Publicado em 2024, Rejeição reúne na forma de contos personagens que, amadurecendo no século XXI, se enxergam como excêntricos. Ainda que distantes entre si em termos de gênero, raça e tantos outros, a meia dúzia de Millennials que compõe a coletânea se veem escanteados pela própria condição de viver em sociedade – mais especificamente, essas condições nas décadas de 2010 e 2020.
O título que o autor Tony Tulathimute deu ao livro pode se ver espelhado, a princípio, na vida romântica dos personagens. A coletânea abre com o conto The Feminist, que, seguindo a vida de um homem anônimo desde a sua entrada na universidade até mais tarde na vida adulta, acompanha-se também o desenvolvimento das suas visões sobre mulheres, e, proporcionalmente, sobre si mesmo. Ao mesmo tempo que ele se assume um homem branco cisgênero e heterossexual, a motivos de “conscientizar-se sobre seus privilégios”, Craig (como revelado mais tarde no livro) tenta, desde o início, se mobilizar pelo feminismo e as demais causas sociais. Isso, no entanto, não o impede de cultivar ao longo da vida uma lógica internalizada que aos poucos finalmente o afunda no black pill – o lado mais extremo da comunidade incel.
Como observado por um dos personagens, expressando uma dificuldade central em Rejeição, “Love is not an accomplishment, yet to lack it still somehow feels like failure”. A causa de Craig é de não conseguir envolver-se com ninguém, assim como os dois protagonistas seguintes, mas no seu caso masculino e heterossexual, é de não conseguir mulheres para se relacionar. Com o passar do tempo, Craig desenvolve seu ressentimento ao se compadecer com o sofrimento de suas amigas pela insensibilidade e violência masculinas, entendendo que apesar do seu “trabalho emocional”, se identificando sinceramente com a causa feminista, ele ainda não é desejável como outros homens, por mais violentos que estes sejam. Essa se torna a cruz que Craig passa o conto carregando, martelando um desencantamento pela modernidade e o feminismo, por estes ainda não considerarem ou fornecerem soluções para os sentimentos de desumanidade de um homem indesejável.
Esse primeiro conto reflete as questões principais de Rejeição nas dimensões brancas masculinas de seu personagem, para ao longo do livro, deslocá-las por meio do espectro de raça e gênero. A sensação de assistir a uma longa e dolorosa autolesão, pareada com o humor sustentado pela inserção do personagem em situações constrangedoras, é continuada no segundo conto, dessa vez protagonizado por uma mulher.
Abrindo o conto de Alison (a única menina a se declarar por Craig na escola, mas que ele mesmo assim rejeitou por conta de achá-la “curvilínea demais”), o narrador informa a sua perspectiva: partindo do ponto de que amor é sempre mutual, Alison nunca amou/foi amada. Sustentando-se sozinha na segunda metade de seus vinte anos em um trabalho em uma revista, que não completamente faz jus aos seus esforços intelectuais e literários na época da faculdade, ela tem mais uma coleção de desilusões entre amigos, namorados e carreiras, do que a presença firme desses em sua vida. Seus círculos sociais e contatos, como o grupo de amigas de um antigo estágio em outra revista literária, e um amigo próximo da faculdade, sobreviveram principalmente pela internet – mas enquanto o primeiro foi cultivado a base da atmosfera de “irmandade” de grupos de mensagem de texto, o último mantido por uma festa de pijama bimestral, tradição dos tempos de universidade. A tradição foi criada na época em que Alison havia, depois de muito tempo doente, começado a cuidar de sua anorexia, com seu amigo cozinhando para ela seu prato favorito, o único que ela conseguia comer.
Quando, numa festa do pijama, seu amigo a beija e eles dormem juntos, Alison se vê subitamente apaixonada por ele, acreditando que finalmente encontrou alguém. Mesmo ele a rejeitando e pedindo para continuarem amigos, ela continua apaixonada, e passa a ficar morbidamente obcecada e deprimida com a nova rejeição. Com seu amigo se afastando, ela dedica-se a tentar consolar-se no seu grupo de amigas (que transforma a adoração por ele ao ódio instantaneamente) e a sentir a sua falta, contentando-se com a presença online dele e com uma foto sexual que ele tirou dos dois naquela noite.
Intitulado Pics, o conto de Alison, pré-tensionado pela menção de seus problemas de longa-data com imagem corporal, desenvolve a ruína de sua protagonista de acordo com a verdade estática do que ela nunca poderia ter ou ser, a estagnando. Similarmente ao conto anterior, aprimora um ressentimento não só com seu antigo amigo, mas pelas suas colegas de grupo, descontando nelas ao ver que estão felizes. Principalmente, ela ressente a nova amiga dele (posteriormente esposa) que ela ressalta ser magra e asiática.
Reforçando, então, que a subjugação de Alison (por si mesma, principalmente) se dá por gênero, Rejeição não ignora a coexistência disso com a sua heterossexualidade e branquitude. O protagonismo do terceiro conto, desse jeito, é transferido para um homem gay asiático em seus trinta anos que, logo após assumir sua sexualidade para amigos e família por meio de um email, é ainda contemplado por uma vergonha e auto-rejeição ainda mais profundos. Com o nome de Ahegao, or, The Ballad of Sexual Repression, a história segue a tentativa de Kant de finalmente viver sua sexualidade, depois de contê-la, desde a adolescência, ao seu imaginário construído por conteúdo pornográfico digital.
Diferente de Craig e Alison, ambos assombrados por questões com imagem corporal, Kant tem dificuldade para mesmo conceber o seu corpo, preferindo imaginar os corpos artificiais, fictícios, desenhados, de sua presença online. O seu desejo erótico, que na narrativa, finalmente é dado a chance de ser realizado, ainda é baseado no contexto extremamente violento em que ele cresceu, sendo da única família tailandesa de sua cidade. Por causa disso, Kant só consegue realizar seus desejos elaborando fantasias, na frente do computador, em que, encarnado por um corpo impossivelmente grande, musculoso e masculino, ele humilha, degrada e violenta sexualmente homens brancos. Isso é ilustrado na obra depois de Kant abandonar seu namoro de meses com um homem branco, abertamente gay há mais tempo, pelo sentimento de inferioridade que ele sentia. Seu namorado não compreendia, em sua perspectiva, o peso debilitante de sua vergonha, que o impedia de existir, em primeiro lugar.
Apesar de Rejeição não terminar somente com esses três primeiros personagens, as dimensões afetivas da rejeição que eles contemplam (estas sendo menos importantes na segunda metade do livro) já relacionam a problemática da identidade que movimenta essa escrita. Craig, Alison e Kant estão mais preocupados com uma hiperrealidade, com as diferentes representações de seus corpos e sujeitos, do que na concretude e prática de suas vidas em si mesmas. O autor Tony Tulathimute reflete a questão focando na própria conceituação da procura por um parceiro romântico (que aqui, se torna sinônima a “procura por sentido”) no último conto, Sixteen Metaphors for Rejection, em que, instruindo quem lê a imaginar-se como uma maçã perfeitamente normal, mas que ainda é comprada por ninguém no mercado. “By the time you’re noticed”, ele termina a metáfora, “you’re as rotten as you always knew you were”.
Mais do que analisar a relação romântica nos tempos atuais, Rejeição registra um contexto hiperreal que engana os personagens a estarem preocupados com suas imagens, estando realmente preocupados com outras imagens de fora da realidade. A ilustrar, o elenco de personagens do livro é completado por um tecnocrata que utiliza um misto de linguagem digital, negra e queer para explicar seu plano de eugenizar sua família em Our Dope Future e, possivelmente o personagem mais importante de Rejeição, uma conta na internet que revela ser a pessoa responsável por quase todas as discussões nas redes sociais e, concomitantemente, pelas discussões na vida real, especialmente de causas sociais, em Main Character.
Rejeição, sobretudo, realiza um estudo de personagens no contemporâneo, que também funciona como um estudo de linguagem. Como sumarizado em Main Character, “discourse is loneliness disguised as war”, explicando o porquê dos personagens, por mais enraizados que suas disforias estejam nos seus diferentes identidades raciais e sexuais, têm essencialmente o mesmo problema. Eles não estão somente tendo dificuldade em encontrar alguém, ou a si mesmos, mas em encontrar uma maneira de existir sem guerra. A questão formulada por Tulathimute é se isso é totalmente possível em um mundo tão profundamente reconstruído pela realidade digital.
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É graduando em Letras - Inglês/Literaturas na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e bolsista do projeto de extensão Literatura Inglesa Brasil, sob orientação da Profa. Dra. Marcela Santos Brigida.
