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Recomendação de leitura: Rumple Buttercup, de Matthew Gray Gubler4 min read

A imagem apresenta parte da capa do livro, com uma ilustração do personagem verde utilizando seu disfarce de casca de banana

É perceptível que o livro Rumple Buttercup: a story of bananas, belonging and being yourself foi fruto de um grande investimento emocional e artístico de seu autor, Matthew Gray Gubler – conhecido por seus papéis no cinema e por sua participação no programa televisivo Criminal Minds, mas que também vem se dedicando ao universo literário. O livro não passou por processos de computadorização, tendo sido completamente produzido pelo autor, que fez à mão desde a logo da Random House ao código de barras, bem como também o texto e as ilustrações que fazem a história de Rumple ganhar vida de modos à cada página mais afetuosos. 

Em entrevista à Parade, Gubler afirmou que não escreveu o livro com a pretensão de ser destinado apenas ao público infantil, mas sim uma obra voltada à pessoas cujo coração e alma fosse jovem, independente de sua idade. Pensando na recepção desse trabalho e na sua própria relação com a obra, também afirmou que tendemos a esquecer destes prazeres mais simples, como o de ler um livro ilustrado, durante a vida adulta, que acaba por tomar trejeitos sérios demais. A ideia do autor na produção desse livro foi, na verdade, escrever apenas um livro do qual verdadeiramente gostasse, cujo processo de criação e resultado fosse significativo. 

Assim chegou ao público a história do desajeitado monstrinho Rumple Buttercup que, já mais velho e experiente, pede para o leitor se aproximar para ouvi-lo com atenção, em uma página calorosa que precede o primeiro capítulo do livro. 

Ouve-se, então, a história deste jovem que se sentia tão diferente por ter a pele verde, apenas cinco dentinhos tortos, alguns fiapos de cabelo e pés bem desproporcionais. O sentimento de se sentir  diferente por não partilhar características “comuns” de seres humanos o fez se isolar no dreno pluvial em que vivia, com medo de ser alvo de julgamentos, violências ou zombarias. Essa fragilidade e pessimismo em relação a sua própria percepção o tornou um ótimo observador da cidadezinha, ainda que nunca o permitisse explorar suas próprias percepções e experienciar o mundo sem ser o seu próprio (e maior) crítico.  O rapaz é levado a se esconder atrás de seu curioso e pouco ornamentado disfarce: uma casca de banana a ser utilizada como chapéu, que o faria passar despercebido nos raros momentos solitários em que saísse para ver à cidade. 

É evidente que a auto exclusão provocada essa suposta “anormalidade” o transformou em alguém solitário, e a necessidade de conexões humanas acaba por permear seu dia a dia: com suas habilidades em transformar o lixo que encontrava em aparatos para melhorar seu bem estar, Rumple criou também um amigo feito de lixo, com o qual passou a conversar. Para além disso, imaginava-se participando das interações que ouvia através dos vãos que o permitiam espiar enquanto outros viviam a vida que, em sua cabeça, nunca poderia viver. Rupple observava feliz a passagem do tempo e o chegar dos feriados, das estações, sem nunca poder se fantasiar ou ver os fogos de artifício com seus próprios olhos, mas ainda assim tinha o seu dia favorito, que aproveitava apenas por achar que não poderia ser visto em meio a multidão. Uma série de acontecimentos acaba por gerar imprevistos que o expõem ao fato de que a “normalidade” também seria uma percepção assim como essa estranheza, e que esses traços engraçados ou singulares de cada indivíduo é o que o faria se destacar. O processo de amadurecimento e entendimento que Rumple atravessa o permite entender que ele também era merecedor de sentir o calor do sol com sua pele verde e de participar da pequena cidade que tanto sonhava em realmente se sentir pertencente. 

O autor explora o entendimento da individualidade de uma forma que pode tocar desde o seu leitor mais novo ao mais velho, que atravessa o misto de melancolia e o humor da escrita de Gubler desejando conhecer mais das experiências de vida e da capacidade criativa de seu protagonista mundo afora. Ainda que sua história não tome rumos exorbitantes, com um enredo simples e uma mensagem mais direta a ser transmitida, a composição distinta das ilustrações e passagens e as camadas da construção emocional do personagem criam uma experiência agradável de leitura que evoca diferentes sensações. 

Publicado por

É graduanda em Letras - Inglês e literaturas na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e contribui com textos para o projeto de extensão Literatura Inglesa Brasil, do qual já participou como bolsista. Tem como principal interesse de pesquisa a literatura contemporânea, atuando sob orientação da Profa. Dra. Marcela Santos Brigida.

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