Nascida em 1931 em Wingham, Ontario, Alice Munro é considerada a mestre do conto contemporâneo. Dentre suas muitas honrarias, estão o Nobel de literatura de 2013 e o Man Booker International de 2009. Nascida Alice Laidlaw, a autora foi marcada por ter sido criada em uma fazenda de lã e também pelas diversas questões que acabaram por atingir sua família: sua pré-adolescência foi simultaneamente marcada pela piora progressiva do quadro de Parkinson de sua mãe e também pelo negócio decadente de seu pai.
Apesar de tantos desafios, e da eventual atribuição dos papéis domésticos do lar frente a impossibilidade da mãe, Laidlaw se viu motivada a continuar escrevendo, criando e se desenvolvendo acadêmica e criativamente: a autora decidiu que não deixaria tais tragédias minarem seu potencial. Ao perceber em si mesma, no convívio escolar e nos arredores da fazenda, certas “diferenças favoráveis” junto à sua adquirida introspecção, passou a escrever poesia e a sempre criar histórias em sua cabeça – influenciada por sua leitura ávida de nomes como Dickens, Tennyson e Lucy Maud Montgomery.
Ao fim do ensino médio, foi a oradora de sua turma e também ganhou uma bolsa para estudar na University of Western Ontario. Na instituição, inicialmente cursou jornalismo, mas no segundo ano mudou sua especialização para a língua inglesa – área na qual ganhou a honraria do ano por seu desempenho. Na universidade, sentiu a escrita tomar conta de si, e publicou sua primeira história em 1950 em uma revista literária por graduandos, seguida de outros dois contos. Desde então, passou a escrever cada vez mais.
The Dance of The Happy Shades (1968), a primeira coletânea das treze que Munro publicou, foi o resultado do esforço da autora de escrever entremeio a inúmeras responsabilidades domésticas, dentre elas a sua filha recém-nascida, a mais nova das suas três filhas. Fazendo seu nome ser conhecido, o livro retrata a vida de cidade pequena em Ontário, Canadá, nas décadas de 1950 e 1960, especialmente a vida de personagens femininas. O marcante conto titular examina as dinâmicas locais de classe e de alteridade em um recital infantil de uma professora de piano cujos convidados, os pais dos alunos, são obrigados, por convenção, a ir. No fim, os seus cochichos e desânimo generalizado são contrariados pela apresentação musical excelente, feita não por seus filhos, mas pelos alunos de uma escola de necessidades especiais.
O plano do cotidiano, engendrado em comunidades estreitas como no contexto provinciano canadense, e o protagonismo de questões relacionadas a meninas e mulheres são marcas da autoria de Munro que, introduzidas por esse primeiro livro, reverberam por toda a sua obra. Os contos tipicamente estudam a maneira que essas comunidades constroem e escoltam a experiência da realidade, e o esforço de seus personagens de lidar com isso. As histórias interconectadas do segundo livro de Munro, Lives of Girls and Women (1971), seguem a experiência interiorana feminina de sua jovem narradora, tornando a obra um clássico feminista da literatura canadense da época. A maneira que a personagem principal entra em conflito consigo mesma, ou com a versão de si que é natural da sua vida local e doméstica, é também uma marca da escrita de Munro, aqui habitando o papel principalmente de uma filha adolescente, que tenta conciliar as similaridades com a mãe.
Assumindo outra fase da vida, o livro semi-finalista do Booker Prize, Who Do You Think You Are? (1978), segue a vida de uma protagonista desde a adolescência à vida adulta através de contos interconectados. A coletânea se aprofunda na consciência da personagem em uma estreita relação com a experiência de classe dela, discutindo principalmente a ambição em contraste com os ambientes que ela atravessa. Originalmente o conto titular da primeira coletânea, “The Beggar Maid” desenvolve a dinâmica de classe, pertencimento e ambição no casal da protagonista com um homem herdeiro da classe alta, que se conhecem na universidade. O título faz menção à antiga história do casamento de um rei com uma pedinte, que, na versão de C. S. Lewis, apaga o passado da pedinte e a encaixa na realeza; eles vivem felizes e morrem juntos. No conto de Munro, a história é contada à protagonista, que a internaliza e carrega consigo ao adentrar o relacionamento instável, que logo vira casamento, e que logo vira divórcio.
Depois dessa fase inicial, a escrita de Munro passa a focar na vida adulta, em vez da adolescência, retratando as relações de mães e esposas com o mundo, com certa ênfase em The Love of a Good Woman (1998) e Hateship, Friendship, Courtship, Loveship, Marriage (2001). Duas das suas coletâneas mais populares, elas abordam a convivência e o desafio de suas personagens com as relações matrimoniais, familiares e aspiracionais. De maneira parecida, diferentes fases da vida são apontadas nos contos de Runaway (2004). Alguns contos retratam a negociação de jovens garotas com a própria solidão, enquanto outros contos já as mostram mulheres crescidas em relacionamentos complexos. Aqui se destaca a tríade de histórias interconectadas, “Chance”, “Soon” e “Silence”, que foi adaptada para cinema na direção de Pedro Almodóvar em 2016, sob o título do nome da protagonista, Juliet. Os três contos constituem três tempos distintos da relação de Juliet com a sua filha: a sua concepção por meio de um caso com um homem casado; o encontro da criança com seus avós, e a separação da filha e da mãe, mais tarde na vida.
A obra final de Munro, Dear Life (2012), também soma diferentes momentos da vida, incluindo mesmo momentos da vida da autora, nos quatro últimos contos, que deixam de lado a ficção dos dez outros contos em troca da autobiografia. Entendendo o livro como a sua última publicação, a autora escolheu o relato do começo de sua vida, com seu pai e sua mãe, como seus excertos finais. O ato enfatiza, uma última vez, pensar a vida como o foco da escrita de Munro.
