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Reverberações contemporâneas de The Crucible, de Arthur MillerLeitura em 6 minutos

Ambientada na comunidade puritana de Salem, no cenário colonial de Massachussets, The Crucible (1958) é uma peça escrita por Arthur Miller que aborda (e também ficcionaliza) as acusações de bruxaria e os impiedosos julgamentos que ainda permanecem no imaginário popular da cidade. No entanto, seu trabalho ao redor da consciência humana não se concentra apenas no período histórico do fim do século XVI ou no seu período de produção, marcado pelo receio do avanço comunista (Red Scare) e pelas políticas macartistas durante a Guerra Fria. A peça e seus personagens retratam como a sociedade está presa em uma certa cultura do espetáculo, que pode ser exacerbada pela crença cega em certas ideologias e como esta pode ser usada como uma ferramenta para ganhos políticos e pessoais.

Na peça, a narrativa se desenrola depois que garotas de família amplamente ligada à Igreja são encontradas dançando, em meio à floresta, com uma mulher chamada Tituba. Dentro daquela comunidade de ideais e concepções muito limitados à moral religiosa, o medo do olhar público e da reprovação incitou as jovens a apontarem um suposto envolvimento de Tituba com a prática de bruxaria. Tal acusação a respeito de uma mulher advinda de Barbados e, consequentemente, envolvida em práticas culturais outras às adotadas pelo puritanismo, exercia um grande impacto na percepção de sua integridade: ao saber que seria vilanizada por uma comunidade que já falhava em lhe incluir, ela não acredita ter outra opção senão aceitar o rótulo que lhe é imposto e ser julgada por seus supostos atos. 

Mais do que apenas estabelecer uma dicotomia entre o bem e o mal e o que seria ou não apropriado aos ideais de moralidade, o texto mostra como essas rígidas dinâmicas demarcadas pela fé e lei puritanas respaldaram um comportamento de vigilância altamente coercitivo na comunidade. Essas inquisições são altamente criticadas por Miller não apenas a partir da ironia textual, da fala e das indagações de seus personagens, mas também em suas inserções autorais, que aparecem por entre algumas das seções do texto. À medida que esse comportamento acusativo se espalha e provoca uma histeria coletiva, os interesses pessoais dos integrantes da comunidade ficam ainda mais visivelmente associados ao ato de citar nomes — e a ideia de justiça social é transformada em uma arma, à medida que apenas suspeitas são tidas como evidência confiável para levar alguém à julgamento. É possível dizer que Miller cria uma um paralelismo com a Guerra Fria e o “Red Scare”, em que ideais opostos ou desviantes do “progresso” capitalista eram perseguidos com o objetivo de salvar o país de uma ameaça comunista. Essa perseguição foi intensificada por um medo do desconhecido, instalado e alimentado por um conjunto de políticas que passou a ser conhecido como Macartismo, responsável por encorajar denúncias à oposição, ainda que estas não estivessem associadas a provas concretas ou crimes reais.

Nesse sentido, qualquer mero desvio da lógica vigente era uma oportunidade para que a repressão se fizesse valer como postura correta de manutenção do bem comum e do status quo. É uma estrutura de vigilância similar que afeta diversas famílias na peça teatral: ao simplesmente mencionar um interesse de sua esposa pela leitura, pouco entendido por ele, Giles Corey acidentalmente faz com que pessoas paranóicas associem as palavras da mulher à feitiçaria e maldições — e é tal associação misógina que acarretam no julgamento e morte da mulher. Após se envolver no julgamento para defender sua esposa, Elizabeth, e Mary Warren, a servente da família, John Proctor passa a confrontar diretamente a lógica do tribunal de Salem. Sua participação, porém, também é marcada pela culpa pessoal decorrente de seu adultério com Abigail Williams, que havia fragilizado seu relacionamento com a jovem Elizabeth e o colocado em uma posição de vulnerabilidade diante das acusações. Abigail, por sua vez, faz uso da possibilidade de fazer acusações e do artifício da teatralidade para contornar sua habitual falta de poder enquanto mulher naquela sociedade, tentando legitimar suas vontades pessoais.

Ainda que a retratação e possíveis leituras de Abigail Williams e John Proctor estejam amplamente envolvidas em dinâmicas de atribuição de culpa pouco neutras, é interessante refletir sobre a trajetória de Proctor e sobre sua tentativa de estabelecer que aquelas acusações eram sustentadas pelo medo, pela pressão e por interesses pouco parciais. A trama crítica do livro se intensifica ao passo que Proctor começa a questionar não apenas o que definia a culpa, mas também quem tinha autoridade para determiná-la e até que ponto sua própria culpa poderia ser usada para condená-lo junto ao seu círculo íntimo. Sua situação também estabelece a perspectiva de que, ainda que os acusados fossem provados inocentes, estes teriam sua reputação manchada: a exclusão social repentina marcaria a desintegração de um mundo e de uma lógica de experienciar a vida que um dia conheceram — e o cenário reforça que eles e outros acusados não teriam uma chance real de vivenciar o perdão.

Embora esses contextos possam parecer distantes, é possível argumentar que, na sociedade contemporânea, a prerrogativa de preservar os moldes sociais vigentes, a família nuclear ou determinada concepção de progresso tem sido amplamente mobilizada no discurso político. Essas preocupações são frequentemente acionadas na tentativa de obter apoio público para posturas autoritárias — sejam elas de alcance mais local e restrito, sejam mobilizadas para justificar invasões ou legitimar e financiar práticas necropolíticas em territórios do Sul Global. Além disso, a questão da espetacularização abordada pela peça permanece relevante no contexto contemporâneo, sobretudo diante da globalização, da expansão do acesso às mídias digitais e da rápida disseminação de notícias e informações sem verificação. Esse cenário pode ser instrumentalizado por diferentes grupos para disseminar rumores, desinformação ou alegações falsas. À medida que a fronteira entre o mundo físico e o mundo conectado se torna menos nítida, as pressões coletivas que se articulam nas redes sociais parecem adquirir influência crescente sobre acontecimentos e relações que ultrapassam o ambiente digital e repercutem na chamada “vida real”. Nesse sentido, The Crucible permanece contemporânea em seu trabalho de evidenciar ferramentas de ccomo ações coletivas, sejam elas  responsaveis ou não, impactam e moldam ações e vidas individuais.

Publicado por

É graduanda em Letras - Inglês e literaturas na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e contribui com textos para o projeto de extensão Literatura Inglesa Brasil, do qual já participou como bolsista. Tem como principal interesse de pesquisa a literatura contemporânea, atuando sob orientação da Profa. Dra. Marcela Santos Brigida.

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