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Winter, de Ali Smith: Uma análise das personagens femininas

Em uma tentativa de narrar seu próprio tempo, captando a sociedade contemporânea de forma que os leitores consigam ler e identificar temas recorrentes de seu cotidiano, os escritores colocam em seus romances meios de ver o mundo que conhecemos de um jeito particular. É isso que Ali Smith, autora do quarteto sazonal, faz em seus romances, segundo a crítica literária Alexandra Harris em um ensaio para o The Guardian. Ao descrever Winter, o segundo romance do quarteto, Harris (2017) deixa clara essa ideia ao afirmar que Smith consegue absorver temas atuais e reinventar maneiras de analisar como essas questões atravessam a vida das pessoas. Assim, o objetivo deste ensaio é realizar uma análise das personagens femininas de Winter — Charlotte, Lux, Sophia e Iris — como uma tentativa de enxergar entre elas possíveis representações do feminino no contexto histórico atual, entendendo-as como pessoas reais com diferentes vivências no mundo.

Toril Moi, crítica literária, aborda esse conceito de personagem em seu artigo “Real Characters – Literary Criticism and the Existential Turn”. Nele, Moi cita Laura Baudot, professora de literatura da Universidade Oberlin, que fez um experimento com seus alunos e percebeu que, quando eles liam os livros obrigatórios e enxergavam nos personagens pessoas reais, como um amigo ou irmão que passou pela mesma experiência relatada na história, os estudantes se interessavam muito mais pela leitura. Ou seja, ao ir contra o que os críticos literários impõem, que seria uma crítica à literatura de uma forma mais formalista, focada na linguagem do texto, a análise ainda foi concluída, apenas de uma maneira menos normativa. Mesmo esses alunos não sendo críticos de literatura, Moi levantou a questão a partir desse relato: e se a análise do romance contemporâneo partisse da ideia de que esses personagens poderiam ser pessoas reais?

Enquanto estudava a fase atual pela qual a literatura está passando, Toril Moi constatou que há o fenômeno da virada existencial (existencial turn no original, em inglês) na literatura contemporânea — surgimento de um modo de escrita que está preocupado em retratar, por meio de experiências individuais e generalizadas, o que é existir no momento histórico atual. Para ela, esse fenômeno vem de duas formas: a primeira de uma autoficção explícita, quando o personagem do romance é idealizado com base nas vivências do próprio autor, e a segunda seria uma ficção mais centrada no personagem, mas que não necessariamente é inspirado em uma pessoa real. O que une essas formas nessa virada existencial é que em todos esses textos a experiência dos narradores mostra para os leitores como seria estar vivo naquele lugar, durante aquele tempo. Como Moi afirma em seu artigo:

É mais que eles querem transmitir, apesar de tudo, como é existir como um sujeito particular em um tempo e lugar específico. Isso, eles demonstram, é uma experiência que não é possível ser teorizada: o sujeito pode ser uma construção, mas ainda assim há alguma coisa que é ser eu e ser você. Em um mundo repleto de fake news, enredos falsos, falsas informações, esses escritores estão se apoiando na verdade existencial deles. Em outras palavras: eles insistem em deixar suas experiências ter importância (Moi, 2020, p. 147, tradução própria).

Esse fenômeno seria, então, um convite dos escritores para entendermos o mundo de acordo com a experiência (que pode, ou não, ter acontecido de verdade) desses personagens. Sobre isso, Moi cita Sally Rooney, autora irlandesa contemporânea, que, ao ser questionada em uma entrevista para a editora Penguin Random House se ela enxergava seus personagens como pessoas reais, ela confirmou essa atitude: “As pessoas frequentemente me acusam de falar sobre meus personagens como se eles fossem pessoas de verdade, realmente um hábito lamentável — e minha única defesa é que, para mim, eles são.” (Rooney apud Moi, 2020, p. 146-147, tradução própria). Então, se para a autora seus personagens podem ser lidos como pessoas de verdade, com problemas de verdade, por que para os leitores (os críticos incluídos) eles não podem ser?

“Personagens são compromissos estéticos com a realidade” (Figlerowicz, 2018, p. 123, tradução própria), afirma a crítica literária Marta Figlerowicz no capítulo “Novels and Characters” presente no livro The Cambridge Companion to the Novel. Isso significa que essa representação do que é visto como real para os leitores vai partir da construção de bons personagens, aqueles que podem ser quase palpáveis, com complexidades comparáveis às de um ser humano. Para fazer com que seja mais fácil entender essa ideia que vem desde os romances realistas do século XIX, Figlerowicz faz um jogo de palavras com character que, em inglês, significa pessoa, personagem e caráter. Ou seja, o significado de personagem está atrelado a características humanas desde sua palavra de origem inglesa, como se sua função fosse desde sempre ser de carne e osso. Para a teórica, os personagens demonstram uma “experiência pessoal imediata, interações interpessoais específicas ou a vida cotidiana” (p. 123, tradução própria), e também “[…] transmitem tanto a singularidade e a autonomia dos indivíduos quanto certos tipos ou generalizações que permitem ampliar a visão sobre a vida desses indivíduos” (p. 125, tradução própria), fazendo com que a identificação do leitor parta dessas experiências vividas por eles, que podem ser tanto específicas quanto generalizadas, do tipo que todo mundo já ouviu falar. Portanto, ler personagens como pessoas reais, assim como proposto por Toril Moi e feito neste texto, é apenas analisá-los da forma que eles foram criados para serem lidos — como parte do mundo.

Retratado durante o feriado de Natal na Inglaterra, Winter narra a história de duas irmãs, Sophia e Iris, que se reencontram após anos distantes por diferenças políticas: enquanto Sophia faz parte de um feminismo mais liberal com ideias conservadoras, Iris pratica o ativismo comunitário, tendo visões de mundo mais progressistas. Esse encontro vem a pedido de Lux, uma imigrante que chega à casa da família acompanhada de Art, filho de Sophia, que a contratou para fingir ser Charlotte, sua ex-namorada que terminou com ele também por questões políticas (Art não se importa com questões sociais). Essas quatro personagens femininas se encontram nesses dias invernais — Charlotte aparece retratada nas memórias de Art — e criam diálogos sobre guerra, política, gênero e arte. Em suma, sobre como é estar viva no mundo contemporâneo.

Contextualizando o período histórico do romance, em 2016 ocorreu o Brexit, momento no qual foi decidida a saída do Reino Unido da União Europeia por meio de um plebiscito, e, por conta disso, diversos imigrantes tiveram que retornar aos seus países por não terem os vistos britânicos. Isso significa que pessoas vindas de outras nações, mas que moravam e trabalhavam há anos nos países do Reino Unido, perderam todo seu esforço para conquistar uma vida melhor por essa decisão. Em 2017, ano de publicação de Winter, todas as medidas que seriam tomadas ainda eram muito incertas, então havia muito medo por parte dos imigrantes em relação à saída obrigatória deles, além da forma xenofóbica com que eles eram tratados pela população nacional. Outra figura marcante do tempo narrado é Donald Trump, que na época de publicação estava no primeiro mandato como presidente dos Estados Unidos. Em seu romance, Ali Smith comenta sobre o início do mandato do presidente de extrema-direita e da ascensão do fascismo nos Estados Unidos e na Europa, vinculando essas ideias com a decisão pelo Brexit, com a aversão aos imigrantes, com o descaso com o meio ambiente, e com o crescimento da polarização da esquerda e direita na política. É possível ver, portanto, como todo o livro gira em volta de acontecimentos reais que, consequentemente, agem sobre as ações e pensamentos dos personagens.

Charlotte é uma personagem um tanto quanto sem foco, visto que, como mencionado anteriormente, ela aparece como lembranças de Art, então tudo que é escrito sobre ela é baseado nas vivências dele com ela. O que sabemos é que os dois namoraram por três anos e tiveram muitas brigas envolvendo conflitos políticos: Charlotte se incomodava com a ignorância de Art sobre temas sociais, principalmente envolvendo o blog dele que, como é sobre pássaros e natureza (o blog se chama Art na Natureza, traduzido do inglês), para ela, ele deveria abordar questões ambientais, como o desmatamento ou mudanças climáticas, mas para Art isso tiraria a neutralidade do blog, mostrando indiferença em relação ao assunto. Além disso, eles também discutem sobre o Brexit, com ele novamente demonstrando desinteresse ou falta de noção da gravidade do acontecido, mesmo sendo algo que aconteceu no país deles. Essa passividade política é apresentada por Smith na passagem: “Nós estamos bem, ele disse. Pare de se preocupar. Nós temos dinheiro suficiente, empregos estáveis. Nós estamos bem.” (Smith, 2017, p. 55, tradução própria).

Por Charlotte ter uma “vida boa”, com condições financeiras boas, ela não deveria se importar tanto com o que está acontecendo no mundo, segundo a opinião dele. Art é um homem branco, de classe média, cisgênero e heterossexual, que tem o privilégio de poder ignorar aquilo que não interfere na sua vivência. A imigração não o afeta, visto que ele é britânico e só se relaciona com pessoas da mesma nacionalidade dele. O desmatamento o afeta, já que acarreta o aquecimento global e a destruição do planeta Terra, mas a sua ignorância o cega e as consequências dessa prática criminosa não chegam até ele. O tom de deboche com que ele trata a situação enfurece Charlotte que tenta fazer com que ele entenda a dinâmica fascista que o governo atual está praticando, porém, suas tentativas são em vão.

Comparando esse ponto com a vida de Charlotte, que pode ser boa do ponto de vista econômico, privilegiando-a a viver confortavelmente financeiramente, e também por não sofrer por conta do Brexit de forma direta já que ela é britânica, podemos concluir que, mesmo assim, ela é atingida por algo que Art não é: a misoginia. Não importa o lugar em que ela esteja, o fato de ela ser mulher falará mais alto, e as opiniões dela serão “resmungos” ou tratados com sarcasmo, como é apresentado no livro. Charlotte é uma personagem que expõe sua opinião, que reconhece os problemas do mundo e tenta mudá-los de alguma maneira, mas que tem toda a sua ideologia invalidada apenas por ser mulher, o gênero que sempre foi tratado com inferioridade, como se fosse um subgênero. Mas, mesmo não fazendo parte da narrativa principal do romance, ela consegue se posicionar, não aceitando o que Art a oferece, e colocando a si mesma em primeiro lugar, terminando o relacionamento com ele.

Em paralelo a Charlotte, temos Lux, uma mulher queer imigrante sobrevivendo no Reino Unido. É possível perceber como ela é vista como o “corpo estranho” do livro, por não ser ligada à família, e também por ser imigrante. Bem no início do livro, quando Sophia conhece Lux, ainda pensando que ela é a Charlotte, ela fala: “Você não é inglesa, eu sei disso, consigo perceber pela sua voz, Sophia disse” (Smith, 2017, p. 113, tradução própria), mostrando que, mesmo quando Lux deveria estar interpretando uma britânica, o reconhecimento da sua ilegalidade e da sua diferença enquanto indivíduo já se faz presente somente na maneira como ela pronuncia as palavras, provavelmente com um sotaque diferente do inglês britânico. Como nenhum dos personagens conhecia Lux antes desse feriado, eles vão aprendendo a história dela junto com os leitores, e descobrem que ela mora escondida num quartinho do armazém onde ela trabalhava, que antes morava de favor na casa de uma amiga, que não consegue arrumar um trabalho fixo porque ninguém quer contratar uma pessoa que pode ser mandada de volta para o país de origem a qualquer momento, e que sua família saiu da Croácia fugindo da guerra. Ao contrário do que Art impõe a Charlotte, ela não tem uma “vida boa”, sua vida é atravessada diretamente pelo Brexit, e a falta de recursos e de políticas públicas que poderiam ajudar são praticamente nulas. Para se manter, Lux aceita enganar a família de Art em troca de mil libras porque não consegue ser contratada para um emprego formal por simplesmente pertencer a outro país, mostrando o desespero para sobreviver em um lugar que prometeu ser melhor do que sua casa.

Mas não somente isso, Smith também aborda em Lux outro ponto chave que muda sua vida enquanto vítima do fantasma dos direitos humanos: sua sexualidade. O fato de ela ser uma mulher lésbica a torna ainda mais invisível para a sociedade que tende a corrigir “anormalidades”, colocando a heterossexualidade como orientação sexual padrão. Lux está na casa da família para fingir ser uma mulher heterossexual, mas nem chega a tentar, afirmando ser lésbica em uma conversa com Sophia: “Eu mesma sou lésbica, Lux fala. No fundo, ela quis dizer, diz Art. No fundo também, Lux diz” (Smith, 2017, p. 207-208, tradução própria). Lux é uma personagem que desafia as normas impostas por uma sociedade que tem uma visão universal do que seria o humano, na qual ela não atinge praticamente nenhuma das expectativas dessa imagem. Por isso, sua vida é de alguém que sobrevive em meio às desavenças que o mundo coloca em sua vivência, uma vez que a norma nunca foi opção para ela.

Enfim, tratarei das irmãs do romance. Sophia é uma mulher em seus sessenta anos que mora sozinha e é visitada por alguns fantasmas, alguns que são referência à obra Um conto de Natal, de Charles Dickens, e outros metafóricos, como cabeças sem corpo, tomando formas de uma criança ou de um homem idoso. Patricia Marouvo escreve em seu ensaio sobre Winter que a cabeça é um recurso metafórico que a autora usa com um trocadilho em inglês, já que cabeça é head em inglês, e head também pode significar ser líder ou chefe de algo, por exemplo “head of class” seria líder da turma. Então, com isso em mente, entende-se que Sophia é assombrada por essas lideranças que ela teve pela vida, como por exemplo, fundar sua própria empresa. Sendo a representação de uma mulher empreendedora que construiu sua própria carreira, ideia vendida pelo feminismo liberal que busca inserir mulheres na lógica capitalista sem que haja mudanças na estrutura de exploração, e também vinculada aos Estados Unidos, que vendem esse conceito de vencer na vida pelo seu próprio mérito, focando na sua trajetória sem se importar com os demais, Sophia é colocada como o contrário de sua irmã Iris, que saiu de casa para viver o ativismo político de esquerda. Essa diferença de personalidade das duas é notável já nas primeiras páginas do livro, e o afastamento delas por esse motivo é confirmado por Art para Lux, quando questionado sobre os anos sem comunicação das duas irmãs: “Diferenças, ele diz. Visões de mundo. Incompatíveis” (Smith, 2017, p. 156, tradução própria).

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