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(Re)encontros em The Watermelon Woman (1996), de Cheryl DunyeLeitura em 4 minutos

Ainda que lançado em 1996, no que parece uma data relativamentemente recente, The Watermelon Woman foi o primeiro longa-metragem a ser dirigido por uma mulher negra: Cheryl Dunye. É evidente que a perspectiva explorada pela diretora e sua contestação dos limites da expressão narrativa foram responsáveis por sua grande influência no mundo cinematográfico: A obra de Dunye traz o corpo lésbico, tão frequentemente rasurado, e as tensões de gênero e raça para o centro da narrativa, e seu debut se tornou um marco na produção independente. 

The Watermelon Woman é uma “dramédia” que acompanha uma jovem mulher que tem como sonho de carreira ser uma cineasta, sendo ela encenada pela própria diretora do filme. A ambiciosa protagonista, sendo funcionária de uma locadora na Filadélfia, aproveita então do seu contato rotineiro com o cinema no trabalho, também buscando fortalecer sua paixão e perspectiva futura em seus tempos livres, pesquisando e conhecendo filmes. É nesse contexto que sua vida toma uma direção nova, quando conhece a figura de Fae Richards, uma atriz negra fictícia dos anos 1930 conhecida pelo apelido que dá título a trama, advindo dos papéis estereotipados do cinema da época. Em seus filmes, nos quais nunca era creditada, Richards constantemente era colocada como “Mammy”, a mais difundida caricatura produzida pelo mainstream branco. Como explorado em um glossário do The Jim Crow Museum, essa figura era empregada para tentar criar uma narrativa de que pessoas negras poderiam ser felizes ainda sob a condição de escravizados, e que o “o largo sorriso [da Mammy], sua risada calorosa e sua leal servidão eram oferecidos como evidência de uma suposta humanidade na instituição da escravidão” (minha tradução). No filme fictício assistido repetidamente por Cheryl, por exemplo, a mulher interpreta a empregada de uma plantation no sul, sempre dócil e carismática em sua posição de cuidado da família branca que controla a residência. 

O vazio sobre a vida de Fae Richards, existente apesar da força de sua expressão e presença nas telas do cinema hollywoodiano, reflete um processo de apagamento real sofrido pela população negra ao longo da formação dos Estados Unidos. As buscas incessantes de Cheryl nos arquivos históricos de sua cidade dão a ela pouca ou nenhuma informação sobre a atriz, mas sua pesquisa cuidadosa, marcada pelo tom documental que a narrativa passa a exercer, eventualmente a conecta a outras fontes importantes para além do registro escrito: através de um arquivo de fotos, descobre-se que Richards expressava sua arte e potência fora do espaço coercitivo dos estúdios como cantora em clubes e cabarés voltados para a comunidade negra e queer na cidade. Cheryl passa a também se encontrar em Richards cada vez mais, sobretudo ao descobrir a lesbianidade da atriz, fortemente ocultada pela necessidade de sobrevivência, mas que tomava corpo nos espaços seguros de sua vida pessoal. 

O espectador da obra de Dunye é contaminado pela empolgação de Cheryl em medidas similares, já que a trama profissional que possibilita o vislumbre desta personagem de outra época é paralelamente trabalhada junto à agitação da vida particular da diretora amadora. A locadora também funciona como local de encontro de Cheryl com Diana, uma mulher branca de classe média com quem passa a se relacionar — o que reflete, de certo modo, a relação de Fae Richards com uma diretora de cinema. Conhecer a atriz e o mundo que a cercava na época toma rumos cada vez mais pessoais, e este envolvimento a marca de um modo intelectual e emocional, ao passo em que passa a perceber microagressões compartilhadas em sua vida e na de Richards. A jornada a permite perceber como o racismo não afetava apenas a expressão e o espaço relacional daquela atriz negra já falecida, em alguma medida distante, mas que também se materializava na necessidade de se moldar para caber dentro de seu relacionamento atual com alguém advindo de uma realidade distinta da sua. O encontro gradual da jovem com sua própria potência criativa a permite centralizar as próprias histórias e questões através da arte. 

Um mero trabalho documental se encontra então com a possibilidade de entendimento de si e de uma acepção mais conscientizada de sua identidade enquanto mulher negra e lésbica, o que a possibilita evitar círculos que limitassem o seu potencial. Para além disso, o processo também permite pontos de contato cada vez mais firmados com a cultura negra americana e suas influências artísticas e no espaço urbano da Filadélfia. A obra da Cheryl-diretora, juntamente ao empenho de uma outra Cheryl-diretora-protagonista, centraliza a experiência negra, sobretudo queer, ao explorar suas complexidades e particularidades através de elaborações marcadas pela afetividade e relacionalidade.

Publicado por

É graduanda em Letras - Inglês e literaturas na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e contribui com textos para o projeto de extensão Literatura Inglesa Brasil, do qual já participou como bolsista. Tem como principal interesse de pesquisa a literatura contemporânea, atuando sob orientação da Profa. Dra. Marcela Santos Brigida.

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