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Uma visita a Strawberry Hill House

Este post é o relato pessoal de uma viagem.

Com este aviso inicial, pretendo afastar toda pretensão de uma análise acadêmica formal de como a poética gótica surgiu justamente a partir desse castelo gótico construído no meio de uma área residencial e moderna nos arredores de Londres. A ideia é, como mencionado, dar um relato da minha experiência ao visitar o castelo de Horace Walpole, de ouvir dos voluntários que trabalham ali as histórias mais divertidas e extravagantes, e de como isso alimentou em mim uma compreensão da poética gótica como uma grande farsa — ou “arteficção”, como defende Amy Lim em “Gothic ‘artefictions’” (2017).

Em julho deste ano, tive a oportunidade de visitar Londres em meio a uma série de ondas de calor, mas isso não me impediu de tomar um trem em Waterloo em direção a Twickenham, à sudoeste da cidade. A região é um subúrbio muito pacato (apesar do estádio nacional de rugby) margeado pelo rio Tâmisa. Como uma pesquisadora do gótico, era inevitável que meu ponto de interesse ali fosse a Strawberry Hill House & Garden, o castelo gótico da vizinhança.

Foto dos fundos da Strawberry Hill House
(Fundos da Strawberry Hill House. Foto: acervo pessoal)

 

Já comentamos em outro post[i] sobre como O Castelo de Otranto (1764), a pseudotradução de Walpole, fabricou a poética gótica, convergindo uma série de elementos e tradições que hoje são de pronto identificados como góticos. O foco aqui, portanto, é mais na figura de Horace Walpole e na persona que ele criou para si, e como isso se projeta na própria poética gótica — além de um relato de viagem, é claro.

É evidente que aquele castelo gigantesco ao estilo gótico destoa absolutamente das moradias da redondeza. A ideia de Walpole era justamente essa: chamar atenção, o que qualquer pessoa de quem o gótico transborda deseja, confirmam os guias do museu. Ele não estava sozinho, é claro, pois havia, ali em meados do século XVIII, um movimento estético que envolvia a nostalgia do passado: na Itália, por exemplo, as ruínas da antiguidade greco-romana tornaram-se objetos de admiração, e a Inglaterra, por sua vez, virou-se para suas ruínas medievais com encanto. É desse ímpeto que surge a Strawberry Hill House, que levou cerca de 30 anos para ser construída.

Nascido em 1717, Walpole era uma das personalidades mais emblemáticas do século XVIII. Para Luciana Colucci, em “Horace Walpole, Strawberry Hill e O Castelo de Otranto” (2024), sua educação em Eton College e King’s College (Cambridge) pavimentaram o caminho para suas contribuições à vida política, histórica, literária e artística inglesa. Além disso, os privilégios políticos e sociais de seu pai, sir Robert Walpole (primeiro ministro), também lhe garantiram o tempo e o dinheiro para experimentar com diversas correntes e tradições estéticas. Do interesse pelo potencial exótico da chinoiserie à atenção ao rococó gótico, o jovem Walpole ainda participou de dois grupos artísticos em Eton (Triumvirate e Quadruple Alliance), onde teve a oportunidade de não somente trocar correspondências com seus membros, mas também de desenvolver sua apuração reflexiva e artística.

Dentre eles, o poeta Thomas Gray manteve-se por perto e o acompanhou durante seu Grand Tour pela Itália e França. A ideia do Grand Tour se assemelha muito ao que hoje ainda persiste na Europa como o “gap year, quando jovens terminam o ensino fundamental e resolvem tirar um “ano sabático” antes de embarcar na universidade ou na vida profissional. Aos 22 anos, o ano sabático de Walpole durou mais de 12 meses, de 1739 a 1741 (Colucci, 2024, p. 5), e funcionou, de fato, como um rito de passagem: seja como um período em que ele pode se engajar com a liberdade de comportamentos excessivos longe do escrutínio de casa, ou como um momento de aprendizagem sobre culturas, ideias e línguas estrangeiras.

Homem das letras, historiador de arte, antiquário e político liberal, cabe destacar ainda que se acredita que Walpole tenha sido gay. Apesar de não haver fatos que comprovem essa suposição, é comum ouvir por aí que ele teve um relacionamento amoroso com Henry Pelham-Clinton (9º Earl de Lincoln) durante sua estadia na Itália, que depois casou-se com a prima Catherine Pelham; Walpole permaneceu solteiro. Mike Rendell, em The Grand Tour (2022, p. 130), explica que, dentre as suposições em relação à vida sexual de Walpole, não há sugestão de que ele já tenha consumado suas relações com mulheres, e muitos de seus contemporâneos faziam piada do seu “jeito efeminado” e de suas “manias”, especialmente do seu hábito de adentrar cômodos nas pontas dos pés, “como se fosse uma mulher de salto”.

Sobre isso, Colucci (2024, p. 6) faz uma observação muito interessante. Para a pesquisadora, Walpole escolhe com muito cuidado o seu ser e estar no mundo (preferências, estilos, gostos, peculiaridades), e, por isso, “a artificialidade, a teatralidade, a extravagância, o luxo e o maximalismo” faziam parte de sua persona. Em minha visita a Strawberry Hill, esse assunto foi comentado por um dos voluntários e guias do museu. Muito simpático, ele disse que, apesar da inexistência de provas que comprovem a sexualidade de Walpole, atualmente ele é considerado um símbolo LGBTQ+, e seu castelo se tornou inclusive um espaço que recebe eventos e tours da comunidade, como o “LGBTQ+ Tour of Strawberry Hill House to Celebrate Pride Month”[ii], além de ter sido reconhecido pelo seu valor estético e político como um “ato camp em desafio ao status quo”, como defende este artigo na RIBA[iii].

É precisamente esse fio que me interessa tecer para (tentar) pensar em como Walpole não somente fabricou a poética gótica com Otranto, mas com sua própria performance. Walpole construiu, a partir de um chalé (Chopp’d Straw Hall), seu “castelo gótico medieval falsificado” (Colucci, 2024, p. 6). Falso porque emula uma arquitetura pretérita e em desuso e porque, em sua estrutura, ele utiliza materiais como gesso, papel marchê e papel de parede para imitar os formatos e desenhos que tanto admirava e pretendia recriar.

(Hall de entrada. Foto: acervo pessoal)

 

O hall de entrada suntuoso parece ser de pedra, mas é papel de parede. Do mesmo modo que seu castelo é uma réplica de um castelo gótico medieval. É por isso que, talvez, seja melhor pensar nesse tipo de método como uma forma de “arteficção”, conforme propõe Amy Lim. Para Lim (2017), o gótico setecentista é um artefato histórico reconstruído a partir de formatos e meios modernos, onde o que interessa é mais o sentimento e a atmosfera que ele pode criar do que, de fato, a sua fidelidade àquilo que imita.

Tomando o termo emprestado de Nick Groom (The Gothic, 2012), Lim expande seu entendimento para além da falsificação e chega à réplica: ao contrário de uma simples falsificação, tanto a mansão quanto o romance foram construídos como réplicas do gótico (e do romance) em um formato novo, moderno, que pudesse conectar o passado ao conforto, ao luxo e às possibilidades do século XVIII inglês. Strawberry Hill é, portanto, um castelo gótico e uma experiência medieval que o presente setecentista inglês reconheceria e aprovaria. Se a autenticidade era importante somente na medida em que contribuía para o todo cuidadosamente orquestrado (Lim, 2017, p. 172), então o efeito que causava no visitante era a prioridade com espaços, mobiliário e coleções de artes projetados justamente para esse fim. Tanto que, conforme a fama do castelo se espalhava, Walpole passou a cobrar ingressos e organizar visitas ao espaço. Além disso, seu catálogo-inventário das obras e artefatos do castelo, Horace Walpole’s Description of the Villa of Mr. Horace Walpole at Strawberry Hill, foi o primeiro documento do tipo produzido na Inglaterra (Colucci, 2024, p.11-12), evidenciando que a empreitada walpoleana era mais do que um simples capricho.

Dentre esses artefatos, destaco o fish bowl (foto abaixo), a porcelana oriental mais famosa da coleção de Walpole. Nele, morreu afogada a gata favorita de Walpole, Selima, enquanto tentava capturar o peixe-dourado que morava ali. Como esclarece o informe do museu, o motivo da fama não é o valor artístico do vaso/aquário, mas o fato de ele ter sido imortalizado na mock-elegy “Ode on Death of a Favourite Cat, Drowned in a Tub of Gold Fishes”, escrito por Thomas Gray atendendo ao pedido de Walpole em 1747:

“The hapless nymph with wonder saw:

A whisker first and then a claw,

With many an ardent wish,

She stretched in vain to reach the prize.

What female heart can gold despise?

What cat’s averse to fish?”

(Vaso de porcelana oriental onde a gata se afogou. Foto: acervo pessoal)

 

Strawberry Hill também tinha uma printing press, a Strawberry Hill Press, fundada em 1757. Muito famosa na Inglaterra, ela produziu cerca de 34 livros e panfletos, cujo primeiro livro foi Odes (1757), de Thomas Gray. Walpole usava a editora para publicar, na maior parte do tempo, seus próprios escritos e de seus amigos, incluindo livros sobre história, memórias, poesia e estudos em antiquarismo. A visão por trás do projeto era criar uma academia de artes e usá-la para testar o gosto do mercado pelos seus trabalhos, que eram enviados para editoras em Londres caso as edições da Strawberry Hill circulassem bem. Thomas Kirgate foi um dos principais editores.

(Printing press da Strawberry Hill Press. Foto: acervo pessoal)

 

Talvez o cômodo mais discrepante de todo o projeto seja o drawing room, que destoa em cores e formatos. O vermelho forte e o teto ornamentado em dourado complementam a ideia que Colucci (2024) defende quanto à tendência walpoleana à extravaganza e ao maximalismo, que se constituem também, é claro, no gótico. Uma sala feita para receber visitas e que, a pedidos de amigos, fosse um pouco mais clara e ampla, o salão abrigava também a famosa coleção de pinturas de Walpole.

(Drawing room. Foto: acervo pessoal)

 

Por ser muito tumultuada (espacial e visualmente), o salão produz ainda uma sensação de claustrofobia que, para Colucci (2024, p. 9), é intencional e essencial para a criação do efeito gótico que Walpole almejava: Strawberry Hill “é arquitetada cenograficamente, lançando mão de estratégias dramáticas, para suscitar experiências intensas, belas e sublimes” (aqui, em diálogo com Edmund Burke e A Philosophical Enquiry into the Origin of our Ideas of the Sublime and the Beautiful, 1757), “pois da atmosfera gótica de SH emanam emoções sublimes como o medo, sentimentos de perigo, a ansiedade e a claustrofobia amalgamadas simultaneamente a sensações de prazer, de relaxamento e de inefáveis contemplações”. Ou o sentimento de “gloomth” (gloom e warmth), conforme cunhado por Walpole para descrever seu feito arquitetônico.

Por outro lado, o cômodo mais evidentemente gótico é a grande biblioteca. Considerada por muitos a primeira biblioteca em estilo neogótico construída na Grã-Bretanha, ela guarda estantes de livros e uma lareira desenhadas por John Chute com base em ilustrações de portas antigas da Catedral de São Paulo e de túmulos da Abadia de Westminster. O teto é decorado com emblemas heráldicos e brasões ligados ao passado de Walpole. Como historiador e antiquário, ele tinha interesse na história do país, mas também no seu próprio passado familiar. No entanto, dado às invenções fabulosas, esclarecem os guias, nem tudo que Walpole defendia como parte da sua família (como, por exemplo, guerreiros nobres da época das Cruzadas) pode ser considerado como verdade absoluta.

(Biblioteca de Walpole na Strawberry Hill House. Foto: acervo pessoal)

 

Isso, por um lado, desperta ainda mais meu interesse e admiração e, por outro, aguça minha compreensão de que o gótico setecentista nasce, em grande medida, de uma performance de Horace Walpole. O que está em jogo em Strawberry Hill não é simplesmente a recuperação ou a imitação de um passado medieval, mas sua encenação no presente: a busca por um tempo pretérito e pela maneira como ele reverbera no agora; a veneração desse passado, mas também sua teatralização; o jogo deliberado entre realidade e ilusão, verdade e farsa, autenticidade e artifício. Tudo isso se manifesta em uma estética exagerada, em uma construção dramática que transforma a própria arquitetura em espetáculo e faz do castelo uma espécie de cenário para a experiência gótica.

A simbiose entre castelo e romance é muito clara, e feita ainda por Walpole. Em carta ao reverendo Cole, em março de 1765, Walpole diz: “Você terá até mesmo encontrado alguns traços que lhe fizeram lembrar deste lugar [Strawberry Hill]. Quando leu sobre o quadro saindo do painel [em O Castelo de Otranto], não se recordou do retrato do Lord Falkland todo de branco em minha galeria?” (Walpole, 1765).

(Edição de 1782 de O Castelo de Otranto. Foto: acervo pessoal)

 

Talvez seja justamente aí que a arquitetura de Walpole revele algo fundamental sobre a poética gótica. Se o gótico, enquanto arte do artifício e da ficção, não depende de reproduzir a coisa em si, mas de produzir a atmosfera, a sensação, o efeito da presença de algo que potencialmente não está ali, então o castelo e o romance de Walpole operam segundo a mesma lógica. Ambos são, em certo sentido, réplicas que não pretendem simplesmente passar por originais. São construções conscientemente artificiais que brincam com a possibilidade de fazer o passado parecer presente, colocando-se intencionalmente entre o medieval e o moderno, o bárbaro e o civilizado. Isso cria, em última análise, um espaço de indeterminação no qual já não sabemos o que estamos vendo: ruína ou invenção? Memória ou fantasia? Documento ou farsa?

É a performance de Walpole que atrai atenção para o castelo, do mesmo jeito que a performance medieval, sobrenatural e misteriosa de Otranto prende o interesse de um público leitor de um período que, supostamente, estava iluminado pela racionalidade. Observados em conjunto, castelo e romance levam visitante e leitor a um espaço em que as fronteiras não são tão bem demarcadas assim, e onde a incerteza reina. Há aí algo de lúdico, mas também de perverso, que nos retira do conforto, já que somos convidados a brincar com a farsa somente para descobrir que talvez não estejamos tão seguros de onde ela termina e onde começa a realidade. Como canta Thomas Gray no poema dedicado à gata afogada: “Not all that glisters gold”.

Depois da morte de Walpole, em 1797, a casa foi herdada pela família Waldegrave, que administrou a residência até 1883, quando foi comprada pelo Barão de Stern; a casa foi finalmente vendida para o St. Mary’s College, hoje universidade, com quem compartilha parte do terreno da propriedade. Como acontece com muitos artistas e escritores, grande parte da coleção de Walpole foi leiloada na Grande Venda de 1842, e é parte do trabalho da The Strawberry Hill Trust, formada em 2002, restaurar e recuperar esses artefatos para exposição.

Compartilho ainda uma imagem do Green Closet, o escritório de Walpole, onde, acredita-se, O Castelo de Otranto foi escrito. As paredes são cobertas com uma réplica de um fragmento do papel de parede encontrado durante a restauração, composta por uma cadeira do século XVIII e uma lareira nova, tendo em vista que no século XX esse cômodo foi transformado em um banheiro, que foi infestado por fungos, demolido e reconstruído durante a restauração da Casa.

(Green Closet de Walpole. Foto: acervo pessoal)

 

Entre a própria réplica que Strawberry Hill é por concepção, a residência atual dobra essa aposta: a mesa no escritório de Walpole não é de Walpole, o papel de parede não é o original, uma das molduras na sala de estar foi produzida por uma impressora 3D, e as pinturas são impressões digitais, já que grande parte da coleção original se encontra hoje na Lewis Walpole Library, da Universidade de Yale, nos Estados Unidos. Longe de comprometer a experiência, essas substituições parecem reafirmar um dos princípios da própria tradição e estética gótica inaugurada por Walpole. Afinal, Strawberry Hill nunca pretendeu ser um castelo medieval autêntico, mas uma imaginação do medieval. Nesse sentido, não deixa de ser apropriado que a casa do criador do gótico sobreviva como uma composição de réplicas, reproduções e reconstruções, pois o artifício nunca foi um desvio em relação ao gótico, mas uma de suas condições de possibilidade.

Deixo aqui um agradecimento especial aos funcionários (muitos deles voluntários) da Strawberry Hill House & Garden pela interminável gentileza e pelo esforço em manter aquele espaço funcionando. Saiba mais sobre o projeto em:  https://www.strawberryhillhouse.org.uk/

 

Referências

COLUCCI, Luciana. Horace Walpole, Strawberry Hill e o Castelo de Otranto. Ilha do Desterro, v. 77, p. 001-020, Florianópolis, 2024. Disponível em: https://periodicos.ufsc.br/index.php/desterro/article/view/105258/59113 Acesso em: 04 ago. 2026.

GRAY, Thomas. Ode on the Death of a Favourite Cat, Drowned in a Tub of Gold Fishes. 1747. Disponível em: https://www.thomasgray.org/texts/poems/odfc Acesso: 04 ago. 2026.

GROOM, Nick. The Gothic: A Very Short Introduction. Oxford: OUP, 2012.

LIM, Amy. Gothic ‘artefictions’: fabricating history in Horace Walpole’s Strawberry Hill and The Castle of Otranto. Vides, v. 5, 2017, p. 166-177.

RENDELL, Mike. The Grand Tour. Great Britain: Shire, 2022.

WALPOLE, Horace. Carta ao reverendo Cole [1765]. In: LEWIS, W.S. et al (org.). The Yale edition of Horace Walpole’s Correspondence. New Haven: Yale UP, 1937-1983. Disponível em: https://libsvcs-1.its.yale.edu/hwcorrespondence/. Acesso em: 04 ago. 2026.

 

 

[i] https://literaturainglesa.com.br/horace-walpole-e-a-pseudotraducao-de-o-castelo-de-otranto/

 

[ii] https://www.visitrichmond.co.uk/events/lgbtq-tour-of-strawberry-hill-house-to-celebrate-pride-month-p2364371

 

[iii] https://www.riba.org/explore/riba-collections/inside-our-collections/revisiting-the-collections-strawberry-hill-house/

 

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