Virgin (2025), quarto álbum de estúdio de Lorde, foi lançado no mês passado após muita espera. Descrito como o “renascimento” de sua autora, o disco repercutiu substancialmente ao colocar em questão a construção da subjetividade de Lorde ao mesmo tempo que a realidade socialmente construída. Enganchado pela chamada “segunda puberdade”, causada pela interrupção do longo uso de anticoncepcionais da autora, Virgin, cuja capa é uma radiografia dos quadris de alguém usando um DIU, mostra um eu lírico que revê tudo que veio antes ao mesmo passo em que se abre para o que virá. O que se tem é o avivamento e dessecagem daquilo que foi impregnado e concebido no sujeito lírico de Lorde.
A palavra “virgem” dá nome ao álbum em múltiplos aspectos. Pode-se realizar a divisão morfológica da palavra com “vir” significando “homem” como em viril e “gin” significando “mulher”. Nessa mesma linha de pensamento, em seu post no instagram, Lorde comenta,
“The word virgin, some say, was derived from a Greek word that meant not attached to a man, a woman who was “one-in-herself:* Goddesses were called “virgins” not because they were inexperienced but because they were strong and independent.”
Aplicando o sentido atual da palavra, se percebe que é por causa da inexperiência sexual que deusas virgens eram fortes e independentes: elas já estavam completas, sem ser invadidas e dominadas ao “perder a virgindade”. Através desse mesmo sentido, a palavra é também fortemente associada à palavra grega “parthenos”, que deu origem a “partenogêneses”, isto é, autofertilização.
Nesse sentido, “Hammer”, a faixa de entrada, apresenta um significado parecido, em diferentes maneiras exploradas ao longo de Virgin. Cantado no terceiro verso, “When you’re holding a hammer, everything looks like a nail”, o “martelo” não representa somente essa descoberta de virilidade que é tanto simbólica quanto literal (como exposto no verso “Some days, I’m a woman, some days, I’m a man” e mais ainda na terceira faixa “Man of the Year”), mas também se encaixa com o título da última faixa do disco, “David”. Assim como Michelangelo descreveu a criação de sua famosa escultura, Lorde compôs o seu renascimento, “eu peguei o martelo e tirei do mármore tudo que não era Davi”. O que que não era Lorde, então?
Apresentadas primeiramente nessa faixa inicial, diferentes respostas e digressões à essa pergunta são navegadas ao longo do álbum. O gancho das muitas referências ao sistema reprodutivo, em especial o ginecológico, pode refletir um tema central do contexto compulsório e repressor das relações de gênero, como manifesta o eu lírico no final de “Clearblue”, “I wish I’d kept the Clearblue / I’d remember how it feels to be”. Se na maior parte da música são narradas relações sexuais, pode-se conceber que o contexto do sexo heterossexual “embaça” a transparência de uma auto-concepção.
O álbum, no entanto, não exclui a sexualidade – especificamente, a heterossexualidade – do eu lírico ou a condena, mas levanta um questionamento importante sobre ela e a sua relação com a construção do sujeito designado feminino. Essa finalidade se impregna nas constantes referências à mãe, como em “Favorite Daughter”, em “Current Affairs” onde o eu lírico, assustado, chama pela mãe por causa de um relacionamento afetivo, e também na própria “Clearblue”, onde canta o eu lírico que “there’s broken blood in me, it passed through my mother from her mother down to me”. A ideia de trama intergeracional que foi atribuída a essa letra não descreve tão somente um caso familiar específico quanto descreve a condição generalizada de existir como mulher na sociedade. Rachel Cusk, que Lorde diz ter se inspirado ao escrever o Virgin, comentou em uma entrevista do Globo um pensamento parecido sobre a condição de ser uma artista mulher em um mundo onde toda forma prestigiada de arte é construída por homens.
“É quase uma tristeza feminina: temos orgulho das mudanças para as quais contribuímos, mas sabemos que elas só vão beneficiar aquelas que vierem depois de nós. É como se fôssemos usadas pela História”.
Por essa corrente, segue o sentido de “Favorite Daughter” que, como refletido ao longo do disco, descreve o enfrentamento e conciliação do eu lírico com o “mármore” que o pré-determina. Ele pergunta à mãe, “Why’d you have to dream so big? / Why did no one listen when you hit the notes from your heart?”, não a culpando pela pressão de ter que “carregar o peso de seu coração”, mas descrevendo a injustiça que marcou a mãe e entendendo os diferentes desdobramentos dela em si. Sob a mesma perspectiva, o eu lírico desesperado de “Current Affairs” pede o conselho da mãe, “Mama, I’m so scared / Were you ever like this / Once you went out on the edge?”, sabendo que ela pode ter vivido o mesmo.
Reapropriando a referência ao Davi de Michelangelo, o “extremo” ao que o eu lírico foi e ultrapassou, como mencionado mais de uma vez ao longo do álbum, pode também ser entendido como o último ponto em que a forma, o corpo, pode se forçar antes de se quebrar finalmente. Nesse aspecto, “Current Affairs” pinta uma imagem aterrorizada disso como uma violação do eu lírico, que, mesmo antes sendo uma transformação vinculada ao seu bel-prazer como descrito em “Shapeshifter”, acabou o forçando ao perigo.
Lorde descreve o paradigma da experiência sexual que habita todo o Virgin: embora exista liberdade e prazer em descobrir-se na “própria natureza” dessa forma, também se tem um terror existencial ao descobrir-se preso em um lugar tão subordinado e dependente no mundo. Ainda que esses não sejam os únicos sentimentos do eu lírico sobre relações sexuais com homens e que ele ainda espresse um pertencimento e amor profundos, é por essa mesma razão que o assombramento e dor dessas relações são tão fortes para o eu lírico. Desse modo, os versos em What Was That, “I didn’t know then, but you’d never be enough / Since l was seventeen, I gave you everything”, que expressam tanto adoração quanto submissão, podem ser entendidos.
Dessa forma, o disco expõe um relato bastante sofrido do eu lírico, mas apenas com a intenção de rever o que foi vivido sob uma nova lente para que seja possível abrir novas maneiras de ser. Outro forte conceito que permeia as canções é os céus, que já estão imbuídos na referência a Davi, o anjo e consequentemente com a ideia central de existir de acordo com a própria forma. Ao mesmo tempo que o eu lírico fez o seu relacionamento de Deus porque “era tudo que ele sabia fazer” em “David”, ele pôde també enxergar essa dor como o que o canonizou de forma que ele podesse “watch it happen, like an angel looking down” em “If She Could See Me Now”. Isso é uma grande mudança de concepção do mundo ao redor e de si mesmo, que resume o questionamento de que, socando o espelho, o eu lírico pode acanar só conseguindo vidro quebrado ao invés de meses de má sorte em “Broken Glass”.
Ultimamente, “Virgin” expressa um questionamento íntimo e doloroso da construção social da subjetividade designada feminina e dos seus desdobramentos interpessoais. Com essas indagações, o álbum confessa tanto excitação para novas maneiras de ser e de se relacionar quanto uma angústia e luto abismais sobre a insegurança de poder ser amado como uma vez foi. Essa intimação é muito importante não somente para uma auto-concepção esclarescida, mas também para poder viver, apesar da dor.
