Literatura Inglesa Brasil

Resenha: O Frankenstein de Guillermo del Toro

A imagem apresenta uma cena entre a criatura de Frankenstein e Elizabeth no subsolo do castelo

“I am obscene to you, but to myself I simply am”

 

O Frankenstein de Guillermo del Toro foi certamente uma das produções mais aguardadas do ano, a considerar o trabalho tão delicado e tocante criado pelo diretor até então — e a escolha de trabalhar com um romance cuja exploração da natureza humana é tão avassaladora pareceu casar perfeitamente com a sentimentalidade do diretor e o trabalho que este vem realizando com a temática da monstruosidade. Muita curiosidade foi criada, também, com a escalação dos atores para os papéis principais, revelada ao público com bastante antecedência: o filme conta com Jacob Elordi e Oscar Isaac para dar vida, respectivamente, à criatura e ao seu criador, seguidos de Mia Goth, que incorpora duas personagens centrais no desenvolvimento da narrativa. Del Toro realizou um trabalho detalhado e árduo no desenvolvimento do filme, palpável em todas as cenas, que dão um realismo assustador à formação da criatura, que aos poucos revela o trabalho protético minucioso que possibilita que Elordi se torne a colcha viva de retalhos humanos de Victor Frankenstein. No entanto, é possível perceber alguns pontos de falha na nova adaptação que minimizam boa parte da força de Frankenstein (1818), apesar dos momentos de dissonância com o material original não serem um problema para a obra per se, que traz inovações interessantes.

O formato epistolar do livro traz a figura de um capitão que relata como conheceu um cientista perseguido e fragilizado quando sua embarcação ficou perigosamente presa em meio ao gelo. A partir desse contato do homem com o Dr. Frankenstein conhece-se tanto o criador, uma encarnação a figura de prometeu, quanto a sua criação . É dessa fonte que bebe Del Toro, que inicia o filme colocando o navio e sua missão fracassada não apenas como o ponto de encontro entre o capitão e os protagonistas, mas como uma clara demonstração de força sobrehumana, antes mesmo que se conheça o que a originou: as águas congeladas do caminho à São Petersburgo são um local para mostrar o mais forte desejo por vingança de uma figura enorme e completamente coberta a clamar para que aquele mesmo homem fragilizado, de nome Victor, pagasse por seus atos ainda inexplicados. Quando a figura amedrontadora sede e Victor é levado pelo inabalável capitão para um local de descanso, é que se tem contato com a história do cientista, que em nenhum momento se diz ser ou é reconhecido como alguém agradável.

É mostrado um passado grandioso no continente que, apesar de parecer um pouco exagerado em alguns momentos, explica a fixação de Victor pelas ciências naturais e a raiva indomável que o toma quando sua mãe (estrelada por Mia Goth) não consegue ser curada de uma repentina doença terrível e falece, ainda que seu pai seja um renomado médico. Quando a figura materna — antes simbolicamente vestida em véus vermelho vivos que a centralizam como o único ponto de segurança do jovem no mundo e como alguém notoriamente marcante em sua formação e memória — é posta em um caixão, o mundo de Victor acaba e, ressentido e frustrado, foca em tornar-se um médico melhor e mais eficiente que o seu pai. Esse fulgor pelo exercício da medicina não visa salvar vidas já existentes, mas vingar a morte de sua mãe através do desafio à ordem natural do ciclo da vida, que é representado pela tão marcante pela criatura. Com essa mudança de foco e a subsequente partida da casa agourenta, o personagem passa a fazer morada na própria obsessão edípica — e o filme parece girar em torno desta e do cientista por grande parte de sua extensão. 

Uma divergência simbólica entre obra e adaptação é que o processo de criação toma, na adaptação, uma proporção e detalhamento maior e prolongado: tem-se o acompanhamento da criação desde o primeiro protótipo — que é apresentado em uma convenção de medicina e automaticamente apontado como abominável, um ultraje à Criação  — até o momento em que Victor recebe suporte para a continuação do projeto. Essa inserção quebra com a ideia de um cientista enlouquecido que trabalha sozinho e insere questões orçamentárias de um mundo capitalista, já que o personagem precisa trabalhar com o tio da noiva de seu irmão mais novo, Elizabeth, para conseguir completar a criatura. Para além disso, tem-se a exibição tanto dos aparatos tecnológicos criados e utilizados por ele quanto da dissecação, dos estudos anatômicos e do processo de escolha de corpos para eventualmente compor a criatura, o que dá ao filme um toque de body horror, com um realismo surpreendente. A experiência é contraposta a um lado menos gélido de Victor, que se vê apaixonado por Elizabeth e um pouco distraído de sua função pela mulher, que é curiosamente interpretada também por Mia Goth, mas esse interesse não o torna em nenhuma medida mais humano que o monstro que virá a criar.

A criação de Victor coloca toda a pouca interação humana que o personagem possui nessa versão à prova, mas um ponto interessante é que, inicialmente, pode ser visto algum encanto com a criatura, contraposto ao mais puro horror que logo tormenta o cientista da obra literária e o faz fugir. Victor ensina a ele o seu nome e a apreciar a sensação do calor e luz do sol e demonstra algum mínimo afeto que não vem, no entanto, da criação de um laço similar ao da paternidade, mas da satisfação de uma conquista pessoal. A irresponsabilidade em ignorar as consequência de criar uma vida apenas para satisfação do ego é o que o faz privar a criatura da própria vida, pra ele irreconhecível: ele a tranca no subsolo, maltratando-a e considerando-a um fracasso ao achá-la incapaz de aprender qualquer coisa além do nome “Victor”, mesmo que ele mesmo tenha sido incapaz de atribuir a ela qualquer nome e, portanto, existência. É com Elizabeth que o novo homem aprende alguma possibilidade de carinho, um tratamento além das frustrações que sofre tanto na casa quanto em seu eventual escape para as florestas.

Há uma maior similaridade com a obra de Mary Shelley na versão da criatura, que é contada por ela mesma tanto para o capitão quanto para o moribundo Victor Frankenstein, mas, para além da cena da floresta, em que ele parece perceber-se mais em sintonia com os animais do que com os humanos, ela parece pobre em sentimentalidade. A cena tão central para a história, em que ele conhece o cuidado e a companhia livre de julgamentos apenas ao conviver com um senhor cego é retratada de modo superficial, de modo a parecer apenas um pretexto para a sequência de turbulências intermináveis: na convivência com o homem já debilitado, o acesso à interioridade do personagem é transmitido de forma fraca e a própria representação do laço dos dois deixa a desejar — apesar da cena conter uma retomada singela, mas significativa à Paradise Lost, que serve de grande paradigma para a obra e ao sentimento tão constante de abandono a ser retratada. As cenas em que a criatura parece tomar mais potência de expressão são as de raiva, o que acaba trazendo Victor de volta para o centro do enredo. 

A cena do casamento do irmão de Victor com a melancólica Elizabeth, em que há um confronto impactante da criatura com o criador, parece ser um ponto mais crucial na demonstração da tristeza verbalizada e da subjetividade, do reconhecimento de si enquanto alguém e, sobretudo, alguém merecedor de dignidade, do que a tão emblemática cena descrita anteriormente. O casamento também gera um ponto de reconexão com a própria Elizabeth, que dá à personagem uma dimensão psicológica mais nítida no enredo cinematográfico, ainda que sua participação seja reduzida; além disso, a curta e simbólica relação Elizabeth-Criatura traz um novo ângulo de sentimentalismo para o segundo ato do filme que pode ser visto de diferentes formas.

Com o desenrolar desse trecho, somado ao passado de Victor, os dois personagens da versão de Del Toro parecem incorporar de modo conjunto uma trama de fixação com a figura feminina/materna e ódio ao pai, que se atenua com o final do filme e a reconciliação entre Victor Frankenstein e a criatura — que aceita o fardo da imortalidade enquanto encara o perecer de seu criador. Ainda que diferente do esperado, esta nova versão cinematográfica e seus pontos fortes e fracos trazem uma leitura interessante da história de Mary Shelley: ainda que a totalidade da obra literária em sua contemplação do caráter humano (e, em grande parte, da sua ausência) seja difícil de ser ultimamente transposta, a obra teve um trabalho de cenografia e caracterização primoroso. As mudanças nos laços familiares de Victor dentro do filme funciona de forma interessante, com uma ruptura igualmente agressiva movida pelo egocentrismo e comportamento desmedido de Victor, direta ou indiretamente. A representação da criatura, apesar de relativamente morna, não falha em demonstrar os problemas da inconsequência de seu criador nem em acusar a sua falta de humanidade, mas não abarca a sua singularização e subjetividade de forma completa.

Sair da versão mobile