Long ago I became the most cruel punishment, most hated by men, until I made open the right way of life to language-bearers.
Estendendo-se para além do clássico Beowulf, a poesia de inglês antigo é conhecida por explorar diferentes caminhos dentro de seu período entre os séculos VI e XI. O inglês antigo foi a primeira forma de inglês na história da língua, iniciado pela chegada dos Anglo-saxões na Grã-Bretanha e encerrado na sua transformação no inglês medieval com a conquista Normanda. Sua literatura, dessa forma, parte de um momento da história inglesa em que os Anglo-saxões não escreviam originalmente e que todos os manuscritos literários sobreviventes foram produzidos por monges cristãos. A dinâmica dessa sociedade, montada por esses primeiros ingleses pagãos, convertidos para o cristianismo, pode ser vista em diferentes poemas e especialmente em The Dream of The Rood.
O poema foi parcialmente inscrito na Cruz de Rothwell na Escócia por volta do século VIII e encontrado no Livro de Vercelii, manuscrito Anglo-saxônico do século X que historiadores acreditam ter acabado numa catedral italiana por conta de peregrinações religiosas. Guardado junto de outros textos igualmente religiosos, ele é considerado um dos poemas cristãos mais importantes do inglês antigo, sendo cantado pela própria cruz na qual Jesus é torturado. O eu-lírico descreve um sonho pelo qual a cruz, ou “árvore”, fala com ele e o narra a sangrenta crucificação de seu senhor.
O tom elegíaco e o cenário de crueldade também são vistos em outras obras de inglês antigo, como o próprio Beowulf e The Wanderer, Wife’s Lament, ao mesmo tempo em que compartilha o mesmo tema onírico que Caedmon’s Hymn. Embora esses três primeiros poemas estejam centrados nas próprias estruturas sociais originalmente pagãs, eles ainda compartilham imagens cristãs com The Dream of The Rood e Caedmon’s Hymn, que é escrita de Bede para contar de Caedmon, o poeta anglo-saxão mais antigo a ser registrado. Enquanto neste, Caedmon ganha o poder de cantar a língua de seu povo ao ouvir a voz de Deus em seu sonho, os personagens centrais das outras narrativas também são acompanhados, em um nível menor, pela voz de Cristo, que imbuí as suas violentas vidas terrestres de sentido – aumentando ou diminuindo a sua tragédia.
No entanto, as duas culturas que assolam juntamente essas três narrativas não se atracam ou mudam uma a outra como ocorre no sonho da cruz. Diferente delas, o poema não abrange vividamente a sociedade do eu-lírico, o homem que sonha, além da promessa que ele faz a si mesmo no fim do texto, “Now I live in hope, / venturing after that victory-tree, / alone more often than all other men, / to worship it well”. Em verdade, a sociedade violenta da história é a de Cristo e da árvore usada para crucificá-lo, sendo uma tortura dos dois.
Nesse sentido, Cristo, como descrito pela cruz, apresenta-se de maneira especial, subindo nela “forte e corajoso” diante de “seus inimigos” e “abraçado” por ela para que ela “erguesse o rei todo poderoso”. No entanto, apesar de prontamente cumprir sua missão na redenção da humanidade, a cruz ainda o assiste sofrer uma triste morte dolorosa e sangrenta. Sangrando por ela toda, ele é retirado morto por seus aliados, que cantam uma “lai” de tristezas, assim como cantam em Beowulf e outros poemas.
A voz da cruz, dessa maneira, é muito marcante por representar não somente Cristo mas a violência que o acomete, que é referida desde o começo da fala da cruz, “I was cut down at the edge of the forest / torn up from my trunk. There powerful enemies took me, / put me up to make a circus-play to lift up and parade their criminals.” Narrando o desmatamento de sua árvore e transformação em instrumento de tortura e sue adornamento em jóias, a voz esclaresce o ato cruel como um renascimento dos dois em um símbolo de adoração. Nesse sentido, a cruz é mais do que dada o dom da fala no poema, como ela mesmo tem a escolha de cair sobre os guardas que torturam cristo, que ela recusa, não sendo um objeto inanimado mas uma heroína fiel a seu senhor, assim como o eu-lírico em Wife’s Lament.

Por causa da personificação heróica de tanto Cristo quanto a cruz, juntamente à descrição da cruz como uma árvore e a voz e importância dadas a essa árvore, The Dream of The Rood é considerada uma das obras anglo-saxãs que mais representam o casamento cultural do paganismo com o cristianismo. O animismo colocado nesse membro da natureza que, como árvore, facilmente reflete a Árvore da Vida da mitologia nórdica, realizando uma equivalência entre Deus e ela, é também um feito que guarda o paganismo original dos anglo-saxões. A maneira que isso é usado no poema eleva a imagem de Cristo crucificado, que sofre e é perseguido e morto como homem, mas que é quase que “coroado” por morrer, sacralizado. A árvore, feita cruz, narra o mesmo ocorrendo a ela, descrevendo tanto sangue derramando-se por ela quanto jóias a cobrindo. O fim chega para os dois heróis com o mesmo sentimento do verso final de The Wanderer, com ambos conseguindo “help from our Father in heaven where a fortress stands for us all”.
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É graduando em Letras - Inglês/Literaturas na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e bolsista do projeto de extensão Literatura Inglesa Brasil, sob orientação da Profa. Dra. Marcela Santos Brigida.
