Em Fremont (2023), acompanhamos uma jovem adulta chamada Donya, uma refugiada do Afeganistão que foi enviada sozinha para os EUA para proteger-se do conflito em seu país natal, na sua solitária rotina como funcionária de uma fábrica de biscoitos da sorte em San Francisco. O filme apresenta esse cotidiano se alterar com a procura de Donya por um psiquiatra, sob a única intenção de conseguir remédios para dormir para tratar a sua insônia; em vez de somente uma receita, ela se torna paciente de sessões de psicoterapia uma vez por semana, ocasiões em que ela é convidada a falar sobre si. Com o filme organizado em diferentes trechos do dia-a-dia da protagonista, pode-se ver uma pequena mudança que se acumula a ponto de acordar Donya de sua apatia automatizada e perceber-se fora dela.
Nas sessões com o psiquiatra, nas conversas com a colega de trabalho, e com outros imigrantes, o filme é estruturado de maneira que Donya vai tateando e concebendo a realidade de sua situação. O seu psiquiatra pergunta a ela sobre sua experiência de imigração, focando nos seus sentimentos. A paciente, inexpressiva, somente informa o que aconteceu. O que ela sente, por mais que o médico infira serem sentimentos de culpa advindos do estresse pós-traumático, é irrelevante, segundo a prioridade que ela dá ao fato de que sua família e amigos foram deixados para trás em condições muito piores do que ela se encontra. Ela trabalhava como tradutora para o serviço militar americano nas suas bases no Afeganistão, instruindo aos soldados sobre novos equipamentos e armas, e emigrou por meio de um dos aviões de evacuação.
But I know I’m lucky. One translator I worked with was killed almost immediately after he stopped working for the U.S army. He was waiting for his paper to come over here. One of my friends, Payam, was also a translator. He couldn’t make it to the evacuation flights. I know I’m lucky and I know they’re unlucky.
Essa leitura da realidade predominou durante os oito meses que Donya esteve vivendo nos Estados Unidos, abafando e simultaneamente guardando os seus sentimentos. Na maior parte do longa-metragem, Donya carrega um semblante insensibilizado e desinteressado, dentro e fora do trabalho na fábrica de biscoitos da sorte. Por isso, os outros personagens mais falam para ela do que com ela, mas esses diálogos ainda inspiram e refletem o interior sensível da personagem. Na sua amiga e colega de trabalho Joanna, desde o início do filme, Donya assiste o desafio de conseguir viver uma história de amor, o que ela nem considera acontecer em sua vida. As duas compartilham de condições financeiras similares, e Joanna incorpora um triste alívio cômico nas suas dicas de romance, tiradas de livros.
Das suas interações com outros imigrantes afegãos, uma população numerosa na cidade de Fremont, em que se mora a protagonista, as conversas com seu vizinho Salim e com o velho cozinheiro da lanchonete, na qual ela faz suas refeições, confrontam a questão do amor dentro desse ponto de vista. Aqui, o diretor Babak Jalali incorpora uma distinção das diferentes gerações do refúgio afegão em Fremont, apresentando-a no personagem do cozinheiro, que tanto vê na novela romântica, que ele demanda que Donya assista, uma distração interessante para a violenta realidade de que “todos entram no seu país, queimam-no, e o abandonam sem culpa desde sempre”, quanto um reflexo do quão triste e insignificante é a sua vida. Posando suas próprias conclusões e sentimentos para Donya, perguntando-a se seu coração já pulou uma batida por alguém, o personagem faz ela notar a extensão do vazio na sua vida. Aconselhando-a, ele a faz lembrar que ela tem um coração também.
Pode-se ver o mesmo acontecendo em um momento chave do filme em uma noite de karaokê na casa de Joanna, depois do trabalho. Rompendo com a expressão cansada que Donya carrega, Joanna canta “Diamond Day” e a faz chorar. A canção de Vashti Bunyan, que é sonora e liricamente alegre, narra, num mundo distante, a simplicidade da vida em comunhão com a natureza e com a família e a sociedade. A performance de Joanna é mais melancólica, o eu da canção parece não só falar da simplicidade da vida que ela não tem, mas da insignificância na vida dela. No fim da cena, os olhos tristes das duas se encontram.
Após ser promovida a escritora da sorte dos biscoitos, Donya é inspirada por esses momentos e por seu psiquiatra a fazer do trabalho uma maneira de ser vista, e coloca o seu número de telefone na sorte de um biscoito, junto da legenda “Desesperada por um sonho”. O ato, que também representa um momento importante no filme, rompe com a automação da escrita, que mesmo sendo a princípio um ato de criação, obedecia a estandardização da fábrica. De maneira similar, o trabalho de tradução também sofria com o apagamento de sua autora, obedecendo não a ela, mas à guerra.
O biscoito acaba na festa de aniversário do neto do casal de donos da fábrica de biscoitos, sua sorte é lida por uma das convidadas, uma mulher branca da classe média, o que envergonha o casal. Nesse momento, o filme traz mais complexidade na questão da imigração não só na diferença de gerações de imigrantes mas na maneira de assentar-se na sociedade americana. Os dois chefes são imigrantes chineses que herdaram a fábrica de seus pais. A esposa fica irritada com Donya, ainda mais porque, “na idade de Donya”, ela já estava casada e com filho. O marido é mais simpatizado com a jovem por ver nela uma escritora “com memórias”. Ele a ensina, girando um globo terrestre físico do qual a câmera vai lentamente se aproximando, que é normal sentir-se sozinho e pensar em outras possibilidades com outras pessoas.
Na cena seguinte, Donya verifica a validade dessa teoria no seu vizinho Salim, que reforça a importância, aqui tornada um comprometimento moral, de não parar de pensar no sofrimento daqueles deixados para trás. A questão do amor e a questão do trauma são explicitadas como opostos nas reflexões dos dois personagens, os dois apresentados no filme sofrendo do mesmo mal. Mas Salim expressa que se apaixonar, criar felicidade e comunidade no país de refúgio, é permitido, contanto que eles estejam sempre conscientes do sofrimento do país de origem.
Jalali elenca pessoas enlutadas pela realidade em que se encontram, pela morte de outras possibilidades. O filme corporifica a complexidade da vivência imigrante, principalmente do refúgio, dando atenção à melancolia de seus personagens, que imbuí a concepção deles da realidade uma dualidade, a consciência fresca de que outras pessoas, pessoas queridas, estão sofrendo ao passo que eles vivem a vida. A esses personagens, Fremont pergunta: será que estão mesmo vivendo?
Pode-se notar que essa mentalidade vinculada à vida na modernidade – a estandardização do processo de fabricação dos biscoitos da sorte não está trancada nessa produção, ela transpira nas relações interpessoais dos personagens. Por isso, mesmo os personagens que não são refugiados percebem a falta de si próprios e a dos outros nas suas vidas.
O ato da narrativa é conscientizar a protagonista, assim como a sua audiência, de sua insensibilização. Ao fazer isso, e ao comovê-la, o filme pode aproximar Donya da procura por um sonho, aproximar a si mesma, a sua subjetividade, do plano real da sua vida. Isso também implica encontrar o outro, em ser vista ao mesmo tempo que ver o outro, como no desafio de deixar de lado uma introversão socializada em ordem de parar para oferecer atenção e amizade ao solitário mecânico que Donya conhece por acidente. Neste fim, a cinematografia em preto e branco, que passou a maioria do filme ilustrando confinamento, monotonia e pequenez em meio ao urbano, passa a engrandecer a luminosidade dos cenários naturais, ecoando visualmente a vida narrada na canção folk de Vashti Bunyan.
