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Sempre viveremos em tempos góticosLeitura em 22 minutos

Imagem da série da HBO "The Last of Us" com os dois protagonistas caminhando por uma rua deserta após apocalipse zumbi

We live in Gothic times” é a conclusão a que a jornalista e escritora britânica Angela Carter chegou na década de 1970. Em um contexto de Guerra Fria, crise de petróleo, escândalos políticos do Watergate e um número crescente de sequestros aéreos (“skyjackings”), sua percepção não é nada isolada da realidade — a dela e a nossa. Hoje, em meados da primeira metade do século XXI, olho para aquele cenário e encontro aproximações significativas: a Guerra Fria ainda divide o mundo em uma estrutura bipolar — em seu fim, talvez — que dita guerras; a disputa por petróleo ainda rege um planeta em crise climática, e cada vez mais próximo do ponto de não retorno; países ainda são ilegalmente invadidos, presidentes são sequestrados, e a disputa por óleo ainda faz do Oriente Médio um ponto de interesse intervencionista. Além disso, a lista de Epstein revela os horrores inenarráveis de uma elite política e econômica que se perverte (de modo negativo) por simples prazer e poder, refletindo aquela velha ordem aristocrática em que os poderosos podem tudo, apesar de todos.

Isso não fica distante de um contexto brasileiro, onde a pandemia de Covid-19 fez com que pessoas famintas formassem filas para conseguir pedaços de ossos com retalhos de carne[1] enquanto os jatinhos particulares da elite faziam fila para pousar na Bahia para festas de fim de ano[2]. O genocídio da população negra nas favelas cariocas também ganha proporções trágicas e espetacularizadas, e escândalos no mundo financeiro apontam para corrupção em todos os níveis de poder: executivo, legislativo e judiciário. Mais assustadoramente talvez seja o aumento recente de casos de violência contra a mulher, desvelando uma misoginia que há tempos se intensifica na Internet através da uma cultura red pill. Por trás de um suposto “melhoramento” masculino, o que se vê ali é uma forma desesperadamente violenta e fascista de tentar manter um capitalismo que dá sinais de falência. Por esses motivos e tantos outros, arrisco dizer que ainda vivemos em tempos góticos: sombrios, cruéis, de ansiedade e de colapso, mas também de vislumbre de possibilidades outras, de formas de resistência que garantam continuidade e existência.

Com isso em mente, volto-me para o gótico como uma poética, um modo de imaginar e questionar períodos de ansiedade histórica, que surge quando aquilo que deveria trazer ordem (ciência, progresso, tecnologia, política) passa a produzir medo, estranhamento e revolta. A sua mobilidade temporal e de espaço abre o mundo inteiro para as suas intervenções, de modo que o gótico existe para muito além de uma Inglaterra oitocentista às voltas com o pavor da contaminação pelos atos revolucionários franceses. Como uma manifestação cultural, social e política, acredito que o gótico tenha se tornado uma gramática através da qual interpretamos o mundo ao nosso redor. Um exemplo disso é a maneira como o ex-ministro da Saúde Nelson Teich, no ato de sua posse em 2020, descreve a situação do país e do mundo frente à Covid-19:

Então a gente vive não só um problema clínico, que é de cuidar da doença, mas é de administrar todo o comportamento de uma sociedade que hoje está com muito medo. Você anda nas ruas  — quando eu vim pra cá, eu vim do Rio de Janeiro, a gente passando pelo Santos Dumont, tudo deserto, gente com máscara. É uma coisa que parece filme, e é essa a realidade que a gente tá vivendo hoje e isso leva a muito medo (Teich, 2020, 3min, grifo meu)[3].

Teich parece descrever um mundo devastado por crises ecológicas e econômicas, como Mad Max (1979-2024) e Duna (2021, 2024), dirigidos por George Miller e Denis Villeneuve respectivamente, ou até mesmo um mundo após um apocalipse zumbi, como em Eu Sou a Lenda (dir. Francis Lawrence, 2007). No cenário de Teich, o vírus se torna monstro e figura fantasmagórica, e o locus horribilis é o nosso próprio cotidiano. De modo aparentemente inconsciente, o vocabulário do ex-ministro reflete uma estética gótica de crise — nesse caso, sanitária, social, econômica e humanitária.

 

Furiosa, em Mad Max: Fury Road (2015)
Furiosa, em Mad Max: Fury Road (2015)

 

A própria maneira como a pandemia transformou nossas vidas pode ser enquadrada pela poética gótica. Os lockdowns, por exemplo, além de criarem cidades-fantasma, nos levaram ao aprisionamento claustrofóbico das heroínas góticas encerradas em castelos assustadores e labirínticos. Se hoje a pandemia de Covid-19 ficou para trás, o que nos assola, ao que me parece, é uma presença-ausente de uma realidade espectral e virtual que, apesar de imaterial, parece muito concreta.

Na Internet na era da pós-verdade, guerras de “narrativas” são travadas, nas quais as fake news se tornaram armamento de uma extrema-direita que, assim como Signor Montoni, em Os Mistérios de Udolpho (Ann Radcliffe, 1794), compreende que o poder raramente se sustenta apenas pela força. No romance de Radcliffe, Montoni manipula informações, distorce verdades e cria um ambiente de medo para convencer Emily de que ela não possui direitos sobre a própria herança. Controlar a narrativa torna-se, assim, uma estratégia para controlar algo mais concreto: dinheiro, propriedades e, sobretudo, corpos e o seu potencial reprodutivo/reprodutor. Essa vilania gótica encontra eco nas disputas digitais em que versões da realidade são fabricadas e circulam massivamente, dissipando o véu que separa o fato da invenção mentirosa.

Em Doença como Metáfora; Aids e suas Metáforas (1989), Susan Sontag busca entender como as artes podem emprestar um léxico linguístico e cognitivo à nossa compreensão dos horrores que nos assolam. Sontag afirma que a mentalidade moderna é sempre consciente de desastres impensáveis, os prováveis e os que são de fato inevitáveis. Ela lança também uma proposição interessante: a invenção da câmera e a sua utilização pelo jornalismo não só disseminam acontecimentos, mas também causam o completo assombro pela própria imagem que reproduzem. Nesse cenário, a nossa realidade é bifurcada: o que é real e o que é apenas a sua versão alternativa? Somos assombrados tanto pelo que acontece diante de nossos olhos quanto pela projeção do que pode vir a acontecer.

Na era digital, isso se mantém em funcionamento, mas surgem outros fatores que complexificam essa bifurcação. Agora, além do evento e da sua imagem, e do evento e da sua projeção, existe também a imaginação e a sua cristalização em um certo número de pixels em tela. Se, anteriormente, a realidade era assombrada pela sua projeção alternativa, hoje em dia ela é perseguida pelo seu desmantelamento absoluto. As deep fakes (potencializadas pela facilidade de acesso a softwares de inteligência artificial e pela falta de ética dessas plataformas) produz mais do que vídeos de cachorros dançando, mas também vídeos falsos de lideranças políticas e, de modo absurdo e indiscriminado, imagens pornográficas sem o consentimento das vítimas a partir de fotos postadas em redes sociais, sobretudo de mulheres.

Ao mesmo passo que perfis inadvertidamente massificam o compartilhamento de imagens de desastres, chacinas e genocídios, ali também se produz um efeito uncanny: uma mesma trend, com o mesmo texto e ideia central, é feita e refeita por perfis distintos, às custas da própria exposição e/ou ridicularização, somente para gerar engajamento e, por fim, monetização. Além de tornar o próprio processo criativo em atividade mecanizada, abre-se uma fenda em que o real e o singular se tornam instáveis. Ou talvez, na verdade, a realidade sempre tenha sido instável e determinada por poucos em posições de poder. O que vemos agora, portanto, é a migração para uma estrutura que tem o potencial de disseminar informações, opiniões e imagens de modo nunca antes visto.

Paradoxalmente, esse potencial ao mesmo tempo positivo e negativo abre espaço para a inserção de outras vozes e experiências. Nesse contexto e em uma chave de leitura gótica, aqui se impõe ao mundo visível o reconhecimento daquele outro mundo de rejeitados, esquecidos, outsiders e monstros. Esse tipo de reinscrição ontológica de figuras dissidentes, por vezes violenta e frequentemente fatal, trata também de nunca deixar silenciar outras realidades, outros futuros possíveis, ou revelações assombrosas de futuros catastróficos. Assim, a fim de puxar o fio gótico que conecta passado a presente e futuro, proponho uma visão breve dessa poética e da forma como ela representa todo tipo de crise.

Em The Literature of Terror (1996), David Punter argumenta que o gótico não é apenas entretenimento ou escape, mas uma resposta a tensões profundas da sua época. Para Punter, o gótico nasce da crise e da contradição entre uma “cultura oficial” e o “gosto de fato” do século XVIII:

Oficialmente, o século XVIII foi a grande era do racionalismo e do iluminismo [entendido] como portador de uma filosofia progressiva radical que se distanciava de toda crença na fé e na religião em favor do progresso científico em direção ao conhecimento. […] talvez sua afirmação mais persistente seja de que o homem era potencialmente onipotente, e que não havia segredos no universo que permaneceriam ocultos se ele seguisse os caminhos da ciência e da razão. A razão humana era o único guia à verdade; e se existia um Deus, ele não tinha mais nenhum papel a desempenhar além de ter criado o universo (Punter, 1996, p. 23, tradução minha).

Essa predileção pela razão (marcadamente masculina) acontece às custas de um distanciamento do divino (e do feminino) e pela insistência positivista de que o conhecimento humano pode ser progressivo. Nessa seara, o humano foi reduzido a uma racionalidade circular e estéril, e aquilo que não pode ser assimilado pela razão tornou-se tabu e fonte de medo. É precisamente nessa empreitada racionalista que Punter (1996, p. 24) identifica o medo como raiz e produto de uma tentativa de controlar todos os aspectos da vida, de modo que a razão acabou por criar seus próprios inimigos.

Nesse momento inicial, o gótico também reflete a ascensão da burguesia, as suas incertezas sobre o passado e as ansiedades em relação à aristocracia. Isso se revela no modo como a aristocracia, a família e a igreja geralmente são retratadas nessas narrativas. Em O Castelo de Otranto (Horace Walpole, 1764), por exemplo, Punter (1996) lê Manfred como um vilão criminoso cuja violência e intimidação fazem dele uma caricatura de um barão feudal. Isto é, de uma aristocracia atrofiada que causa problemas no presente; fazendo chocar passado e presente. Como consequência, emerge aquele tropo central do gótico: a repetição dos pecados dos pais sobre seus filhos. Nesse sentido, o elemento sobrenatural tão comum na poética gótica posiciona-se em oposição ao racionalismo do iluminismo:

[…] torna-se um símbolo do nosso passado levantando-se contra nós, seja o passado psicológico (a realidade daqueles desejos reprimidos pelas exigências de uma sociedade rigidamente organizada) ou o passado histórico, reino de uma ordem social caracterizado pelo poder absoluto e pela servidão (Punter, 1996, p. 47, tradução minha).

A rejeição da aristocracia, em contexto mais amplo, conecta-se também à instabilidade social e política causada pela Revolução Francesa, que reverberou na Inglaterra sobretudo através do medo de invasão. Foi nesse período também que o romance gótico teve seu primeiro ápice em termos de quantidade e popularidade. O caos e a aparente fragilidade doméstica inglesa inundaram o mercado literário de um tipo de ficção que rejeitava um engajamento mais direto com atividades contemporâneas (seja como escapismo ou estratégia para escapar de censuras) em favor de ações e cenários geográfica e historicamente remotos.

A tríade composta por Udolpho, O Monge (Matthew G. Lewis, 1794) e The Italian (Radcliffe, 1797) representa o auge da popularidade e complexidade narrativa do gótico, tanto como uma resposta às crises do final do século XVIII quanto como desejo erótico de reescrita e ultrapassagem um do outro. Punter (1996, p. 54) nota nesses três romances um engajamento intenso, embora deslocado, com os problemas políticos e sociais da época. Ao ambientar as suas narrativas na Itália e na Espanha, esses autores tentavam negociar as ansiedades que eram difíceis de abordar diretamente na vida contemporânea, seja como crítica de instituições como a família (fonte de isolamento e aprisionamento) ou a igreja (conspiração e vigilância). Quer dizer, ao transpor as suas histórias para países estrangeiros, preferencialmente católicos, o gótico enquadra e assegura a sua crítica por meio de deslocamentos. Desse modo, desconstrói a(s) realidade(s) inglesa(s) ao trazer à luz as tensões psicológicas, políticas e sociais de uma sociedade em crise que já não era mais capaz de sustentar-se apenas no racionalismo iluminista.

Ainda no tema de caos e revoluções, A Tale of Two Cities (1859), de Charles Dickens, também evidencia a dinâmica gótica de retorno e reelaboração. Escrito mais de meio século após a Revolução Francesa, o romance negocia entre duas cidades e realidades, Paris e Londres. Através de um gesto retrospectivo, Dickens revisita aquele momento de ruptura e constrói uma memória histórica por meio de imagens recorrentes de aprisionamento e perseguição que aproximam o romance de uma sensibilidade gótica. O confinamento de Dr. Manette na Bastilha não termina com a sua libertação, uma vez que a prisão continua a assombrá-lo psicologicamente, materializando-se na compulsão de voltar à bancada de sapateiro sempre que o trauma retorna. A cidade de Paris, tomada por mobs e assombrada pela guilhotina, cria uma atmosfera de terror gótico, produzindo imagens de um destino inevitável que se aproxima lentamente.

Nesse sentido, o romance de Dickens participa da mesma lógica que animava os de Radcliffe e Lewis, no qual cenários históricos e geografias deslocadas dramatizam ansiedades profundas sobre a ordem social e sobre a possibilidade sempre latente de que o mundo civilizado se transforme, de repente, em ruína e terror. Para além de um romance histórico, A Tale of Two Cities interroga as tensões vividas pela Inglaterra vitoriana em meio à industrialização acelerada, expansão urbana, conflitos sociais, agitação política e levantes populares. Ao revisitar a Revolução Francesa, Dickens revela que a história não se organiza em uma linha progressiva e segura, mas em ciclos de crise, medo e ruptura — momentos em que o imaginário gótico retorna para explicitar inquietações, desigualdades e violências.

O gótico, com vistas a uma temporalidade longa e estética permeável, se estabelece como um modo que, de forma recorrente, organiza o medo, o desejo e a ansiedade histórica dentro de suas narrativas. Para Punter (1996), ele funciona como uma poética de síntese com características distintas que evoluíram ao longo do tempo, absorvendo tensões culturais profundas e reorganizando-as em narrativas dominadas pelo aterrorizante, pelo sublime e pelo suspense. Desse modo, castelos em ruínas, paisagens tempestuosas, mosteiros isolados e masmorras subterrâneas gradualmente cedem espaços às ruas vitorianas tomada pela fumaça de carvão queimando, aos avanços científicos e tecnológicos, ao medo de invasão alienígena e a um futuro-próximo distópico no qual a escassez é a regra.

O gótico parece capturado, então, por uma “hauntology”, um tipo de ciclo preso à nostalgia e à repetição no qual a cultura contemporânea é assombrada por futuros que nunca aconteceram. Em Ghosts of My Life (2014), Mark Fisher toma o trocadilho (haunting + ontology) de Jacques Derrida, em Espectros de Marx (1993), para referir-se a uma condição cultural em que o presente parece incapaz de produzir o novo, permanecendo assombrado por formas estéticas e imaginários do passado. Para Fisher, a cultura do século XXI é marcada por uma espécie de estase temporal: embora a vida social continue a se transformar rapidamente, o tempo cultural parece ter parado, como se vê, por exemplo, em um conservadorismo social e político que insiste em retornar e em retrocessos econômicos que estagnam a vida da juventude, ingênua ou displicentemente chamada de “geração canguru”.

Nesse contexto, a promessa de futuros radicalmente diferentes, tão característica do século XX, foi lentamente cancelada, produzindo aquilo que Fisher (2014) chama de “the slow cancellation of the future”. O resultado é um presente paradoxal, onde uma superfície de novidade constante, saturada por tecnologias e fluxos de informação, esconde uma profunda inércia cultural. Vivemos, segundo Fisher, em um momento em que o passado não pode ser esquecido e o presente não consegue ser lembrado. Isto é, em um estado de amnésia cultural no qual formas, estilos e narrativas retornam incessantemente como espectros: seja a calça de cintura baixa ou o sempre-presente fascismo genocida do Norte Global.

Essa lógica espectral aproxima a hauntology do próprio imaginário gótico. Assim como os fantasmas do romance gótico representam a persistência de traumas históricos que não foram resolvidos, os “fantasmas culturais” descritos por Fisher indicam a presença contínua de futuros que nunca chegaram a existir. Em vez de ruínas medievais ou de castelos decadentes, o cenário contemporâneo é composto por paisagens culturais saturadas de repetição: remakes, reboots, nostalgia estética e arquivos digitais em redes sociais que reproduzem, de maneira massiva, o mesmo conteúdo.

Em Blade Runner 2049 (dir. Denis Villeneuve, 2017), essa atmosfera de futuro esvaziado é potencializada como característica da cultura contemporânea. No filme, o avanço tecnológico extremo convive com uma paisagem social marcada pela decadência e pela repetição. A cidade de Los Angeles é apresentada na narrativa como um espaço saturado de resíduos do passado: ruínas industriais, hologramas gigantes que simulam presenças humanas, e arquivos de memórias artificiais. Em vez de projetar um futuro radicalmente novo, o mundo de Blade Runner 2049 parece preso a uma temporalidade circular, na qual diferentes camadas de tempo coexistem de forma espectral.

 

Blade Runner 2049 (dir. Denis Villeneuve, 2017)
Blade Runner 2049 (dir. Denis Villeneuve, 2017)

 

Seja em um mundo devastado por guerras mundiais, cujo resultado é o horror cósmico lovecraftiano, ou no completo colapso do futuro, a poética gótica funciona como uma linguagem capaz de traduzir ansiedades profundas em imagens de monstros, espectros e decadência. Pandemias globais, conflitos persistentes, crises climáticas e transformações tecnológicas aceleradas produzem uma atmosfera de incerteza que reativa muitos dos mecanismos tradicionais do gótico, como o excesso. A hiper-vigilância típica de séries como Black Mirror (2011-), criada por Charlie Brooker, revela que o progresso prometido pela ciência e pelo avanço da tecnologia não é de todo positivo. Esse processo encontra ainda um paralelo nas redes sociais, que prometem tornar tudo visível e transparente, mas que frequentemente produzem o efeito contrário: excesso de exposição, manipulação de imagens e identidades performáticas fabricam realidades cada vez mais instáveis, onde o espaço digital se torna um território inquietante e opaco (até mesmo ética e legalmente), com versões concorrentes da realidade circulando incessantemente.

Em “Aftergothic: consumption, machines, and black holes” (2002), Fred Botting descreve uma transformação significativa do imaginário gótico na passagem para a cultura pós-moderna. Para Botting, o gótico contemporâneo emerge em um momento em que a modernidade, baseada na produção racional e na confiança no progresso científico, dá lugar a uma cultura dominada pelo consumo acelerado e pelas tecnologias digitais. Nesse novo cenário, máquinas e sistemas de simulação passam a substituir ou ultrapassar as faculdades humanas, tornando redundantes muitas das estruturas tradicionais de racionalidade e de julgamento moral. A autoridade simbólica (frequentemente associada à figura paterna na tradição psicanalítica) enfraquece, e com ela desaparece a distinção clara entre o humano e o monstruoso. Como resultado, os monstros do gótico contemporâneo deixam de ser apenas objetos de medo para se tornarem também figuras de identificação, simpatia e desejo.

Um exemplo claro disso é a reconfiguração da figura do vampiro. Se no século XIX o vampiro funcionava sobretudo como encarnação de ameaça moral, contágio e degeneração, atualmente ele passa a ocupar uma posição mais ambígua. Em produções audiovisuais como True Blood (HBO, 2008-2014) e The Vampire Diaries (CBS, 2009-2017), o vampiro não é somente um monstro externo e ameaçador, mas uma fonte de identificação, desejo e até mesmo de consumo cultural. Nesse contexto, Botting (2002) sugere o vampiro como metáfora do próprio sujeito contemporâneo: um consumidor cuja identidade é definida por apetites incessantemente estimulados pelos fluxos do capital e pelas dinâmicas do mercado cultural. Quer dizer, a figura vampírica deixa de representar simplesmente ameaças à ordem social para simbolizar o funcionamento da própria cultura de consumo, marcada por ciclos contínuos de desejo, absorção e renovação.

Paralelamente, muitas narrativas góticas deslocam sua atenção para as tecnologias de reprodução e de transformação do corpo (clonagem, engenharia genética e inteligência artificial), colocando em questão a própria definição de humanidade. Filmes como Alien Resurrection (dir. Jean-Pierre Jeunet, 1997) exploram precisamente essa dissolução de fronteiras. Na narrativa, a protagonista Ellen Ripley retorna por meio de clonagem, tornando-se uma entidade híbrida que combina características humanas e alienígenas. Em I am Mother (dir. Grant Sputore, 2019), o feminino permanece no centro da ansiedade gótica. No filme, a figura materna é encarnada por um robô programado para garantir a sobrevivência da espécie humana após a sua quase extinção. A maternidade se torna um dispositivo de controle radical, no qual a reprodução, a vigilância e a seleção se confundem. Como resultado, o que emerge não é apenas o medo da tecnologia, mas a inquietação diante de uma figura materna que concentra simultaneamente as funções de origem, proteção e julgamento — uma presença que ao mesmo tempo nutre e decide quem merece continuar existindo.

 

Mother e Daughter em I am Mother (dir. Grant Sputore, 2019)

 

Nesse universo, humanos, alienígenas e androides passam a existir dentro de uma mesma matriz biológica e tecnológica em que as distinções tradicionais entre organismo, máquina e monstro se tornam progressivamente instáveis. O resultado é um cenário em que o horror já não decorre apenas da presença do outro monstruoso, mas da percepção de que a própria humanidade se encontra em processo de transformação. O gótico contemporâneo revela, assim, uma cultura que constantemente empurra os limites do possível apenas para encontrar, do outro lado, um abismo de significado; um mundo em que a fronteira entre a realidade e a simulação se torna cada vez mais instável e no qual a ansiedade circula livremente, transformada em espetáculo contínuo. Monstros, fantasmas e mundos arruinados deixam de ser apenas elementos de ficção para se tornarem metáforas de uma experiência histórica marcada por fragmentação, aceleração e incerteza.

É por isso e por tantas outras coisas que o gótico nos acompanha muito antes do século XVIII e também depois. A poética gótica nunca se limitou a descrever castelos em ruínas ou espectros que retornam do passado. Ela descreve, antes de tudo, momentos em que a própria realidade perde a sua estabilidade, e quando as forças estruturantes do mundo deixam de oferecer respostas claras. Em um presente atravessado por guerras, crises ambientais, pandemias, tecnologias que desafiam as fronteiras do humano e realidades cada vez mais mediadas por imagens e simulações, o gótico permanece como uma gramática capaz de nos ajudar a compreender um mundo que se tornou, ao mesmo tempo, profundamente visível e inquietante; um mundo fragmentado, fraturado e constantemente à beira do colapso. Sempre viveremos em tempos góticos.

 

Referências

BOTTING, Fred. Aftergothic: consumption, machines, and blackholes. In: HOGLE, Jerrold E (org.). The Cambridge Companion to Gothic Fiction. Cambridge: CUP, 2002, p. 277-300.

DICKENS, Charles. A Tale of Two Cities. Londres: Vintage, 2017 [1859].

FISHER, Mark. Ghosts of My Life. Londres: Zero books, 2014.

LEWIS, M. G. O Monge. Tradução de Maria Aparecida Mello Fontes. Vitória: Pedra Azul, 2021 [1796].

PUNTER, David. The Literature of Terror. vol. 1. Londres & Nova York: Routledge, 1996.

RADCLIFFE, Ann. The Mysteries of Udolpho. Ontario: In Parentheses, 2001 [1794].

RADCLIFFE, Ann. The Italian. Oxford: OUP, 2008 [1796].

SONTAG, Susan. Doença como metáfora; AIDS e suas metáforas. Tradução de Paulo Henriques Britto e Rubens Figueiredo. São Paulo: Companhia, 2007 [1978; 1989].

WALPOLE, Horace. The Castle of Otranto. Londres: Penguin, 2001 [1764].

 

[1] Conferir matéria em: https://g1.globo.com/fantastico/noticia/2021/07/25/fila-para-conseguir-doacao-de-ossos-e-flagrante-da-luta-de-familias-brasileiras-contra-a-fome.ghtml. Acesso em 06 mar. 2026.

[2] Conferir matéria em: https://brasil.elpais.com/esportes/2020-12-28/ricos-e-celebridades-como-neymar-assumem-risco-de-espalhar-virus-com-viagens-e-festas-de-fim-de-ano.html. Acesso em 06 mar. 2026.

[3] Disponível no canal do Youtube do Jornal O Globo: https://www.youtube.com/watch?v=40PpRPGOKJE. Acesso em 06 mar. 2026.

Publicado por

Paula Pope Ramos é doutora em Literaturas de Língua Inglesa (UERJ/CAPES), professora substituta na UFF e integrante do grupo Poéticas Identitárias (UERJ/CNPq) e da International Gothic Association. Pesquisa poética gótica, gênero e corpo feminino, com ênfase na figuração da mulher vingativa no século XIX e suas releituras contemporâneas na literatura, no cinema e na televisão.

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