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Jane Austen é a autora de dezembro do Literatura Inglesa BrasilLeitura em 6 minutos

Uma das autoras mais consideradas a escrever o romance inglês, Jane Austen nasceu em 1775 na zona rural ao sul da Inglaterra, em um vilarejo de Hampshire chamado Seventon. Marcou a literatura por empregar a vida cotidiana à forma característica do romance, definindo o romance de costumes. Seus trabalhos guardam observações muito importantes sobre a permeação das relações materiais no dia-a-dia em comunidade, e são por isso lembrados e estudados até hoje. Austen também realizou um estudo da vivência feminina, em meio às relações de classe, que se encontra indispensável na história da escritura da subjetividade feminina.   

A romancista foi a segunda menina dos oito filhos de Cassandra Leigh, uma espirituosa dona de casa vinda de uma família da classe média, e do reverendo anglicano George Austen, estudante de Oxford que entrou para o clero de Steventon em 1755. O terceiro filho mais velho, Edward, foi adotado como herdeiro por seu primo distante Thomas Knight, obtendo a herança de suas propriedades, como Chawton, que foi onde a irmã viveu mais tarde. O filho do meio, Henry, considerado o irmão homem favorito da escritora, foi o primeiro entre os irmãos a se tornar militar, seguido pelos seus irmãos mais novos Francis e Charles, antes de trabalhar como banqueiro em Londres, morada que facilitou o contato da irmã com seu publicador londrino. Já Jane e sua irmã mais velha e melhor amiga Cassandra foram mandadas juntas a colégios pelo sul inglês quando menores, completando sua educação em casa. 

Apesar dos limites socialmente impostos à carreira e educação de meninas, seus pais montaram um ambiente encorajador para os filhos se interessarem pelas artes e as letras, o que influenciou no gosto literário da autora, que já escrevia quando pequena. Por causa das condições femininas da época, a publicação e a vida de Austen dependeram dos homens de sua vida, com seus irmãos tendo que colaborar para que não apenas suas obras fossem publicadas, mas para que a autora, sua mãe e sua irmã tivessem onde morar. Durante os oito anos após a morte do pai, as duas filhas solteiras e a mãe aviuvada tiveram sua renda significativamente reduzida, tendo que viver por meio de longas visitas a conhecidos e parentes, até Edward Austen (agora Knight) poder assegurá-las com um lar em Chawton, herdado das propriedades de Thomas Knight. Essa situação de dependência financeira, assim como a convivência em família, também foi refletida nos seus romances, como na importante missão da Sra. Bennet de Orgulho e Preconceito (1813) para casar as suas filhas antes que seu marido faleça. 

Austen pode ser mais conhecida por seus romances posteriores, mas também possui escritos de 1787-1793, de quando estava entre seus onze e dezoito anos de idade, sendo conhecidos como a sua Juvenília. Essas obras são importantes no entendimento e no estudo da formação artística da autora, apesar de não terem um estilo consolidado. Foram escritos em três volumes, de modo a lembrar livros publicados, já que seu objetivo era ver sua obra impressa. A autora escreveu três romances antes dos seus 25 anos e publicou diversas obras, apesar de algumas produções só terem sido publicadas postumamente. Austen escrevia em um importante momento da ascensão do romance inglês, em que mulheres começaram a ter algum espaço na ficção doméstica por diversos fatores, e estas eram dependentes de algum modo do sucesso uma das outras. Essa entrada das mulheres no mercado literário, no entanto, não foi marcada por uma aceitação generalizada: Austen precisou publicar obras anonimamente por intermédio de seu irmão, assinando-as como escritas por “uma dama”, para evitar rebaixamentos adereçados à escrita feminina e uma posição infame na sociedade. 

Seu primeiro romance publicado, Razão e Sensibilidade (1811), segue duas irmãs de classe mais baixa, Marianne e Elinor, ao incorporarem essas duas formas de entendimento do mundo. A história das irmãs e de seus encontros com seus pares românticos apresentam diferentes formas de lidar com o amor e a necessidade de se encontrar algum equilíbrio entre essas duas forças. Marianne incorpora a sensibilidade excessiva e acaba lidando com muitas frustrações, precisando aprender a conter algumas expectativas para não ser tão ingênua. Enquanto isso, Elinor é menos impulsiva e mais constante, mas precisa também aprender a deixar suas emoções transparecerem. 

Orgulho e Preconceito, sua obra mais famosa e igualmente ambiciosa,  aborda uma duplicidade semelhante, mas que é balanceada entre os protagonistas Elizabeth Bennet e Mr. Darcy e as suas primeiras impressões um do outro. O cenário econômico da família Bennet e as diferenças sociais presentes na sociedade da época geram relações curiosas e discussões em torno da instituição do casamento. Um ar mais sério da escrita austeniana pode ser encontrado em Mansfield Park (1814), que acompanha a história de Fanny Price, uma menina que é enviada aos 10 anos de idade para morar com a parte mais abastada da família: a vivência de Fanny nesse espaço doméstico traz críticas interessantes aos códigos de conduta da época, bem como às diferenças nas vivências de classes sociais distintas.

O ar cômico das obras da autora é emoldurado com força total e consistência em Emma (1815), que acompanha a vida da socialite Emma Woodhouse, que insiste em tentar arranjar casamentos para as pessoas ao seu redor. O drama da obra se desvela à medida em que a jovem ignora os verdadeiros desejos destes, para focar no que seria mais apropriado aos seus olhos talentosos, mas acaba gerando uma confusão que termina no encontro do seu próprio amor.

A autora acabou falecendo em meados de 1817, mas teve Persuasão e A Abadia de Northanger publicadas em dezembro do mesmo ano. Em A Abadia de Northanger (1817) acompanha Catherine Morland, uma ávida, porém ingênua, leitora de obras do gótico. A jovem enfrenta certa dificuldade em diferenciar os horrores que lê da realidade em que vive ao ser inserida em lugares novos na sociedade, e essas paranoias se intensificam com a sua chegada na abadia. Já em Persuasão (1817), tem-se a história de uma segunda chance de amor entre Anne Elliot e o capitão Frederick Wentworth, com quem tinha sido persuadida a não se casar 7 anos antes, mas que passou a ser mais aceito pelo círculo social e familiar após o seu retorno das guerras napoleônicas

Ao todo, na pequena porção de suas obras mais conhecidas já é possível perceber a destreza e multiplicidade na perspectiva da escrita de Austen, correspondendo à concepção moderna da subjetividade e a iluminando através da consciência das limitações de gênero e de classe (e mesmo raça, como percebido em leituras mais recentes). Uma diversidade pode ser similarmente encontrada nos seus escritos menos conhecidos da sua adolescência, assim como nas constantes releituras, acadêmicas e artísticas, que o passar dos séculos propicia ao seu legado. Além de entender o equívoco e a problemática de reduzir a escrita Austeniana a histórias sentimentais de amor romântico, é também importante se atentar à riqueza e profundidade a que o próprio desenrolar das tramas amorosas (seja de amor romântico, fraternal, entre outros) nos levam. Desse jeito, homenageamos uma dos maiores romancistas neste dezembro, comemorando seu aniversário de 250 anos.     

Publicado por

É graduando em Letras - Inglês/Literaturas na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e bolsista do projeto de extensão Literatura Inglesa Brasil, sob orientação da Profa. Dra. Marcela Santos Brigida.

É graduanda em Letras - Inglês e literaturas na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e bolsista do projeto de extensão Literatura Inglesa Brasil, sob orientação da Profa. Dra. Marcela Santos Brigida.

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