Entre as muitas sombras que percorrem a tradição da literatura gótica, poucas são tão inquietantes quanto aquelas que se escondem dentro da própria casa. Se castelos em ruínas e florestas sombrias foram, durante muito tempo, os cenários privilegiados do terror literário, no final do século XIX algumas escritoras começaram a deslocar o horror para um espaço aparentemente mais familiar: o espaço doméstico.
A crítica literária tem identificado esse deslocamento espacial como uma característica central do chamado gótico doméstico. Em vez de castelos medievais ou paisagens remotas, o horror passa a emergir dentro da própria estrutura familiar. Como observa a crítica Ellen Moers em seus estudos sobre o Female Gothic (1976), muitas narrativas escritas por mulheres deslocam o terror para o interior do casamento e da vida doméstica.
Nesse contexto, aquilo que deveria representar segurança, o lar, o marido, o cuidado médico, torna-se precisamente a fonte da ameaça. Alguns estudiosos chegaram a utilizar a expressão gótico marital para descrever histórias em que o casamento funciona como uma estrutura de confinamento psicológico, onde autoridade, silêncio e vigilância produzem um tipo de horror profundamente cotidiano.
É nesse contexto que surge o perturbador conto “The Yellow Wallpaper”, publicado em 1892 por Charlotte Perkins Gilman. À primeira vista, trata-se da história de uma mulher em repouso médico. Mas, pouco a pouco, o que parecia ser um tratamento terapêutico revela-se uma lenta descida à loucura.
Mais do que um relato de horror psicológico, o conto expõe as estruturas sociais que, sob o disfarce do cuidado, aprisionaram a experiência feminina. E talvez seja justamente por isso que sua atmosfera ainda hoje nos parece tão perturbadora.
A autora e a experiência da clausura
Charlotte Perkins Gilman foi romancista, ensaísta, poeta e uma das vozes feministas mais influentes de seu tempo. Sua obra frequentemente aborda as limitações impostas às mulheres pela sociedade do século XIX.
A própria vida da autora fornece pistas importantes para compreender o conto. Após o nascimento de sua filha, Gilman enfrentou um intenso episódio de depressão pós-parto. Como muitas mulheres da época, foi submetida ao chamado rest cure, tratamento médico desenvolvido pelo médico Silas Weir Mitchell.
O método consistia em isolamento doméstico, repouso absoluto e proibição de atividades intelectuais como leitura e escrita. O que deveria curar, no entanto, apenas aprofundou o sofrimento da autora.
“The Yellow Wallpaper” nasce, portanto, de uma experiência vivida, e transforma essa experiência em uma denúncia literária.
Arquitetura do terror: o quarto e o papel de parede
No conto, a protagonista, cujo nome nunca é revelado, é levada por seu marido para uma casa colonial isolada durante o verão. O objetivo é simples: permitir que ela se recupere de um diagnóstico impreciso de “nervosismo”.
O marido, John, também médico, assume o controle completo de seu tratamento.
A narradora é instalada em um quarto no andar superior da casa. O espaço possui grades nas janelas, marcas no chão e, sobretudo, um papel de parede amarelo cuja aparência grotesca logo começa a perturbá-la.
Na tradição gótica, os espaços narrativos frequentemente refletem o estado psicológico das personagens. Ambientes opressivos e inquietantes são descritos como locus horribilis, lugares que despertam desconforto, medo ou estranhamento.
O quarto da protagonista funciona exatamente assim.
O que deveria ser um espaço de repouso transforma-se gradualmente em uma prisão doméstica. À medida que o isolamento se intensifica, o papel de parede passa a ocupar o centro da atenção da narradora. Suas formas parecem se mover, se contorcer e esconder algo por trás de seus padrões tortuosos.
O horror do conto não está em fantasmas ou criaturas sobrenaturais, mas na lenta dissolução da fronteira entre percepção e delírio.
Loucura, silêncio e controle
A degeneração mental da protagonista não ocorre de maneira repentina. Ela se desenvolve lentamente, alimentada pelo isolamento e pelo constante descrédito de sua experiência.
Sempre que tenta expressar suas inquietações, John responde com uma mistura de condescendência e autoridade médica. Para ele, a imaginação da esposa é precisamente o que deve ser controlado.
Ela não deve escrever.
Não deve pensar demais.
Não deve questionar o tratamento.
A cura depende, acima de tudo, da obediência.
Privada de autonomia e de qualquer forma de expressão intelectual, a narradora passa a registrar seus pensamentos secretamente, pequenos fragmentos de escrita que revelam, pouco a pouco, o avanço de sua obsessão com o papel de parede de seu quarto.
Aquilo que começa como simples repulsa estética transforma-se em fascínio e, finalmente, em delírio.
Medicina, patriarcado e a patologização das mulheres
O tratamento representado no conto tem base histórica concreta. O rest cure era amplamente aplicado a mulheres consideradas emocionalmente frágeis.
A crítica literária Elaine Showalter observa que, no século XIX, a medicina frequentemente associava a loucura à própria natureza feminina. Mesmo quando homens e mulheres apresentavam sintomas semelhantes, suas doenças eram interpretadas de maneiras distintas.
No caso das mulheres, o sofrimento psicológico era frequentemente explicado por sua biologia, sua sexualidade ou sua suposta fragilidade emocional.
Nesse sentido, a deterioração mental da protagonista em “The Yellow Wallpaper” funciona como uma crítica direta a esse sistema médico. O tratamento não cura, ele aprisiona.
O horror doméstico e seus ecos contemporâneos
Uma das razões pelas quais “The Yellow Wallpaper” continua sendo amplamente lido é sua assustadora atualidade.
Embora os métodos médicos do século XIX tenham mudado, muitas mulheres ainda relatam experiências em que seus sintomas são minimizados ou desconsiderados. Questões como depressão pós-parto, exaustão emocional e sobrecarga doméstica continuam sendo temas recorrentes em debates sobre saúde mental feminina.
Nesse contexto, o conto de Gilman revela algo profundamente inquietante: o terror não precisa de castelos assombrados ou criaturas monstruosas. Às vezes, ele se instala silenciosamente dentro de uma casa comum ou em um quarto aparentemente tranquilo, escondido atrás de um papel de parede amarelo. E talvez seja justamente essa proximidade que torna o conto tão perturbador: o horror, afinal, pode estar mais perto do que imaginamos.
E, quando finalmente percebemos sua presença, talvez já seja tarde demais.
É preciso estar sempre atenta.
Referências
CIXOUS, Hélène. O riso da Medusa. Rio de Janeiro: Bazar do Tempo, 2022.
FRANÇA, Júlio; COLUCCI, Luciana (orgs.). As nuances do gótico: do setecentos à atualidade. Rio de Janeiro: Bonecker, 2017.
GILMAN, Charlotte Perkins. O papel de parede amarelo. São Paulo: Todavia, 2021.
HOROWITZ, Helen Lefkowitz. Wild Unrest: Charlotte Perkins Gilman and the Making of The Yellow Wallpaper. Oxford: Oxford University Press, 2010.
MOERS, Ellen. Literary women: the great writers. New York: Oxford University Press, 1976.
SHOWALTER, Elaine. The Female Malady: Women, Madness and English Culture, 1830–1980. London: Virago, 1985.
TIBURI, Marcia. Apresentação. In: GILMAN, Charlotte Perkins. O papel de parede amarelo. São Paulo: Todavia, 2021.
Publicado por

Ana Carolina Santiago
Professora de Língua Inglesa. Doutora pelo Programa de Pós-graduação em Letras (UERN). Mestra pelo Programa de Pós-graduação em Ciências da Linguagem (UERN). Doutorado-sanduíche na Brunel University London financiado pelo programa PDSE/CAPES. Membro do Grupo de Estudo de Literatura e suas interfaces críticas (GELINTER) e do Grupo de Pesquisa em Literatura da Língua Portuguesa (GPORT), ambos da UERN. Graduada em Letras, com habilitação em Língua Inglesa pela Universidade do Estado do Rio Grande do Norte/UERN (2018). Suas áreas de interesse incluem literatura gótica, literatura de autoria feminina e pós colonial.
