Pular para o conteúdo

Rei Lear: uma introduçãoLeitura em 8 minutos

Provavelmente escrita em 1605, Rei Lear sustenta-se até hoje como uma obra muito importante para o todo dos estudos literários, e especialmente dos estudos da literatura em língua inglesa. A trama da peça é tanto consolidada culturalmente, sendo notáveis as marcas suas na atualidade, quanto ela é em si mesma composta por marcas de histórias e situações no cenário britânico e europeu. Mais importantemente, Rei Lear mostra-se uma das contemplações mais afiadas a respeito da existência humana, e a impiedade da pena de Shakespeare vira a realidade de ponta-cabeça a fim de questioná-la. Dessa forma, mesmo utilizando como parábola material que parece ser exclusivamente britânico, regencial e patriarcal, Rei Lear tem como alvo algo maior.

Do lado de fora das cortinas, a primeira apresentação reportada de Rei Lear, na corte do Rei James I, se encontrava com o que já se via no texto dramático: a unificação da Inglaterra com a Escócia, formando um único reino, o britânico. Além da própria trama da peça começar com a divisão de terras de um único reino e, de muitas maneiras, passar pela guerra deste reino contra si mesmo, é de se notar o uso constante e intencional de “britânico”, no texto dramático, para descrever o reino de Lear – como verseia Edgar, disfarçado de Pobre Tom, “Child Roland to the dark tower came. / His word was still ‘Fie, fo, and fum; / I smell the blood of a British man.’”. 

O “sangue de britânico” flui bastante no corpo da peça, tendo como referência mais antiga a História dos Reis da Grã-Bretanha (1136) por Geoffrey of Monmouth. Mesmo ela fornecendo uma versão diferente da trama, foi de onde partiram outras versões da história de Lear, como a tragicomédia anônima de 1594 True Chronicle History of the Life and Death of King Leir and his three Daughters,  o Leir mais temporalmente próximo do Lear de Shakespeare. Todas as versões da história, de 1136 a 1594, ainda expondo os problemas da divisão do reino, terminam num final feliz para o velho rei, mas não para Cordelia, que é poupada de uma morte violenta somente na tragicomédia. Não é apenas esse histórico de mortes que pode ter incitado a conversão da tragicomédia em tragédia, mas também o romance de cavalaria A Arcádia da Condessa de Pembroke (1590) de Philip Sidney, a quem Rei Lear deve o seu sub-plot, o conflito entre Gloucester e seus filhos. 

É possível dividir Rei Lear, desta forma, em seu enredo duplo: o problema hereditário de um pai com suas filhas (Lear e Goneril-Regan-Cordelia) e de um pai com seus filhos (Gloucester, e Edgar-Edmund). O décimo capítulo do livro II da Arcádia mostra um velho cego guiado por Leonatus, seu filho. O velho conta que era o Rei da Paflágonia, mas foi deposto e cegado por seu filho bastardo, Plexirtus, que o enganou para odiar e banir seu irmão, o filho legítimo. A eliminação do filho legítimo permitiu seu irmão bastardo, o “Edmond” de Arcádia, a ter o controle do reino para si, primeiramente só deixando o pai com o título de rei – como era o oferecido acordo de Lear no primeiro ato –, mas depois tirando isso dele também, e depois os olhos, e, finalmente, o jogando sozinho e cego para fora do reino. 

O romance de cavalaria não apenas informou o que acontece a Gloucester e Edgar, como desenvolveu o conflito de Lear com suas filhas. Por exemplo, na peça de Shakespeare, a história de Arcádia só ocorre com o auxílio da trama de Leir, sendo Regan e seu esposo que torturam Gloucester, perfurando os seus olhos e o cegando. A segunda filha de Lear pode ter sido “manipulada” por Edmond, mas o violento julgamento de Gloucester só se deu em razão de ele ter ajudado o pai dela, que não a afetava como tal, e sim como peso morto a se enxotar do caminho – como fez Plexirtus. A mixagem das duas histórias e a produção de dois velhos usurpados pelos filhos pode-se ver também enfatizada no amor mutual das irmãs tiranas por Edmond, expondo a similaridade do Plerxitus de Sidney com a Regan e da Goneril de Shakespeare, mulheres que ativamente buscaram “colocar o pai em seu devido lugar”.

A Arcádia da Condessa de Pembroke (re)introduz, sobretudo, o elemento da masculinidade da peça, o homem de dentro dos cavaleiros que fazem seu tipo de romance. Até certo ponto, a história de Leir é patriarcal – contemplando a sucessão de um rei  –, mas na peça de Shakespeare, a vil virilidade de Plerxitus é emprestada às filhas mais velhas de Lear. Nesse sentido, leituras psicanalíticas de Rei Lear apontam para o ato do cegamento como castração simbólica, sendo ele simultâneo com a deposição de Gloucester. Embora nem Regan ou Goneril tenham chegado a perfurar os olhos de Lear, elas ainda amputam a companhia masculina dele da corte, efetivamente o deixando em igual situação vulnerável a Gloucester. 

A tragédia de Shakespeare, desse jeito, une dois homens velhos da realeza que são violentamente traídos e vencidos por seus sucessores, mas não é somente isso que os acontece. A loucura de Lear (que não consta nas outras versões) e a cegueira de Gloucester, ambas causadas pelos seus filhos, correspondem a um solo comum entre os dois, o lugar extremo ao qual eles foram levados e de onde não podem ver as coisas como antes viam, nem fisica nem mentalmente. No entanto, esse roubo brutal da vida que ambos tinham é tão violento e debilitante na idade deles, quanto é esclarecedor. 

Theatre Now Review: On The Screen - King Lear [National Theatre Live] - On The Town
Lear enlouquecido (Sir Ian Mckellen) e Gloucester cego (Danny Webb)
Logo no primeiro ato, os céus, estrelas e sóis, e outros sinônimos, que podem se destacar como um tema recorrente no centro de Rei Lear, já são referidos pelo rei, “For by the sacred radiance of the sun, / The mysteries of Hecate and the night, / By all the operation of the orbs / From whom we do exist and cease to be” ao deserdar Cordelia, cometendo o erro pelo qual ele vai pagar ao longo da peça. Na mesma linha de raciocínio, Lear utiliza outro par sintático que vai se fazer presente ao longo da trama: a natureza, que é “quase envergonhada por reconhecer Cordelia” como sua criação. 

Resumindo todos esses nomes no único tema de “tudo que é natural”, fica claro que Lear não percebe a sua existência como inteiramente sua, mas como pertencente a algo além e isso se revela especialmente com a idade avançada. De Cordelia, Lear esperava ouvir o mesmo que todos o davam e ver Cordelia infligir essa regra, sob o pretexto de que esse amor, em troca do reino, não seria verdadeiro ou justo, foi para Lear provar que toda a relação que ambos tinham até então tinha sido falsa. A trama então parte dessa instância, refletindo a corte real como uma espécie de simulacro. 

Em contrapartida, Edmond, honrando tanto a racionalidade maquiavélica do Renascimento quanto o papel do Vício nas peças de Moralidade do medievo, inverte o conceito dos outros de “natural” e é quem manipula ao invés de ser manipulado. Ele é filho natural de Gloucester – o que é dizer que ele é ilegítimo, mas que a natureza, indiferente, o inscreve como filho de seu pai. Dessa forma, a natureza é, para ele, indiferente e imparcial, de maneira que não o confine socialmente. 

É esse universo indiferente que Lear é forçado a confrontar desde o exílio de Cordelia, fazendo provar tudo como ele conhecia como falso. A cena da terrível tempestade da qual ele é vítima é vista por ele como a resposta dos céus ao pedido de Lear por piedade, e marca o começo de seu enlouquecimento. O “Leonatus” de Shakespeare, Edgar, guia não somente o seu pai quando ele se torna fisicamente cego, mas também Lear no começo de seu “cegamento mental”. Por meio de seu disfarce de Tom o’Bedlam, um louco enlameado seminu, Edgar o puxa para o aqui e o agora, forçando Lear a fazer sentido do seu absurdo. “Is man no more than this?”, questiona Lear, que sempre achou que era algo mais.

Ao todo, a peça de Shakespeare incorpora essa indagação através da tragédia que, ferindo tanto vilões quanto heróis (senão por morte, por desolação), não permite um final feliz, somente a “imagem do horror que aconteceu”, como diz Kent. O que resta é focar-se no que “homem não é”, e, como salienta Pobre Tom, que impede o suicídio de Gloucester, “Men must endure / Their going hence even as their coming hither: / Ripeness is all”.

Publicado por

É graduando em Letras - Inglês/Literaturas na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e bolsista do projeto de extensão Literatura Inglesa Brasil, sob orientação da Profa. Dra. Marcela Santos Brigida.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *