“Because I am in my 80s, have most of my marbles, have been a practicing gay since age 13, lived through the oppression of the 1950s, the post-Stonewall exaltation of the 1970s and the wipeout after the advent of AIDS in the 1980s, the discovery of the life saving therapies of the 1990s, the granting of gay marriage, equal rights in the States in 2015, the parallel right to adopt children, the brewing storm in the 2020s against everything labelled “woke” (trans people, drag queens, books, puberty delaying drugs), because I witnessed all this drama and melodrama, I am perfectly situated to view how we got here”.
No prefácio de seu livro de memórias “The Loves of My Life: A Sex Memoir”, Edmund White encapsula sua vasta experiência de vida imerso na cultura queer norte-americana da segunda metade do século XX. Nascido em 1940, em Cincinnati (Ohio) em uma família de classe média alta e conservadora, o autor ficou conhecido por retratar a subjetividade e o imaginário de homens gays em sua dezena de obras ficcionais, ensaios, biografias e trabalhos de crítica literária e autoficção. Ao longo de sua vida, lecionou literatura e escrita criativa em universidades dos Estados Unidos, como Princeton, e recebeu títulos de honra, como a Ordem das Artes e Letras na França e um lugar na Academia Americana de Artes e Letras, dentre outros.
Além de ter escrito biografias sobre autores como Jean Genet, Arthur Rimbaud e Marcel Proust, a literatura de White faz um mapeamento da vida gay (principalmente a masculina) nos Estados Unidos durante décadas, transformando a memória de pessoas queer em uma forma de resistência através da literatura. Escrevendo abertamente sobre sua própria vida sexual com outros homens desde a adolescência, o autor passou a ser considerado um pilar central da literatura gay. Dentre seus trabalhos mais conhecidos, está a trilogia autoficcional formada por: Boy’s Own Story, The Beautiful Room is Empty e The Farewell Symphony. No primeiro livro, um romance de formação, White rememora suas primeiras experiências como jovem gay no centro-oeste americano, sua mudança para um internato masculino longe dos pais e suas tentativas falhas de “conversão sexual” com psicanalistas. Retratando a década de 50, o livro publicado em 1982 ecoou a experiência diaspórica de vários outros homens homossexuais que deixam suas casas (“fogem”) para tentar viver sua sexualidade de forma mais livre.
É importante ressaltar que, ao escrever sobre essa experiência de diáspora, White dá voz, na literatura, a uma experiência bastante comum de pessoas queer. Desse jeito, ele também se insere em uma tradição literária de autoficção gay, na qual autores, ao redor do globo, recontam suas experiências fugindo de contextos familiares opressores para as grandes cidades. No Brasil, por exemplo, em Pai, pai (2017), o escritor e historiador LGBT João Silvério Trevisan conta sobre sua fuga para o seminário para fugir da família e de um pai alcoólatra. Depois, muda-se para uma grande metrópole, São Paulo. Na França, em Retorno a Reims (2009), Didier Eribon faz um estudo sociológico do mesmo fenômeno, a partir de seu próprio relato de fuga para uma capital: Paris. No ensaio, Didier discute como a própria identidade gay é forjada pelo insulto, gerando sentimentos enraizados de vergonha e culpa. De forma semelhante, duas décadas depois, o jovem francês Édouard Louis relata a mesma trajetória em seus livros autoficcionais como Mudar: Método:
“Não passava um dia sequer sem que eu pensasse, Tenho que ir embora, tenho que ir embora – essa frase se tornou parte de mim” (2025, p. 29).
“Precisava encontrar um tipo de existência em que meu corpo e minha história pudessem ser possíveis” (2025, p. 40).
Ambos os autores franceses encontraram em Paris um exílio para viver sua homossexualidade fora de um contexto familiar repressor e da vida no interior, onde todos falariam sobre suas identidades. White também escolheu a capital francesa para chamar de casa por 16 anos de sua vida, retratando sua ligação com a França e o ambiente cultural queer parisense em várias de suas obras, como em O homem casado (2002) e O flâneur: um passeio pelos paradoxos de Paris (2001). É interessante pensar na escolha vocabular do título do segundo livro e em como as experiências de White em Paris e sua trajetória de fuga mostram contornos gays específicos do “flâneur” na literatura. O “flâneur gay” (escrito e vivido por White) pode ser essa figura de um “homossexual em fuga”, que escolhe a vida nas grandes metrópoles para ter uma relação especifica com a cidade: ao mesmo tempo que passa despercebido na multidão de pessoas, também tem a oportunidade de, em suas perambulações, encontrar outras pessoas queer e viver algo de uma cultura da qual tinha sido excluído até então.
Outro grande ponto forte da literatura de White, que começa a aparecer com ainda mais força no segundo livro da trilogia The Beautiful Room is Empty, é a maneira honesta e sensível que o autor escreve sobre sexo e o corpo. Durante esse romance, descrições detalhadas sobre o corpo masculino e experiências sexuais do narrador com outros homens em lugares inusitados (como o banheiro da universidade) tomam a cena. Ao começar a explorar mais sua identidade gay com outros homens, apesar da culpa latente e das sessões recorrentes com um psicanalista charlatão, White também transporta o leitor para a vida gay estadunidense do século XX. O narrador mostra como homens se encontravam, como homens gays conversavam entre si e como viviam, na cidade grande nesse momento.
No último romance da trilogia, The Farewell Symphony, outro personagem importante do imaginário LGBT aparece: a epidemia de HIV/AIDS. Como também ocorre em O homem casado, os personagens são atravessados por questões ligadas a contar (ou não) sobre sua sorologia, a morte de amigos e pessoas queridas, e como lidar com o fato de que o sexo (retratado e vivido de maneira tão livre nos romances anteriores) agora está ligado ao medo da morte.
Edmund White faleceu em 2025, em Manhattan, deixando para trás um legado de valor inestimável para a literatura e para a história LGBT. A sua história é a de um corpo marginalizado que fala abertamente sobre sexo, desejo e prazer. Conviveu com o vírus HIV durante grande parte da sua vida e escreveu livros como The Joy of Gay Sex, uma espécie de manual sexual para homens gays. Esteve presente no bar Stonewall Inn durante o florescer do movimento por direitos civis, dizendo, em The Beautiful Room is Empty:
“When someone shouted ‘Gay is good’ in imitation of ‘Black is beautiful’, we all laughed … Then I caught myself foolishly imagining that gays might someday constitute a community rather than a diagnosis”.
Ainda sobre a revolta de Stonewall, escreve:
“Up until that moment, we had all thought homosexuality was a medical term. Suddenly, we saw that we could be a minority group — with rights, a culture, an agenda.”
Publicado por

Henrique Vieira Fernandes
Henrique Vieira Fernandes é estudante de graduação em Letras na Universidade de São Paulo (USP). É interessado pela literatura gótica e irlandesa, pelo modernismo britânico, pela poesia norte-americana e pela experiência queer na literatura.
