“I am typing these words as June 2003 surges with Pride. What year is it now, as you read them? What has been won; what has been lost? I can’t see from here; I can’t predict. But I know this: You are experiencing the impact of what we in the movement take a stand on and fight for today. The present and past are the trajectory of the future. But the arc of history does not bend towards justice automatically—as the great Abolitionist Frederick Douglass observed, without struggle there is no progress . . .”
Em 1949, nascia Leslie Feinberg, nome que entrelaçaria, na literatura e nos estudos, o marxismo com a libertação LGBT+, dando voz a pessoas oprimidas ao redor do globo. A ativista, jornalista, historiadora e pesquisadora nova-iorquina publicou obras de não-ficção e romances que partem do mesmo tema. Conhecidas para além dos círculos acadêmicos e radicais, as palavras de Feinberg atingem o público geral desde o lançamento do panfleto Diary of a Transexual em 1980 e mais ainda com o seu premiado romance de estreia Stone Butch Blues em 1993. Pela maneira que a discussão sobre relações de gênero e de classe continuam a se desenvolver, a sua autoria seguirá culturalmente marcante.
Vinda de uma família judia de classe operária, a escritora sofreu discriminação desde a sua infância, que rapidamente se tornou vida adulta, com seu primeiro emprego aos catorze anos. Assim, Feinberg foi se distanciando tanto da vida com sua família quanto da escola, por fim rompendo completamente com os dois. Foi na adolescência, através da busca por auto-sustentação, que ela acabou trocando esses espaços de socialização pelos bares gays de Buffalo, Nova York.
Nesse novo meio, em virtude da discriminação, Feinberg sobreviveu apenas de empregos temporários, convivendo e se relacionando na cena gay de Buffalo. Com vinte e poucos anos, pouco depois da Revolta de Stonewall em 1969, a jovem autora se encontrou com o Workers World Party (partido comunista dos Estados Unidos), a partir do qual ela se radicalizou e desenvolveu a sua voz acadêmica, política e literária. Desde 1974, ela foi jornalista do partido, sendo editora da página dos prisioneiros políticos por quinze anos e, entre 2004 e 2008, criadora da série “Lavender & Red”, conectando socialismo com história LGBT+.
Embora Diary of a Transexual seja mais explicitamente autobiográfico que seus dois livros de ficção, Stone Butch Blues e Drag King Dreams (2006), as três publicações são muito próximas da sua realidade, “chamando o leitor para a ação”. Essa examinação da experiência lésbica, transgênero e operária é também um apto registro sociohistórico cuja leitura é necessária para avançar nas discussões desses problemas. A maneira que os narradores-personagens de Feinberg retratam o gênero e a identidade lésbica diferencia-se de tanto os padrões heterossexuais quanto das construções de identidade queer mais recentes, sendo a própria Feinberg responsável por popularizar o termo “transgênero” quase como um sinônimo do atual “não-binário”.
Seu primeiro romance pode ser visto fazendo o mesmo especialmente com as identidades e as relações lésbicas, sendo butch uma identidade lésbica de expressão masculina e stone butch a gíria para a pessoa butch cuja masculinidade é tão prevalente que ela prefere não ser tocada sexualmente pelas parceiras. Com ambos termos originando-se na subcultura lésbica estadunidense da metade do século XX, a vida da protagonista Jesse Goldberg se passa nesse mesmo ambiente, sendo ensinada e cuidada por outras butches e lésbicas ao seu redor desde que ela fugiu de casa e da escola ainda adolescente. Dessa maneira, Jesse aprende sobre a comunidade lésbica e a dinâmica entre butches e femmes, sendo esta última a contraparte lésbica de expressão feminina, e os padrões comportamentais esperados das duas.
Como um romance, Stone Butch Blues pode ser lido como um estudo das diferentes classes através das quais Jesse habita o mundo, descrevendo com afinco os problemas estatais e sociais que elas sofrem. Se, por um lado, podem se ver questionadas as normas de gênero da própria comunidade lésbica, a violência financeira, institucional, policial, médica, e de gênero é amplamente discorrida no sofrimento de Jesse e nas suas relações. É aquilo que condiciona o blues da stone butch que Jesse acaba se tornando, o descarte e a solidão que permeia e envolve as relações de Jesse em sua vida. No início da narrativa, a protagonista ainda criança recita para a sua sala de aula “Alone” de Edgar Allan Poe, “From childhood’s hour I have not been / As others were—I have not seen / As others saw […] And all I lov’d—I lov’d alone”, da mesma maneira que, vinte anos passados, ela ainda confessa “não sentir do mesmo jeito que todo mundo sente”.
Enquanto o primeiro livro tem a estrutura de um romance de formação, narrando desde a infância de Jesse à uma vida adulta mais experiente, Drag King Dreams já parte da protagonista, Max Rabinowitz, uma barista lésbica mais velha dessensibilizada em meio a guerra dos Estados Unidos pós-nove de setembro contra diferentes países e grupos. Da mesma forma que Jesse encontra o ativismo ao fim do romance, Max, que já é veterana do movimento, retorna a ele após uma tragédia, reconectando-a com a esperança por um mundo melhor.
Aproximando-se dos escritos teóricos e trabalhos reais de Feinberg, as duas narrativas, mantendo sempre uma abordagem interseccional, são conectadas por essa esperança.
