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A colagem e a ficção contemporânea em Autumn, de Ali SmithLeitura em 11 minutos

Ali Smith, ao propor a seu editor um projeto de romances que remontasse àquilo considerado “novo”, escreve seu quarteto sazonal composto por livros intitulados de acordo com as estações do ano e que, publicados entre 2016 e 2020, têm suas narrativas situadas no tempo cronológico de concepção da escrita, abordando, portanto, as preocupações de um mundo pós-Brexit, o primeiro mandato do atual presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e o cenário mundial cada vez mais inclinado à extrema direita. Para este ensaio, o foco está no primeiro livro da série, Autumn, e em como sua forma estabelece conexões com elementos passados para que sejam pensadas questões do contemporâneo. 

Em Contemporary Fiction: A Very Short Introduction, Eaglestone discute a liberdade que a literatura tem de ultrapassar limites ao tratar de gênero literário, forma e temporalidade na ficção contemporânea, destacando que a forma não seria exatamente o que está escrito, mas como está escrito, moldando de que maneira um texto se desenvolve:

A forma, e as decisões que ela implica, é o que faz um romance ser diferente (ou igual, já que romances podem fazer o que quiserem) de um livro de história ou um jornal (embora esses tipos de texto tenham sua própria forma). A forma é a maneira de contar a história, e — como não podemos separar a história de sua narração, nem o dançarino de sua dança — isso significa que a forma é a essência do romance. A forma é a maneira de ver e a maneira de contar do escritor. (Eaglestone, 2013, p. 25, tradução minha)

O autor disserta sobre o tema, analisando como o contemporâneo desafia convenções realistas principalmente ao resistir à necessidade de resolução, ao mesmo tempo que evidencia um legado modernista ao trazer um aspecto de inovação e experimentação, muitas vezes visto em enredos fundamentados em múltiplos pontos de vista ou em sequências não-lineares, por exemplo. Em Autumn, isso pode ser visto através da forma privilegiada por Smith para delinear uma nova visão de mundo: a colagem. A engrenagem do romance é composta por peças de diferentes origens — a escritora faz uso de referências literárias, bem como recorre às artes visuais e plásticas a fim de contar uma nova história, compor uma nova perspectiva de mundo. 

A narrativa se inicia com uma referência a A Tale of Two Cities, de Charles Dickens: “Era o pior dos tempos, era o pior dos tempos” é a frase que abre o primeiro capítulo, seguida por “De novo. Essa é a questão sobre as coisas. Elas se desfazem, sempre se desfizeram, para sempre irão se desfazer, está em sua natureza. Então, um idoso é lançado à beira-mar” (Smith, 2016, p.3, tradução minha). O idoso é Daniel Gluck, um dos personagens centrais de Autumn que aos 101 anos se encontra num coma. Assim, o que temos de seu ponto de vista no momento presente é um cenário onírico, um mergulho em seu inconsciente. Memórias de sua vida são ou resgatadas nessa ambientação ou integradas à trajetória de Elisabeth Demand, jovem que o visita no asilo e que foi sua vizinha e amiga durante a infância e adolescência. É pelos olhos dela que se tornam mais urgentes as problemáticas políticas, sociais, climáticas, raciais e de gênero do ano de 2016, mas é a sobreposição da história de Daniel, cidadão britânico e alemão, marcado pela Segunda Guerra, que estabelece a ponte entre presente e passado. A instabilidade na Inglaterra pós-Revolução Francesa retratada em Dickens é ecoada na cisão pós-Brexit e atua de modo a trazer luz aos projetos nacionais e seus propósitos: se em A Tale of Two Cities o lema “Liberdade, Fraternidade, Igualdade – ou Morte” pode ser distorcido em favor da vingança, na Europa a campanha do Brexit promove um desejo por unidade — um nacionalismo que pretende sua representação num corpo uno, num sistema que não permite dissidência (Marouvo, 2022, p. 113). Com sua dupla cidadania, Daniel se opõe ao ideal nacional em dois pontos históricos: 1936 e 2016. Uma de suas lembranças numa viagem de trem com a irmã põe em foco a ideologia eugenista valorizada durante o período de Guerra: 

As pessoas ao seu redor estão falando sobre a necessidade de desenvolver meios científicos e legais para determinar exatamente o quê cada um é. […] A medição de partes do corpo, em especial os traços da cabeça, pode revelar, de maneira concisa, tudo o que é preciso saber. A cor dos olhos, a cor do cabelo, as dimensões da testa. (Smith, 2016, p. 100, tradução minha)

Já na infância de Elisabeth, em 1993, sua alteridade é ainda mais evidenciada quando temos acesso às opiniões da mãe de Elisabeth: quando a filha precisa fazer um trabalho escolar que consiste em entrevistar seu vizinho, a mãe tenta a dissuadir e revela sua desconfiança em relação a Daniel: “Bicha velha, disse a mãe de Elisabeth em voz baixa. Por que ele? ela disse num tom de voz normal.” (Smith, 2016, p. 43, tradução minha). A rejeição baseada na suposta homossexualidade de Daniel, vista no uso pejorativo de bicha, mostra certa preferência por uniformidade e inclinação ao conservadorismo que não se refere somente à mãe de Elisabeth, mas que se revela sintomática e crescente na sociedade atual. Esses aspectos são ilustrados de maneira quase cômica quando Elisabeth tenta renovar seu passaporte e os funcionários da agência de correios alegam que sua foto de identificação não poderá ser utilizada pois não se adequa às medidas exigidas:

[…] 24 milímetros. Como eu imaginava.

Bom, diz Elisabeth.

Não é bom, o homem diz. Receio que não seja nada bom. Seu rosto é do tamanho errado. […] O tamanho correto para um rosto na fotografia enviada, o homem diz, é entre 29 milímetros e 34 milímetros. O seu está 5 milímetros abaixo disso.

Por que meu rosto precisa ter um tamanho específico? Elisabeth diz.

Porque é o que está estipulado, o homem diz. […] Espero que você não leve a mal se eu escrever nesse campo que você não bate bem da cabeça. (Smith, 2016, p. 24, tradução minha)

Nessa passagem é possível ver a intervenção de um órgão estatal na estipulação de quais corpos são adequados a fim de traçar padrões para uma sociedade modelo. Esse fator ganha maior destaque por se sobrepor à leitura de Brave New World, obra que Elisabeth resolve ler enquanto está na sala de espera. A distopia de Huxley, escrita na década de 30, traz uma perspectiva futurista de sociedade em que individualidade e subjetividade são elementos dispensáveis em nome da eficácia e funcionalidade da comunidade como um todo, daí o lema que os guia no romance: Comunidade, Identidade, Estabilidade. O apagamento dos fatores que nos distinguem uns dos outros, nos tornando ferramentas operantes em função da regulação sistemática é também abordado por Agamben no século XX, quando o filósofo se apropria dos termos gregos zoé e bíos para analisar o contexto político ocidental da época: o primeiro se refere à vida enquanto existência compartilhada por humanos, animais, plantas, descrita como o “belo dia” por Aristóteles, ao passo que bíos está ligado a algo além da mera existência, ou seja, uma vida qualificada e política, onde somos sujeitos atravessados por nossas relações com o outro, onde podemos constituir um senso de individualidade e identidade. Se há, entretanto, distinção entre o simples viver e o viver político, a zoé está situada às margens do ordenamento de acordo com o poder soberano e é determinada enquanto “vida nua”, caracterizada por ser incluída no âmbito político apenas por sua excluibilidade, sua matabilidade (Agamben, 2007). Na democracia moderna, então, a vida nua torna-se uma ameaça por ser a redução à dimensão biológica, ou ainda, a formas de vida não amparadas pelo Estado, servindo de excepcionalidade. Para o autor, 

Até que, todavia, uma política integralmente nova — ou seja, não mais fundada sobre a exceptio da vida nua — não se apresente, toda teoria e toda praxe permanecerão aprisionadas em um beco sem saídas, e o “belo dia” da vida só obterá cidadania política através do sangue e da morte ou na perfeita insensatez a que a condena a sociedade do espetáculo. (Agamben, 2007, p. 18)

 Longe de ser uma concepção isolada no século passado, a vida nua permeia o momento atual, e embora a proposta de Smith não seja suficiente para um desmonte da ascensão política totalitária, ela certamente oferece uma mudança de perspectiva que pode ser ponto de resistência contra a imposta superfluidade humana. A nova organização da realidade proposta por Smith pode ser vista através dos estudos desenvolvidos por Elisabeth: a artista pesquisada em sua monografia, Pauline Boty, teve sua obra esquecida e recuperada ao longo dos anos, e é dada maior ênfase a seus trabalhos com colagem. É Daniel quem inicialmente descreve as telas que Elisabeth terá a chance de analisar como objeto de estudo, como Scandal 63. A pintura tem centralizada a figura de Christine Keeler, jovem modelo que acabou contribuindo na queda do partido conservador britânico na década de 60: envolvida com um militar russo, teve um caso paralelo com o então secretário britânico de Guerra, John Profumo, que desencadeou um escândalo político e sexual que seria articulado na eventual vitória da oposição futuramente. No romance, temos que:

Keeler havia dormido com dois homens, um deles fora Secretário do Estado da Guerra no governo de Londres, outro, um diplomata Russo, e a questão era sobre mentiras descaradas no Parlamento, e então sobre quem detinha mais poder e quem possuía informações sobre armas nucleares — exceto que, logo, pelo menos aparentemente, o assunto passou a ser algo completamente diferente, era sobre quem era o dono de Keeler, quem a agenciava e quem lucrava ou não com isso. (Smith, 2016, p. 225, tradução minha)

A objetificação e desumanização de Keeler é desafiada por seu posicionamento na obra de Boty, evidenciando o potencial artístico de reavaliação da realidade, como é posto por Elisabeth: “arte como esta examina e possibilita uma reavaliação das aparências externas das coisas ao transformá-las em algo além de si mesmas. A imagem de uma imagem significa que a imagem pode ser vista com uma nova objetividade, com uma libertação em relação ao original.”  (Smith, 2016, p. 226, tradução minha). 

Assim, o componente de artes visuais e as referências literárias que permeiam o romance se apresentam como um conjunto de retalhos de diferentes materiais que ajudam a pensar a condição humana no contexto social e político presente com base no diálogo realizado com obras situadas no passado. A construção da narrativa se dá em “pinceladas”, camadas que criam um texto polifônico que privilegia, acima de tudo, um projeto de mundo que visa o coletivo. Quando dissertando sobre estilo literário e conteúdo, Smith defende que o estilo, união da forma e da voz literária, é a prova da existência em comunidade, pois sempre é pensado em relação ao outro (Smith, 2012, s.p.). A colagem como forma que delineia a ficção, por fim, citando a autora pode ser aquilo que nos “lembra de ler o mundo como um construto. E se você pode ler o mundo como um construto, você pode fazer perguntas ao construto e sugerir meios de mudá-lo. Você entende que as coisas não são fixas”. (Laing; Smith, 2016, s.p., tradução minha).

Referências

AGAMBEN, Giorgio. Homo Sacer: o poder soberano e a vida nua. 2ª ed. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2007. 

EAGLESTONE, Robert. Contemporary fiction: a very short introduction. Oxford: Oxford University Press, 2013.

LAING, Olivia; SMITH, Ali. Ali Smith: “It’s a pivotal moment… a question of what happens culturally when something is built on a lie”. The Guardian, Londres, 16 de outubro de 2016.

Disponível em: <https://www.theguardian.com/books/2016/oct/16/ali-smith-autumn-interview-how-can-we-live-ina-world-and-not-put-a-hand-across-a-divide-brexit-profu>.

MAROUVO, Patrícia. Autumn, de Ali Smith – uma colagem modernista na contemporaneidade. In: JORDÃO, Adriana; MEDEIROS, Fernanda. Literaturas de língua inglesa: leituras interdisciplinares, vol. VII. 1ªed. Rio de Janeiro: Letra Capital, 2022, p. 108-122.

SMITH, Ali. Ali Smith: Style vs content? Novelists should approach their art with an eye to what the story asks. The Guardian, Londres, 18 de agosto de 2012. Disponível em: <https://www.theguardian.com/books/2012/aug/18/ali-smith-novelists-approach-art>.

SMITH, Ali. Autumn. New York: Anchor Books, 2016.

Publicado por

Shayene Feitoza da Cruz

Shayene Feitoza da Cruz é mestranda e bolsista CAPES na Universidade do Estado do Rio de Janeiro, onde completou também sua graduação em Letras - Inglês/Literaturas como bacharel e licenciada. Durante a graduação, participou como voluntária no projeto de pesquisa “A kind of keeping the novel novel project: uma nomadologia do romance contemporâneo na literatura inglesa”, coordenado pela Profa. Dra. Patricia Marouvo. Atualmente concentra seus estudos na área de Literaturas de Língua Inglesa, pesquisando as relações entre o Modernismo e o Contemporâneo com base nos trabalhos de Virginia Woolf e Maggie O’Farrell, sob orientação da Profa. Dra. Patricia Marouvo.

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