Pular para o conteúdo

A universidade em Pessoas NormaisLeitura em 7 minutos

Em Pessoas Normais, Connell e Marianne partem de contextos sociais diferentes da escola que ambos estudavam em Carricklea, Irlanda, para estudar na prestigiada universidade de Trinity College em Dublin. Enquanto sua cidade natal guardava a infância dos dois protagonistas, sua vida universitária marca sua transição para a vida adulta, ambientada em meados dos anos 2010. Observadora do tempestuoso clima sociopolítico e econômico que assombrou os jovens dessa década, a obra de Sally Rooney retrata a dificuldade dos personagens em encaixar-se no mundo, especialmente com a entrada dos dois no ensino superior. A nova parte da vida dos personagens e do romance apresenta um cenário mais cosmopolita em relação à pequena cidade de onde vieram, e reflete, junto às questões sociais dessa geração, o quão longe eles estão de serem “pessoas normais”. 

A vida escolar de Connell e Marianne, como anteriormente analisada no blog, os delineava papéis pré-definidos: as pessoas odiavam Marianne, a consideravam um “objeto de repugnância” mal-comportado, e as pessoas gostavam de Connell, tendo em vista que “sua personalidade era como algo externo, gerenciado pela opinião dos outros, em vez de algo que ele fizesse ou produzisse individualmente”. Além disso, o cenário familiar também era muito diferente para os dois: Marianne cresceu com um abuso verbal e físico dentro de casa, enquanto Connell foi criado por Lorraine, uma mãe sábia e amorosa, que trabalhava como diarista na mansão da família de Marianne. Foi a partir desse quadro, marcado pela grande diferença de renda e de socialização dos dois, que eles deram início à relação interdependente que traça a trama do livro. 

Apesar da hesitação com que Connell se aproxima de Marianne, com medo de que seu baixo status social o contagie, os dois se sentem mais eles mesmos na companhia um do outro. Um dos primeiros encontros a ser narrado no início da história é movimentado pela conversa sobre livros, com Connell recomendando a Marianne que ela leia O Manifesto Comunista. Esse interesse mútuo do par por literatura e política caminha com eles pela narrativa, os envelopando para longe dos outros desde essa conversa, com Marianne pontuando que os amigos de Connell “não tem interesse no mundo ao redor deles”. 

É esse interesse também o que os leva a alargarem mais ainda a distância de Connell de seus amigos da escola, porque Marianne o motiva a se inscrever na Trinity College para estudar inglês, ao invés do seu plano inicial de estudar direito ou qualquer outro diploma que dê dinheiro em Galway, com seus amigos. Como Connell contemplou:

“A vida seria diferente assim. Começaria a frequentar jantares e entabular conversas sobre a ajuda financeira à Grécia. Poderia trepar com garotas estranhas que se revelariam bissexuais. Já li O carnê dourado, poderia dizer a elas. É verdade, já tinha lido. Depois disso nunca mais voltaria a Carricklea, iria para outro lugar, Londres ou Barcelona. As pessoas não necessariamente achariam que havia se dado bem: alguns talvez imaginassem que havia se dado muito mal, outros se esqueceriam totalmente dele.”

Mesmo que a vida de Connell tenha certamente ficado diferente depois que ele entrou para Trinity, de modo que sua postulação sobre “o velho Connell, o que todos os seus amigos conhecem” tornar-se uma “pessoa morta de certa forma, ou pior, enterrada viva, gritando debaixo da terra” tenha também alguma verdade, ainda faltou a ela a liberdade para Connell virar uma nova pessoa. O interesse pela literatura que havia o levado à universidade se mostrava, em seus colegas de curso, como uma disputa para representar a própria classe na forma de capital cultural. Mesmo só havendo lido o que acharam na Internet sobre os textos das aulas em vez deles próprios, os alunos não se seguravam pelo medo de parecerem ignorantes para discuti-los, diferentemente de Connell. Por mais que Connell seguisse profundamente tocado por suas leituras e se desse muito bem nos trabalhos acadêmicos em torno delas, ele permaneceu se encaixando ainda menos com as pessoas da universidade, dessa vez por questões relacionadas à diferença de classe. Adicionalmente, esse ponto sobre o atravessamento de classe na universidade não se esgota nas primeiras impressões de Connell em Trinity, como permeia a sua vivência do aspecto material (com a sua vida finalmente freando um pouco ao conseguir uma bolsa de estudos), ao social e intelectual, dado que Connell não confia nas próprias habilidades da mesma maneira que confia no julgamento alheio.  

Marianne, por outro lado, finalmente faz amizades com grupos de pessoas e se encontra com parceiros românticos de maneira que ela não pôde na escola. Ao passo em que, em Carricklea, a feminilidade só era possível como meio para ser subjugada e violentada, sua vida em Trinity a permite, a princípio, ser uma mulher desejada social e sexualmente. Enquanto na escola ela era vítima de bullying de tanto garotas quanto garotos, cada um com a sua própria forma de humilhá-la, ela passa a ser bem-quista mesmo por pessoas que se assemelham a esses agressores.   

Com o reencontro deles em Dublin, Marianne introduz Connell ao seu círculo social. As situações dos dois se inverte da escola para a universidade: parte dos amigos de Marianne não o acolhem completamente (chegando a caçoar explicitamente a origem operária de Connell), e mais adiante, Marianne percebe a fragilidade da própria relação deles com ela, especialmente com o seu término de namoro com Jamie, um dos garotos do grupo. A maioria das pessoas “toma o lado” dele e das coisas ruins que ele espalhou a respeito dela, apesar do subjugamento que Marianne vivia dentro do relacionamento mesmo antes de terminarem.  

Durante esse namoro, Marianne havia dado a ideia de que Jamie a maltratasse e a machucasse nas relações sexuais, o que ele prontamente seguiu. A ideia surgiu de um profundo sentimento de culpa que se estendia para além de estar em um relacionamento com Jamie sem realmente gostar dele, para o sentimento enraizado de que ela é uma pessoa ruim que merece sofrer. Depois desse término, no seu ano de intercâmbio na Suíça, ela se envolveu com Lukas, um fotógrafo que deu continuidade a esse abuso. Sozinha e com o seu quadro de anorexia silenciosamente piorando, e tendo menos amigos após o término com Jamie, o suiço não apenas era sexualmente violento, como também fotografava a cena de Marianne sendo violentada como se fosse arte. 

Desse jeito, Marianne é seguida pela violência de gênero desde casa, porque sua mãe “decidiu há muito tempo atrás que é aceitável que os homens usem de agressividade contra Marianne como forma de expressão”, continuando para a escola e para seus anos universitários. Esse abuso foi de um âmbito psicológico para níveis físicos e sexuais, como em algumas cenas de assédio em Carricklea, e esses encontros sexuais violentos, os quais ela mesma requisitou. Até sua relação com Connell foi articulada com um tom de submissão que, no início do romance, se mostrava na cumplicidade de Connell com o bullying de seus amigos, a limitando ao mesmo lugar que eles por esconder e aparar a relação deles.

No fim de Pessoas Normais, as marcas do histórico de abuso de Marianne, o passado “enterrado na terra de seu corpo” (p.238), juntamente à auto-repressão de Connell são transformativamente delineadas. O papel em branco que essa nova idade apresentou ao par de protagonistas não exatamente desencadeou em um rompimento limpo das amarras sociais que os controlavam quando crianças. O novo cenário metropolitano certamente sinaliza um rompimento de como a vida era antes, a imbuindo de novas possibilidades, mas essa fase é também uma transição permeada pelo desconforto dos personagens serem agora forçados a própria autonomia e liberdade. Através desse realismo que é tanto psicológico quanto social, Rooney desmonta os feitos da opressão dentro do amadurecer, sinalizando o poder regenerativo do afeto. 

Publicado por

É graduando em Letras - Inglês/Literaturas na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e bolsista do projeto de extensão Literatura Inglesa Brasil, sob orientação da Profa. Dra. Marcela Santos Brigida.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *