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Percival Everett é autor do mês de novembro

Percival Everett é um autor americano de prosa e poesia cujos trabalhos frequentemente abordam temas filosóficos e questões raciais. Ele nasceu na Geórgia em 1956, mas sua família logo se mudou para a Carolina do Sul, onde seu pai passou a atuar como dentista. Apesar de muitos em sua família seguirem a carreira, Everett acabou por se desviar da tradição: apaixonado pela leitura, se formou em filosofia em 1977, com um interesse especial pela filosofia da linguagem — tendo, inclusive, feito um doutorado em escrita criativa nos anos 1980. Nesse meio tempo, escreveu diversas obras de ficção e, em 1998, começou a trabalhar como professor da Universidade do Sul da Califórnia, em que permanece até hoje após atuar em cargos importantes tanto no setor de língua quanto no de literatura e escrita criativa. Em 1999, já com dezenas de publicações, firmou uma parceria com a Graywolf Press, uma editora independente que lançou grande parte de sua obra.

O trabalho de Everett ganhou muita atenção nos últimos anos, tendo sido indicado duas vezes para o Booker Prize, com The Trees em 2022 e James em 2024. O autor tem mais de 30 obras publicadas e foi ganhador de outras diversas premiações literárias, além de ter ganhado algumas adaptações para o cinema — como a mais recente American Fiction, baseada em Erasure (2001), que foi nomeada ao Oscar. 

Descrito pelo Washington Post como o “romancista americano moderno mais aventureiro experimentalmente”, Everett teve sua primeira publicação em 1983. Ele passou a ganhar maior reconhecimento global na década de 2020, tendo Everett explorado uma ampla variedade de gêneros literários, desde Murder Mystery, thriller, e Western até realismo mágico, metaficção e mitologia grega. As suas ironia característica e astúcia literária lidam unicamente tanto com questões raciais dos Estados-Unidos, como feito com James, Erasure, entre outros, quanto com premissas de sua própria invenção, beirando ao absurdo. 

Antes do lançamento do best-seller que foi James e da adaptação filmográfica de Erasure, American Fiction (2023), vencedora do Oscar de Melhor Roteiro Adaptado, Everett era um escritor fora do mainstream, sendo mais presente em círculos acadêmicos dentro dos Estados Unidos. Suas primeiras publicações apresentam verdadeiras aventuras experimentais com humor, cultura mundial e americana, e surrealismo. Desse período composto por uma maioria de thrillers, se destaca o seu primeiro grande livro de Western God’s Country, que discursa uma sátira política do lugar comum do romance de aventura do herói branco e seu assistente negro; um número de obras de ficção científica e realismo mágico, como o peculiar Gylph, a odisséia de um protagonista mudo de 4 anos de idade, com um QI de 500, que zomba do pós-estruturalismo; e uma das suas duas releituras da mitologia grega, For Her Dark Skin, inserindo e dialogando o mito em um contexto pós-moderno.

Ainda que seja notada a destreza literária de Everett para abordar uma variedade de temas e histórias, essa multiplicidade também alcança a realidade imediata do autor, como na sátira metaficcional de 2001 Erasure, que ficou mais popular posteriormente com a adaptação para filme. O romance segue Thelonious “Monk” Ellison, um professor universitário autor de obras mais confluentes com o círculo acadêmico, que discorrem sobre mitologia grega e teoria literária. Diante do constante julgamento sobre tanto a pessoa de Monk quanto as suas obras de não serem “negros o suficiente”, ele escreve um “romance negro” como resposta satírica que se baseia fortemente na variedade Afro-Americana do inglês e que narra a vida de um jovem delinquente, se apropriando de múltiplos estereótipos raciais. Embora a obra fosse uma piada para Monk, ela é levada a sério e torna-se um best-seller instantâneo.

O seu romance mais recente similarmente apresenta uma releitura do clássico americano As Aventuras de Huckleberry Finn, partindo do ponto de vista de Jim, o escravo fugitivo que acompanha o protagonista de Mark Twain. Na direção irônica e metaficcional levada por Everett, Jim, agora James, apenas atua como o personagem simples da narrativa original, incorporando o papel negro subserviente e inferior que a sociedade americana esperava dele. Na presença de pessoas brancas, “Jim” usa a variedade Afro-americana do inglês e age como simples e ignorante, mesmo sendo mais erudito e esperto do que a maioria branca nos seus arredores, para poder não chamar atenção. Fora do campo de visão de pessoas brancas, James fala a variedade do inglês padrão, instrui a sua família para agir igual, e sabe ler e escrever. No meio de sua aventura com o menino Huck, ele tem um sonho em que ele debate com Voltaire, falando enquanto dorme, deixando seu companheiro confuso.

As diversas obras de Percival Everett refletem os dias atuais de maneira que é tão humorística quanto rigorosa, envolvendo questões de dentro e de fora da academia e trazendo uma mesclagem das duas produções de conhecimento nas páginas dos seus livros. Sua arte posa como uma força que não só instiga a pensar o contemporâneo pelas lentes do cânone e vice-e-versa, como também fascina só pelas habilidades inventivas e efetivas com as palavras.   

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