Prestigiado autor jamaicano radicado nos Estados Unidos, Marlon James é um dos nomes listados para o Booker Prize de 2026, com mais uma obra ambiciosa que põe em perspectiva as cosmovisões africanas e o sentimento de deslocamento.
Nascido em Kingston, em 1970, James se viu imerso em uma tradição que valorizava as possibilidades da linguagem e da narrativa. Desde jovem, teve uma forte conexão com a oralitura jamaicana. Ainda na escola, demonstrou talento para a escrita e um senso crítico aguçado sobre o mundo ao seu redor. Essa disposição o levou a ingressar na graduação em Letras na University of the West Indies e, no começo dos anos 2000, a iniciar um mestrado na Wilkes University. Essas experiências afloraram e enriqueceram ainda mais seus conhecimentos sobre o fazer literário, enquanto suas influências culturais foram fundamentais para o trabalho que desenvolveu e aperfeiçoou a partir daí.
Sua experiência na pós-graduação permitiu-lhe explorar outros gêneros e autores para além dos da tradição, além de possibilitar o desenvolvimento de um trabalho mais nuançado e único, que combinava sua relação com as tradições jamaicanas a um entendimento institucionalizado sobre arte. Em 2007, o autor se mudou para os Estados Unidos para ser professor do Macalester College, em Minnesota – e suas aulas, com ênfase pós-colonial, eram focadas em ficção contemporânea, narrativas de não-ficção e introdução à poesia. A mudança para o novo país e esse novo período de sua vida foram fundamentais no amadurecimento de sua vida artística e pessoal, já que trouxeram novas perspectivas para sua ficção.
O trabalho do autor incorpora elementos jamaicanos como o folclore, a música e a tradição oral de contação de narrativas, também capturando questões linguísticas e culturais da região caribenha. Essa força cultural se faz presente através de escolhas temáticas e linguísticas que favorecem, para além da preservação de suas experiências, discussões sobre a influência da região na atualidade.
No ano de 2015, James ganhou o Man Booker Prize por sua obra mais conhecida, Breve História de Sete Assassinatos e, neste ano, está concorrendo mais uma vez ao prêmio com o seu último romance, The Disappearers (2026). O autor também recebeu e foi listado para outros prêmios importantes, além de fazer parte da Royal Society of Literature enquanto um autor internacional. Ao todo, a escrita de James, cuja elaboração da violência e do sobrenatural na Jamaica a tem estabelecido como suscitadora de um “Gótico Caribenho”, vem deixando a marca própria do autor na literatura contemporânea de língua inglesa. Fora da ficção, James tem articulado uma voz ensaística muito interessante e significativa sobre a cultura, a escrita criativa e a atualidade.
Os seus dois primeiros livros já exploram a política e a sociedade jamaicanas nos primeiros momentos da colonização, como também se apresenta na Breve História de Sete Assassinatos e em outras de obras da sua autoria. Em John Crow’s Devil, seu primeiro livro, rejeitado 78 vezes antes de ser publicado em 2005, a história se passa no vilarejo fantástico de Gibbeah (nome da cidade bíblica onde ocorreu a Guerra Benjamita), apenas cinco anos após a independência do país, em 1957. Tendo dois líderes cristãos moralmente duvidosos como protagonista e antagonista, e uma cidade atacada por cenas grandiosas de brutalidade que parecem sobrenaturais, o romance percorre os problemas do maniqueísmo político. O romance seguinte, The Book of Night Women (2009), similarmente enreda atos detalhados de violência, mas a falta do aspecto místico do romance anterior dá espaço para uma tragédia mais “realista”. A obra compõe uma narrativa em torno de personagens femininas escravizadas nas plantações de açúcar jamaicanas e um relacionamento perigoso com um superintendente branco. Além da criatividade e elaboração das narrativas terem atraído certa atenção, o uso do Patois jamaicano na voz narrativa e de um liricismo na escrita também se destacaram, especialmente no segundo livro.
Em Breve História de Sete Assassinatos, o autor ambienta a narrativa na segunda metade do século XX, seguindo conflitos políticos envolvendo a apresentação musical de Bob Marley no “Smile Jamaica Concert” em Kingston, a capital jamaicana, e as suas consequências sociohistóricas. A obra traz à ficção a invasão domiciliar e tentativa de homicídio que foram infligidas ao artista apenas dois dias antes do evento a favor da paz política no país, por ordem de um candidato a ministro parlamentar que era oponente daquele que havia patrocinado o concerto. Utilizando outros nomes para referir-se a Marley, aos candidatos, ao evento, o romance faz personagens de diferentes figuras históricas no antes e depois do concerto. A obra conta com 70 personagens, envolvendo líderes de gangue, “lordes das drogas”, políticos envolvidos com a CIA, e o próprio protagonista detetive, um fantasma inspirado no ministro de Comunicações e Obras do primeiro conselho independente da Jamaica, cuja morte fez James considerá-lo o “John F. Kennedy jamaicano”. Chegando a 700 páginas, o livro vai do evento de Bob Marley em Kingston em 1970, para às casas de crack em Nova York em 1980, voltando em 1990 para uma Jamaica radicalmente transformada.
O autor publicou em 2019 a obra de ficção seguinte, o romance Black Leopard, Red Wolf, que foi a primeira parte da sua trilogia Dark Star, pretendendo traçar “uma jornada épica cheia de monstros, sexo e violência numa imaginação mística da África Antiga”, que partindo da cultura e folclore do continente. Junto com o romance seguinte, Moon Witch, Spider King (2022), a ideia da saga é contar a mesma história pela perspectiva de outro personagem com cada livro. No primeiro volume, é Tracker o dono da voz narrativa, um homem que pode saber o paradeiro de uma pessoa assim que consegue identificar ela por meio do olfato. Em Black Leopard, Red Wolf, episódios não-cronológicos são vivenciados por ele no desejo de proteger a si dos outros, de crianças sobreviventes e as pessoas que ele conhece no caminho, incluindo Leopard, que tem a capacidade de mudar de forma, e Sogolon, a Bruxa da Lua, que é caçada pelos espíritos de quem ela matou. No fim do livro, Tracker pergunta se seu veredito coincide com o de Sogolon, que passa a dar a sua própria versão da história na sequência de 2022.
O seu último romance, The Disappearers retorna ao século XX para contar a história de um coletivo de teatro que sofre um crime de ódio homofóbico em Kingston no ano de 1988, quando ele pretendia encenar um drama retratando a experiência de cárcere de um personagem que, assim como todos os membros do grupo, é gay. Com ataque causando a morte de um dos atores e os impactos sentidos em todos os sobreviventes, a narrativa apresenta os caminhos que os membros restantes tomam tendo que lidar com a tragédia.
Tantas qualidades garantiram que Marlon James fosse considerado uma das grandes vozes da contemporaneidade, e o autor foi indicado a diversos prêmios e nomeações. Para além do mundo ficcional, as contribuições do artista e intelectual se estendem também ao seu trabalho como influente ativista. Suas aulas, seu papel ativo nas redes sociais e aparições públicas o estabeleceram como um ótimo comentador sobre as questões contemporâneas e vêm inspirando o público a pensar questões de raça e identidade.
Publicado por
É graduando em Letras - Inglês/Literaturas na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e bolsista do projeto de extensão Literatura Inglesa Brasil, sob orientação da Profa. Dra. Marcela Santos Brigida.

