Uma das autoras mais consideradas a escrever o romance inglês, Jane Austen nasceu em 1775 na zona rural ao sul da Inglaterra, em um vilarejo de Hampshire chamado Seventon. Marcou a literatura por empregar a vida cotidiana à forma característica do romance, definindo o romance de costumes. Seus trabalhos guardam observações muito importantes sobre a permeação das relações materiais no dia-a-dia em comunidade, e são por isso lembrados e estudados até hoje. Austen também realizou um estudo da vivência feminina, em meio às relações de classe, que se encontra indispensável na história da escritura da subjetividade feminina.
A romancista foi a segunda menina dos oito filhos de Cassandra Leigh, uma espirituosa dona de casa vinda de uma família da classe média, e do reverendo anglicano George Austen, estudante de Oxford que entrou para o clero de Steventon em 1755. O terceiro filho mais velho, Edward, foi adotado como herdeiro por seu primo distante Thomas Knight, obtendo a herança de suas propriedades, como Chawton, que foi onde a irmã viveu mais tarde. O filho do meio, Henry, considerado o irmão homem favorito da escritora, foi o primeiro entre os irmãos a se tornar militar, seguido pelos seus irmãos mais novos Francis e Charles, antes de trabalhar como banqueiro em Londres, morada que facilitou o contato da irmã com seu publicador londrino. Já Jane e sua irmã mais velha e melhor amiga Cassandra foram mandadas juntas a colégios pelo sul inglês quando menores, completando sua educação em casa.
Apesar dos limites socialmente impostos à carreira e educação de meninas, seus pais montaram um ambiente encorajador para os filhos se interessarem pelas artes e as letras, o que influenciou no gosto literário da autora, que já escrevia quando pequena. Por causa das condições femininas da época, a publicação e a vida de Austen dependeram dos homens de sua vida, com seus irmãos tendo que colaborar para que não apenas suas obras fossem publicadas, mas para que a autora, sua mãe e sua irmã tivessem onde morar. Durante os oito anos após a morte do pai, as duas filhas solteiras e a mãe aviuvada tiveram sua renda significativamente reduzida, tendo que viver por meio de longas visitas a conhecidos e parentes, até Edward Austen (agora Knight) poder assegurá-las com um lar em Chawton, herdado das propriedades de Thomas Knight. Essa situação de dependência financeira, assim como a convivência em família, também foi refletida nos seus romances, como na importante missão da Sra. Bennet de Orgulho e Preconceito (1813) para casar as suas filhas antes que seu marido faleça.
Austen pode ser mais conhecida por seus romances posteriores, mas também possui escritos de 1787-1793, de quando estava entre seus onze e dezoito anos de idade, sendo conhecidos como a sua Juvenília. Essas obras são importantes no entendimento e no estudo da formação artística da autora, apesar de não terem um estilo consolidado. Foram escritos em três volumes, de modo a lembrar livros publicados, já que seu objetivo era ver sua obra impressa. A autora escreveu três romances antes dos seus 25 anos e publicou diversas obras, apesar de algumas produções só terem sido publicadas postumamente. Austen escrevia em um importante momento da ascensão do romance inglês, em que mulheres começaram a ter algum espaço na ficção doméstica por diversos fatores, e estas eram dependentes de algum modo do sucesso uma das outras. Essa entrada das mulheres no mercado literário, no entanto, não foi marcada por uma aceitação generalizada: Austen precisou publicar obras anonimamente por intermédio de seu irmão, assinando-as como escritas por “uma dama”, para evitar rebaixamentos adereçados à escrita feminina e uma posição infame na sociedade.
Seu primeiro romance publicado, Razão e Sensibilidade (1811), segue duas irmãs de classe mais baixa, Marianne e Elinor, ao incorporarem essas duas formas de entendimento do mundo. A história das irmãs e de seus encontros com seus pares românticos apresentam diferentes formas de lidar com o amor e a necessidade de se encontrar algum equilíbrio entre essas duas forças. Marianne incorpora a sensibilidade excessiva e acaba lidando com muitas frustrações, precisando aprender a conter algumas expectativas para não ser tão ingênua. Enquanto isso, Elinor é menos impulsiva e mais constante, mas precisa também aprender a deixar suas emoções transparecerem.
Orgulho e Preconceito, sua obra mais famosa e igualmente ambiciosa, aborda uma duplicidade semelhante, mas que é balanceada entre os protagonistas Elizabeth Bennet e Mr. Darcy e as suas primeiras impressões um do outro. O cenário econômico da família Bennet e as diferenças sociais presentes na sociedade da época geram relações curiosas e discussões em torno da instituição do casamento. Um ar mais sério da escrita austeniana pode ser encontrado em Mansfield Park (1814), que acompanha a história de Fanny Price, uma menina que é enviada aos 10 anos de idade para morar com a parte mais abastada da família: a vivência de Fanny nesse espaço doméstico traz críticas interessantes aos códigos de conduta da época, bem como às diferenças nas vivências de classes sociais distintas.
O ar cômico das obras da autora é emoldurado com força total e consistência em Emma (1815), que acompanha a vida da socialite Emma Woodhouse, que insiste em tentar arranjar casamentos para as pessoas ao seu redor. O drama da obra se desvela à medida em que a jovem ignora os verdadeiros desejos destes, para focar no que seria mais apropriado aos seus olhos talentosos, mas acaba gerando uma confusão que termina no encontro do seu próprio amor.
A autora acabou falecendo em meados de 1817, mas teve Persuasão e A Abadia de Northanger publicadas em dezembro do mesmo ano. Em A Abadia de Northanger (1817) acompanha Catherine Morland, uma ávida, porém ingênua, leitora de obras do gótico. A jovem enfrenta certa dificuldade em diferenciar os horrores que lê da realidade em que vive ao ser inserida em lugares novos na sociedade, e essas paranoias se intensificam com a sua chegada na abadia. Já em Persuasão (1817), tem-se a história de uma segunda chance de amor entre Anne Elliot e o capitão Frederick Wentworth, com quem tinha sido persuadida a não se casar 7 anos antes, mas que passou a ser mais aceito pelo círculo social e familiar após o seu retorno das guerras napoleônicas
Ao todo, na pequena porção de suas obras mais conhecidas já é possível perceber a destreza e multiplicidade na perspectiva da escrita de Austen, correspondendo à concepção moderna da subjetividade e a iluminando através da consciência das limitações de gênero e de classe (e mesmo raça, como percebido em leituras mais recentes). Uma diversidade pode ser similarmente encontrada nos seus escritos menos conhecidos da sua adolescência, assim como nas constantes releituras, acadêmicas e artísticas, que o passar dos séculos propicia ao seu legado. Além de entender o equívoco e a problemática de reduzir a escrita Austeniana a histórias sentimentais de amor romântico, é também importante se atentar à riqueza e profundidade a que o próprio desenrolar das tramas amorosas (seja de amor romântico, fraternal, entre outros) nos levam. Desse jeito, homenageamos uma dos maiores romancistas neste dezembro, comemorando seu aniversário de 250 anos.
