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Dica de leitura: The Word for Woman is Wilderness

Como você se sente sobre o lugar que você chama de casa? Espaços industriais amassados, superlojas novinhas em folha, rios de cantos amarelados de doença com naufrágios flutuantes de latas de coca cola, sem lugar para ficar a sós de modo que você nem sabe o que é estar com os outros. Você se sente sobre isso como você se sente sobre o seu corpo, como se forças de fora estivessem te separando dele. Você é impotente em tê-lo e você não entende que os outros não tem direito a ele. O que é essa saudade de casa?

Publicado por Abi Andrews em 2018, The Word for Woman is Wilderness segue a viagem de Erin, uma jovem de 19 anos de uma pequena cidade operária do interior da Inglaterra, para a natureza selvagem e ártica do Alaska. O romance retrata, na forma de um diário pessoal, a jornada física e mental de sua protagonista em diferentes rotas, ambientes e companhias até seu destino final no Monte Denali, a montanha mais alta da América do Norte. Lá, dependendo completamente de si mesma em uma cabana deserta na natureza da Taiga e da Tundra, Erin vai em busca de sua autenticidade, tendo afastado o controle da civilização e da modernidade da sua experiência viva. Inspirada e desafiada por sua leitura de homens que contemplaram o retorno à natureza, como Thoreau em seu Walden, a menina não almeja apenas ser livre da cidade, mas do patriarcado que a fundou. 

O livro pode ser considerado um romance de aventura e também de formação, mas através desses dois temas, suas páginas se aproximam de uma coletânea de ensaios que habitam a experiência e exploram as condições que levaram Erin a esta aventura. É uma narrativa que move a narradora-personagem a pesar na cabeça diferentes saberes e teorias que realizam uma crítica do capitalismo e do patriarcado. Apropriando-se do desafio sobrevivencialista e das observações em meio a comunhão com a natureza, Erin confronta tanto o subtexto masculinista desses ensinamentos quanto a verdade por trás deles, com perspectivas mais contemporâneas e interseccionais.

Ao longo do livro, sobrevoa às movimentações terrestres da protagonista a questão das explorações no espaço sideral, juntamente com os avanços tecnológicos e as suas consequências, igualmente ambientais quanto humanitárias. De uma maneira emprestada da crítica marxista, a narradora situa esses eventos tecnológicos do homem nas próprias relações dos homens e de ser homem, ao narrar os detalhes da corrida espacial entre os Estados Unidos e a União Soviética, sustentando que ela era, assim como outras descobertas, “menos um exercício da curiosidade e mais uma corrida de orgulho nacionalístico”. 

Essa ideia acompanha o desenrolar da narrativa, com Erin identificando no fazer da ciência e da história esse ato de colonizar, em eventos desde a corrida do espaço, na corrida do círculo ártico, e na cápsula do tempo Golden Records, que o presidente americano Jimmy Carter enviou ao espaço como um token da humanidade da época (“efetivamente colonizando o futuro”, como narrado por Erin). Além da colonização ao redor do globo, cujo contexto dos povos nativos é também estudado por Erin, a questão da dominação é percebida mesmo na publicação de A Origem das Espécies, que a narradora conta ter sido influenciada pela publicação de A Riqueza das Nações, texto pro-capitalista de Adam Smith que também contava com a lógica da “sobrevivência dos mais fortes”.  

Ainda ligado ao ato da dominação, o princípio que Erin primeiro contesta, explicando a concepção da viagem, é a simbólica imagem do homem que critica a civilização e viaja sozinho na natureza. Nos escritos de Henry Thoreau, Jack Kerouac, Jack London, e mesmo Ted Kaczynski (o terrorista Unabomber), e na filmografía de programas de aventura no meio selvagem, a narradora aponta aspectos masculinistas dessa self-reliance. Em um primeiro instante, a narradora deseja provar a busca por autenticidade enquanto mulher, tendo em vista que a figura feminina, nesse cenário, era apontada como social, e por consequência, sexual, demais que tanto romperia a autenticidade quanto não sobreviveria na solitude.

Além da discussão de gênero, que a narradora reconhece como um problema da civilização que seus antecessores Mountain Men não se preocuparam em renunciar, a própria navegação de Erin, no mundo urbano e selvagem, é fortemente marcada pela socialização feminina. O próprio desafio para seguir a jornada se dá pela ideia de comunhão com a natureza ser sempre formada por uma masculinade auto-engrandecedora, que é também apoiada pelo pouco incentivo que Erin teve para seguir esses caminhos na sua infância. Mesmo em viagem, a personagem constantemente se vê batalhando contra a tentativa dos outros de limitá-la a uma imagem de impotência e fragilidade femininas, mesmo consciente de parte das razões para tal constarem um perigo.

O que também reforça esse confinamento, do qual Erin busca se ver livre, é o trauma silencioso do período aos 14 anos em que a personagem era diariamente violada pelo seu chefe de trabalho em uma lanchonete. A jovem não havia chegado a denunciar, tampouco a contar aos pais mesmo com o tempo passado, e a diária ocorrência lhe era o preço de poder ter dinheiro para ter uma vivência na cidade. A grande significância disso ajuda a dar forma ao que a narradora passa a observar sobre a liberdade que ela estava buscando e sobre o contexto capitalista da civilização que ela analisa na narrativa. Diferente dos seus antecessores Mountain Men, Erin não tem a vantagem de experienciar o mundo enquanto somente uma observadora, porque a condição feminina a relega a uma posição de objeto a ser observado. Desse entendimento, a narradora passa a rever a relação do sobrevivencialista com o espaço, com outras mulheres, com os animais, assim como a sua própria, indo mais uma vez em encontro com o conceito de colonizar.

Essa ideia floresce em uma parte do livro em que a personagem entra em contato com o contexto indígena na América do Norte, se aprofundando nas condições materiais e políticas juntamente das perspectivas sobre elas. Ela aprende as diferentes relações e violências pós-coloniais, e tem suas experiências de assédio sexual diretamente relacionadas com o cenário histórico de feminicídio de mulheres e meninas indígenas em certas partes do Canadá. Ela liga esses acontecimentos não apenas às relações heteropatriarcais de gênero, mas, aprendendo o passado matriarcal de uma reserva indígena que ela visita, a construção da civilização, enquanto um desenvolvimento das relações capitalistas, aparece também como uma condição da violação e da violência contra a mulher.  A personagem processa o próprio trauma enquanto sendo confrontada com a deterioração ecológica das terras que, mesmo reservadas aos nativos americanos, ainda os encurrala para vendê-las por constituirem um peso morto insalubre — ainda consciente de que, no outro lado do mundo, no Reino Unido, a tendência do fracking se acresce a ponto da cidade natal de Erin estar sendo incluída como uma área de interesse. Esse momento da narrativa se manifesta como um ápice da mutilação do exercício da escolha na experiência corpo-espacial, esboçando uma violação que é tanto ambiental quanto sexual, pessoal e psíquica.

Uma parte muito importante do livro também se refere a desconstrução do obstáculo epistemológico que compõe a concepção do mundo natural, principalmente quando a narradora entra em detalhe sobre a transmigração de almas. A ideia é introduzida quando Erin ainda está na Groenlândia, e a mãe de sua amiga a explica sobre o conceito que sustenta as culturas de populações Inuit ao redor do círculo ártico. O conceito entende que não apenas seres humanos e animais, mas que paisagens terrestres e objetos inanimados têm almas, e que elas podem transicionar entre corpos. A ideia move a narradora a olhar para a taxonomia, que têm prática no fazer científico, com um novo peso, por identificar nela também o ato colonizador de relegar os seres a objetos prensáveis.

Em suma, a autora reúne em Wilderness críticas do patriarcado, que imagina a homem como a espécie superior, possibilitando relações colonizadoras, e da história da economia política, entendendo a civilização e o parcelamento do espaço como instrumentos capitalistas que recompensam a conquista patriarcal. Andrews elabora tanto uma chamada para ação quanto um convite para refletir sobre a experiência corporal e socioespacial da vida em estágio avançado do capitalismo. A mudança radical de cenário, tendo rompido com a automatização da vida, abriu uma amplitude de possibilidades de pensar o mundo para além da imposição de verdades objetivas e da submissão a elas. Em vez de prosseguir com a reificação, ou mesmo renunciando para sempre a vida em sociedade, Erin guarda em si o conhecimento de múltiplas verdades e a prática de reverenciar a vida de seus arredores, e não de imortalizá-los. A narradora, assim como quem lê, deixa a narrativa mais aberta e, consequentemente, mais livre.

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