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Resenha: O mundo misantropo de Dogville (2003)

Com uma retratação um tanto atípica de uma vilarejo pacata no interior montanhoso dos Estados Unidos, Dogville (2003) é um longa-metragem do renomado (e polêmico) diretor dinamarquês Lars Von Trier que explora a natureza humana de forma pungente. A trama se desenvolve à partir de uma lógica teatral peculiar: a história é dividida em diversos atos e, para além da atuação de seus personagens, também é contada por um narrador sarcástico e didático, que conta a história e questiona suas reverberações. Além disso, têm-se uma divisão quase fingida do espaço: o vilarejo é demarcado através de inserções no chão, que delimitam as áreas comuns, os estabelecimentos e as moradias do local, o que tem um efeito interessante na retratação da esfera decadente da cidade e de seus moradores. Essas escolhas cinematográficas excêntricas, a baixa luminosidade e um jogo de câmera mais “amador” evocam alguns dos “votos de castidade” dos filmes do Dogma 95, em uma produção simples que gera um gatilho de atenção imediato para o que a ambiciosa história tem a contar.

 

O espaço que dá forma ao filme

 

É nesse cenário, ambientado na Grande Depressão dos anos 1930, que somos apresentados ao jovem Thomas Edison Jr. e sua insatisfação com o funcionamento daquele lugar: aspirante a escritor e filósofo, Tom organiza reuniões para discutir com os habitantes como poderiam melhorar enquanto pessoas e se dedicar a fazer o bem. É nesse momento em que Grace chega nas proximidades de Dogville, em fuga e extremamente assustada com a possibilidade de voltar a sua vida antiga (que se mantém misteriosa) novamente. A jovem é recebida por Tom, que insiste que a comunidade a receberia muito bem se percebessem, após a suspeita inicial, que ela seria uma companhia agradável. Após a reunião em que decidem por tentar ajudá-la, sempre guiadas pela figura protetora e moralmente aceitável de Tom, Grace começa a perambular pela cidade de modo a provar o seu valor – como se o fato de ser uma mulher extremamente jovem que carecia daquela ajuda não fosse suficiente para compelir aqueles corações. 

Nesse momento, a comunidade de Dogville sempre recusa as ajudas oferecidas por Grace, que só começa a penetrar o escudo social da cidade ao ajudar com “coisas que não são necessárias mas que precisam ser feitas”, dedicando uma hora de seu dia para cada morador. Apesar dessa configuração já parecer exaustiva, o espectador é levado pela narrativa a crer que aquele lugar realmente representará um acalento para Grace, apesar dos muitos atos ainda por vir prenunciarem o conflito, eventualmente reconhecido como irremediável. Aos poucos, percebe-se que a presença de Grace incomoda, aquelas pessoas, ainda que ela não faça nada de ruim para eles: Grace foca em cumprir seu trabalho e, com a pequena remuneração ganhada, compra bonequinhos de porcelana – um símbolo da nova perspectiva de vida que encontrou na cidade de pessoas tão  simples. Essa relação é fragilizada pelas micro e macroviolências à ela dirigidas, aumentadas por um estado de paranoia e vigília incitado pelas autoridades locais através de cartazes na cidade incitando crimes falsos de sua autoria. Apesar de reconhecidos como falsos, Grace, então, foi levada a trabalhar em horários cada vez mais exaustivos para que os moradores continuassem acreditando na sua devoção à ideia de permanecer em Dogville – e essas agressões se manifestavam em suas horas de trabalho e em momentos que significassem uma ameaça mais palpável da entrega de Grace às autoridades. 

 

O nome da cidade, nessa altura, se faz muito bem explicado por Von Trier: Grace é colocada em situações cada vez mais agudas, sofrendo com os mais diversos ataques psicológicos e físicos. Nesse contexto, as escolhas teatrais e a composição de espaço amplificam o desconforto e a sensação de inércia frente à falta de humanidade da cidadela, já que aquelas paredes invisíveis amplificam a cumplicidade e a normalidade com que os cidadãos de Dogville levam aquelas degradações, ainda que em seu piores graus. A situação foge ainda mais do controle quando Tom oferece pouca ou nenhuma ajuda para que ela saísse daquele meio, mesmo que aquilo tenha sido imposto por pessoas que eram consideradas de alguma confiança. Apesar disso, é nele que Grace deposita esperanças de ser amparada guiada com segurança para além dos limites da bondade farsante do vilarejo. 

O público é guiado a se desiludir das esperanças juntamente à Grace, entendendo que Tom não é capaz de promover alguma mudança (e nem quer verdadeiramente tomar um papel ativo contra a situação). Assim como os membros da cidade, e de forma ainda mais cínica, o personagem joga a culpa de suas ações individuais em fatores externos para se isentar de quaisquer responsabilidades com a mulher ou com o próprio exercício de compaixão e humanidade. O discurso empático do filósofo, que parece tão potente e jovialmente esperançoso no início do filme, se prova incapaz de vencer as limitações verbais e ser efetivamente aplicado, e ele age em benefício próprio ao relegar alguém de quem dizia gostar à condições subumanas.  Fechar os olhos para o sofrimento de Grace significa, em última instância, fechar os olhos para qualquer reconhecimento do próprio desvio de conduta.  

 

Um momento muito simbólico do filme é quando, ao se enfurecer com os abusos do marido e culpabilizar Grace por eles, uma mulher invade a pequena casa da jovem e quebra as porcelanas que comprou na lojinha esquecida da cidade. De objeto em objeto, qualquer laço formado por Grace ou o menor resquício de esperança de recomeço que ela ainda tivesse é destroçado. Qualquer relação positiva com aquele lugar é simbólica e fisicamente dizimada mas, ainda no fim do filme, mesmo ao ser acorrentada e rebaixada a uma condição bestial, Grace parece relutar em ver Dogville como um caso de  perdição completa. É apenas nos últimos momentos que a lua que promovia alguma compaixão para com aquele lugar deixa de emitir sua luz misericordiosa, e tem-se alguma libertação da materialidade da cidade, através de uma aniquilação total de Dogville. 

 

Os limites entre real e simbólico se anuviam em Dogville, pode-se ler as linhas que compõem a cidade como limites físicos e morais a serem constantemente transpassados, mas também pode-se imaginar paredes concretas e demais composições em seus lugares. A ambição teatral dá à peça/filme sentidos mutáveis, e também há diferentes hipóteses em relação à punitiva carnificina final e a sua significação, que gera sentimentos mistos de alívio e horror e deixa o espectador confuso com a própria natureza de sua opinião final e contemplativo com a própria recepção e reação às altas cargas de violência a que é submetido.

Dogville é um experimento interessante com a noção de misantropia e os limites da compaixão e da corrupção humana. Como traçar e entender limites ou raízes de comportamentos desviantes em Dogville quando todos parecem ser ultimamente contaminados pela apatia, ao ponto do convívio social ser apenas uma ilusão distante? Mesmo Grace, representação mais pura da compaixão, é levada a se desprender completamente de seus valores e tomar uma postura irreversível sobre tudo o que foi submetida. Afinal, como manter a própria humanidade em meio a uma realidade em que a violência é praxe? 

Publicado por

É graduanda em Letras - Inglês e literaturas na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e bolsista do projeto de extensão Literatura Inglesa Brasil, sob orientação da Profa. Dra. Marcela Santos Brigida.

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