem e pertinência do que ela chama de “tabu da crítica literária” (Moi, 2020, p. 4): a ideia de que tratar os personagens de uma obra como se fossem pessoas reais, capazes de existir no nosso mundo, é cair na ilusão criada pelo autor, principalmente no realismo, e um sinal de amadorismo crítico. Segundo Moi, o tabu surge e se mantém na crítica literária até os tempos atuais como uma maneira de separar a crítica profissional e a crítica amadora, estabelecendo limites sobre o que deve ou não ser analisado em uma obra literária. O que Moi questiona no final do artigo é se essa crítica literária tradicional daria conta dos romances contemporâneos que ela chama de “literatura existencial”, um tipo de literatura “preocupada com o que significa estar vivo aqui e agora, o que significa existir em um determinado período histórico social” (Moi, 2020, p. 18). Ela segue explicando que: “[…] a ‘virada existencial’ parece ter duas formas principais (na literatura): 1) autoficção explícita e 2) ficção construída através de personagens com forte investimento existencial” (Moi, 2020, p. 18). Porém, vale ressaltar que ela frisa que esses novos escritores existenciais não estão querendo voltar para o realismo, mas sim seguir “o projeto modernista de reconsiderar a subjetividade, mas de um novo jeito” (Moi, 2020, p.18). Ela defende que “Em um mundo cheio de notícias falsas, narrativas falsas, fatos falsos, esses escritores estão se agarrando à sua verdade existencial. Em outras palavras, eles insistem em deixar sua experiência importar” (Moi, 2020, p. 19). E criar personagens que demandam serem vistos como reais, sendo expressões de como os próprios autores veem o mundo, significa que esses personagens também fazem a experiência deles importar.

Para desenvolver mais o assunto escrita literária e realidade, trago também o texto “A literatura e a vida” (2011), em que Gilles Deleuze apresenta uma visão sobre a literatura como meio de devir, explicando que um bom escritor consegue criar uma zona de vizinhança onde o leitor consegue devir existências diferentes da própria, conhecendo assim o mundo visto pelos olhos de um outro. Esse devir, segundo o filósofo, é, obrigatoriamente, o devir minoria: “O devir não vai no sentido inverso, e não entramos num devir-Homem, uma vez que o homem se apresenta como uma forma de expressão dominante que pretende impor-se a toda matéria, ao passo que mulher, animal ou molécula têm sempre um componente de fuga que se furta à sua própria formalização” (Deleuze, 2011, p. 11). O que o escritor faz ao criar essa possibilidade de devir através da sua escrita é dar voz a um grupo sistematicamente oprimido e silenciado, permitindo que sua existência seja conhecida de forma específica, mas não generalizada.

Partindo, então, para a análise de Winter, de Ali Smith, começamos com uma breve apresentação de um dos personagens principais, e o escolhido para essa análise: Arthur Cleves, ou Art, um jovem londrino que conhecemos, na abertura do romance, depois de seu término com a namorada Charlotte. Somos apresentados a ele através da rememoração e dos comentários que ele mesmo faz sobre o término. Entre os motivos da discussão que leva ao fim desastroso do relacionamento, a postura apolítica de Art é uma das críticas de Charlotte: “Como você quer escrever sobre natureza e não falar de política?” (Smith, 2017, p. 53), ela questiona. Aprendemos, então, que Art escreve para seu blog pessoal, Art in nature, sobre diferentes acontecimentos naturais que despertam seu interesse:

Bem, eu apenas não sou político, ele disse. O que eu faço é por natureza própria não-político. Política é transitória. O que eu faço é o oposto de transitório. Eu acompanho o progresso do ano no campo, eu observo de perto as estruturas de cercas vivas. Cercas vivas são, bem, elas são cercas vivas. Elas só não são políticas (Smith, 2017, p. 59).

A discussão vai ficando mais acalorada com Charlotte tentando tirar dele alguma consciência política ou tentando despertar alguma preocupação ou empatia pelos diversos problemas sociais que ela cita, mas a apatia de Art resiste: “Nós estamos bem, ele disse. Pare de se preocupar. Temos dinheiro suficiente, e nós dois temos bons empregos. Nós estamos ok” (Smith, 2017, p. 55), ao que Charlotte responde: “Egoísmo ser sua postura padrão não está nada ok” (Smith, 2017, p. 55). E Art se demonstra tão despreocupado com as críticas de Charlotte que, no final da rememoração da briga, ele acredita que Charlotte esteja com tanta raiva porque provavelmente viu os rascunhos dos e-mails que ele planejava mandar para a ex-namorada, chamando-a para um
encontro.

Assim, Art percebe que outro problema aparece com o término: ele havia insistido em levar Charlotte para a casa da mãe, onde deveriam passar o Natal juntos. Como justificar a ausência dela agora? Sua mãe, Sophia, sempre muito crítica e severa, provavelmente não ficaria feliz com a mudança de planos. Envolto nesse potencial desastre, ele avista, do lado de fora do prédio onde ele está, uma jovem sentada no ponto de ônibus. Ele a observa à distância por um tempo e percebe duas coisas: ela não entra em nenhum ônibus que para e parece estar concentrada em ler alguma coisa. Ao se aproximar, Art percebe que o que ela está lendo tão atentamente é um folheto de restaurante com os itens do menu. Ele decide puxar assunto com a jovem e acabam indo para uma lanchonete conversar. Art decide oferecer mil libras para essa estranha fingir ser sua namorada durante o final de semana de Natal, já que a mãe dele nunca tinha visto a Charlotte. Eles firmam o acordo e marcam de se encontrar na estação de trem em três dias.

O relacionamento de Art com essa jovem, que ele descobre se chamar Lux quando eles se encontram para a viagem, é o que força uma mudança nele, fazendo-o se importar um pouco menos com ele mesmo e um pouco mais com os outros. Durante o final de semana, ele e Lux vão se conhecendo e quanto mais ele descobre sobre ela, mais ele precisa repensar suas ideias. Através da perspectiva dele, descobrimos que Lux é uma imigrante que vai para Londres estudar, mas seu dinheiro acaba. Agora ela se encontra sem casa e transita entre dormir em lugares públicos, como a biblioteca, e o lugar onde ela trabalha, quando isso é possível, já que a condição de imigrante faz com que ela mude de emprego constantemente. Ele repara no quão visivelmente magra ela
está, que suas roupas estão “limpas, porém gastas” (Smith, 2017, p. 78), e, para nós leitores, o fato de ela ter aceitado dinheiro para passar o Natal com um desconhecido, na casa da mãe dele, também denuncia sua situação de vulnerabilidade. Apesar do pouco tempo que passam juntos durante o feriado, Art é fortemente marcado por Lux, por sua espontaneidade e inteligência, seu pensamento “fora da caixa” e como ela consegue, de certa forma, “quebrar” a barreira de Sophia, sua mãe, que costuma ser tão inacessível para todos, principalmente o filho. Com ela, Art consegue conhecer uma nova perspectiva, diferente da sua, num devir mulher-imigrante que o muda profundamente. O que pode nos frustrar mais no Art, como leitores, é, ao mesmo tempo, o que faz dele um exemplo de “personagem como pessoa real”, no sentido que Moi apresenta em seu artigo: um personagem que faz sua existência importar. E Art é como muitas pessoas reais do nosso convívio, que se abstêm do agir e pensar político. E no caso dele, podemos destacar dois motivos para tal, que não são incomuns na realidade: os privilégios de ser um homem branco, de situação social e financeira confortável, e um histórico de conflitos por discordância política na família, entre a mãe e a tia, Iris. Como temos visto nos últimos anos, as discordâncias políticas têm sido motivo de
afastamentos e separações entre familiares, amigos e colegas de trabalho. O clima de hostilidade e hiper individualidade que permeia as discussões políticas pode ser apontado como um motivo para essa abdicação de alguns indivíduos que, mesmo no caso de não terem os mesmos privilégios que Art, ainda se esquivam da política. E a nossa cultura capitalista e individualista tem dificultado e desestimulado o contato, a empatia e compaixão em relação ao outro, ao diferente, ao “não-eu”. Quando as disputas políticas se resumem a “nós” vs “eles”, a comunicação entre os grupos se desfaz.

O que Moi (2020) e Deleuze (2011) nos oferecem com seus textos é um caminho de recuperação do diálogo entre grupos e indivíduos diferentes, através da literatura: essa literatura existencial que funciona como uma janela para uma existência que não a nossa, de modo que nos faça conhecer as perspectivas desses outros oprimidos e sem voz, a fim de criar um sentido de coletividade possível. Em Winter, o devir não é sobre a experiência do Art em si, visto que ele não ocupa um grupo minoritário e oprimido, mas sim sobre a relação dele com Lux. O falso relacionamento dos dois faz com que ele conheça mais da vida dela ao longo dos dias, e é ao ficarem próximos que Art consegue, mesmo entre deslizes de egocentrismo, pensar em como a vida pode ser a partir da perspectiva de outra pessoa. E, no caso de Lux, apesar de estar no mesmo lugar e época que Art, ela tem acesso a uma experiência de vida radicalmente diferente da dele. Esse seria o movimento de devir do personagem dentro da história, um devir mulher-imigrante, e como a perspectiva de Art como personagem é o meio como o leitor acessa a história, daí pode existir um espelhamento desse movimento de devir.

A principal mudança que nos interessa, e que floresce em Art a partir de seu relacionamento com Lux, pode ser observada comparando os textos para o blog Art in nature: os textos anteriores a Lux seguem a lógica apolítica que Charlotte critica na discussão inicial. Mas depois que eles se conhecem, três textos aparecem entre os capítulos do romance: o primeiro, de janeiro, fala sobre um ocorrido na Câmara dos Comuns do Reino Unido, onde uma parlamentar é respondida com “latidos” durante sua fala; o segundo texto é sobre notícias em telão na estação de trem: a quantidade
exacerbada de plásticos no mar, ataques entre membros do parlamento de um mesmo partido e, por último mas não menos deprimente, os resultados de uma votação popular que mostram que a maioria dos cidadãos não concorda que pessoas de outros países tenham todos os direitos de um cidadão nativo, independente de quanto tempo residam no país. O terceiro e último texto é o capítulo final do romance, e o tema é a fala de Donald Trump, no seu primeiro ano de mandato, dizendo que “Aliás, sob a administração Trump, vocês voltarão a dizer ‘Feliz Natal’ de novo quando forem fazer compras. Feliz Natal. Eles têm desvalorizado essa linda pequena frase. Vocês vão dizer ‘Feliz Natal’ de novo, pessoal” (Smith, 2017, p. 322), o que Art comenta escrevendo “No meio do verão é inverno. Natal Branco. Deus nos ajude, a todos” (Smith, 2017, p. 322). O teor político explícito desses textos nos apresenta um novo Art, diferente do Art do início do romance.

Podemos então pensar que essa mudança observada no personagem espelha a mudança possível de florescimento na relação leitor x literatura, dada através do devir minoria, que pode ser o caminho para a retomada do diálogo entre grupos, desafiando a cultura de divisão do “nós” vs “eles” e possibilitando um senso de coletividade a partir do que temos em comum como humanos.

[1] Todas as traduções de textos originalmente publicados em inglês são de minha autoria.

Referências

ARMITSTEAD, Claire; SMITH, Ali. Ali Smith: “This young generation is showing us that we need to change and we can change”. The Guardian, Londres, 23 de março de 2019. Disponível em: https://www.theguardian.com/books/2019/mar/23/ali-smith-spring-young-generation-brexit-future

DELEUZE, Gilles. A literatura e a vida. DELEUZE, Gilles In: Crítica e clínica (2a ed.). Trad. Peter Pál Pebart. São Paulo: Ed. 34, 2011, p. 11-17.
MOI, Toril. Real Characters – Literary criticism and the existential turn. The Point Mag. Issue 21, p. 1-23, January 28, 2020.
SMITH, Ali. Winter. New York: Anchor Books, 2017.

Publicado por

Karen Marques

É graduanda em Letras – Inglês/Literaturas na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e bolsista do projeto de Iniciação Científica “A kind of keeping the novel novel project: Uma nomadologia do romance contemporâneo na literatura inglesa”, sob orientação da Profa. Dra. Patricia Marouvo.

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