Tocante livro que marca a entrada de Jenny Zhang na prosa, Coração Azedo é um romance composto por uma coleção de sete contos narrados em retrospectiva, apresentando fragmentos da infância e juventude das filhas da diáspora chinesa nos Estados Unidos. Em entrevista, a autora afirmou que não desejava escrever uma obra em que houvesse apenas uma única jornada a ser seguida, mas sim “uma espécie de casa com diversos cômodos”. Essa estrutura, que torna a obra tão peculiar, faz com que o leitor experiencie a possibilidade de perambular, investigando cenários e espaços muitas vezes “bagunçados” e repletos de questões próprias.
Esses “cômodos narrativos” se situam mais especificamente nos arredores de Nova Iorque e Long Island – o que permite uma exploração interessante de dificuldades e realidades muitas vezes ignoradas em uma cidade cujo centro possui um fluxo econômico tão exacerbado. Tem-se a interpolação dessas perspectivas juvenis acerca da construção familiar em ambientes diversos, com retratos crus e muitas vezes desprovidos de qualquer glamour que possa ser idealizadamente vinculado à área. A experiência dessa primeira geração de garotas sino-americanas que protagonizam a(s) história(s) também acaba por revelar a realidade enfrentada por seus pais, com quem os ideais do “sonho americano” muitas vezes falhou, independentemente das razões que os levaram a emigrar para a América. Tem-se um conflito marcado pelas relações com a terra natal e a que foi deixada por seus pais, em um misto de sentimentos em relação à expectativas de acolhimento e identidade.
Essas relações estão contidas em uma escrita muitas vezes alongada e de poucas pausas: ainda que o caráter retrospectivo que guia a obra venha de olhares já mais amadurecidos, a escrita de Zhang parece tentar mimetizar a linguagem pouco limitada e podada da infância. Para além disso, o tecido textual verborrágico expressa também uma necessidade infanto-juvenil pungente de precisar se fazer ser ouvida em meio ao caos da vida cotidiana adulta.
A primeira história é narrada deste modo por Christina, que relata a dificuldade de seus pais em conseguir alguma ascensão social por meio do trabalho, o que resulta em uma grande dificuldade em proporcionar condições de vida mais dignas para a criança. Em meio à expressão dessas dificuldades familiares e dos conflitos próprios de cada indivíduo, a menina também demonstra seu amor e dependência de suas figuras de cuidado — o que gera um misto de sentimentos curiosos em relação à obra.
As outras experiências relatadas lembram a de Christina de muitos modos, já que a “América de Possibilidades” também não se revelou mais do que ilusória para aquelas outras famílias, em menor ou maior nível. Para além de questões econômicas e de vulnerabilidade social, elas também costumam compartilhar conflitos, seja com irmãos ou com os próprios pais — e diferentes niveis de disfuncionalidades internas acabam por tomar um protagonismo considerável em suas histórias. Ainda que as famílias sejam inteiramente diferentes em suas motivações e sonhos — envolvendo desde artistas à estudantes que não puderam exercer suas profissões tão livremente assim, bem como mulheres eternamente presas à expectativa de maternalidade e afetividade incessante, — tem-se a percepção de diferentes atravessamentos e interações indiretas que acabam por tocar em pontos comuns, em meio a essas dificuldades e limitações.
Zhang estabelece uma atmosfera coletiva intrigante a partir das interações dessas famílias umas com as outras, através de suportes oferecidos ou meros encontros e desencontros. As crianças carregam heranças e formações familiares diversas, dentro de lares que diferem em graus de espontaneidade e afetuosidade, bem como apresentam efeitos danosos em diferentes medidas. A influência dessas questões na experiência infantil, sobretudo no corpo feminino, é explorada de maneira crua e muitas vezes gráfica conforme estas crianças exploram o mundo e a suas próprias identidades e singularidades. Essas crianças protagonizam a obra com noções estridentes de causa e efeito e um forte exercício de autoconsciência e análise, que nem sempre as fazem se entender de um modo gentil consigo mesmas. A crueza de suas experiências e suas percepções sobre o mundo e sobre si podem ser, muitas vezes, de difícil assimilação para o leitor, por mais familiarizado que este possa estar com os desafios que cerceiam as narrativas do livro.
Essa expressão realista dos Estados Unidos parece contrastar, no entanto, em alguns momentos, com expressões cartunescas da China e do da Revolução – o que parece um produto interessante da “venda” da ideia de América e de sua ambivalência peculiar no imaginário coletivo. A falha do país de destino com os imigrantes chineses parece se repetir em maiores e menores graus com suas filhas nascidas no território, com um forte exemplo de como as estruturas sociais falharam em acolher populações não-brancas: as histórias tendem a abordar como muitas vezes a incapacidade do modelo escolar, bem como a demanda da perfeição que atinge essa nova minoria a ocupar a américa, também gerou conflitos de identidade e frustrações com a aprendizagem da língua inglesa. A cartografia muito sólida da cidade e dessas incertezas e explorações internas são vozeadas em meio ao caos familiar e urbano, e as histórias e narrações vão fluindo e se diferindo uma das outras de uma maneira extremamente característica através de olhares de crianças pouco inocentes sobre as dificuldades mundanas.
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É graduanda em Letras - Inglês e literaturas na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e contribui com textos para o projeto de extensão Literatura Inglesa Brasil, do qual já participou como bolsista. Tem como principal interesse de pesquisa a literatura contemporânea, atuando sob orientação da Profa. Dra. Marcela Santos Brigida.

