Quando Hamnet (2025) ganhou o Globo de Ouro de Melhor Filme Dramático, a diretora Chloe Zhao recitou, em seu discurso, uma fala que partiu do ator Paul Mescal, mas que ecoa o texto de Maggie O’Farrell, autora do romance e co-roteirista do filme:
“O mais importante de ser um artista é aprender a sermos vulneráveis o suficiente para permitir nós mesmos a sermos vistos como somos, não como devemos ser. É nos dar inteiramente ao mundo, mesmo a parte de nós mesmos que nos envergonha, que nos dá medo, que é imperfeita, para que as pessoas a quem nós falamos também possam aprender a ver a si mesmas, e completamente aceitar a si mesmas.”
O mesmo sentimento pode ser visto nas tentativas de descrever a literatura de O’Farrell, recorrendo a um parágrafo de seu outro romance The Marriage Portrait que explora o gosto de sua protagonista pelo lado avesso do bordado ao invés dele mesmo, pela sua “franca exibição do esforço necessário para atender à perfeição da obra terminada”. Em Hamnet (2025), no entanto, não apenas o esforço do artista é retratado, mas o vulnerável corpo humano por trás dele.
O livro publicado em 2020 explorou as interpretações possíveis quanto ao fato biográfico do nome do filho falecido do dramaturgo ser o mesmo de sua maior obra, relendo a perspectiva enlutada da relação pai-filho entre o rei e o príncipe Hamlet. Além disso, a narrativa resgata a biografia de Anne Hathaway, a real esposa de Shakespeare, e a une ao cenário do verde campo, condizente não somente com o passado histórico da Inglaterra Elizabetana, mas também com a ambientação para os desfechos das situações-problema nas suas peças (desde os mais alegres como os casamentos em Sonho de uma noite de verão aos mais mórbidos como a morte de Ofélia em Hamlet). No romance de O’farrell, isso implicou num flerte com o realismo mágico, com a personagem inspirada em Hathaway, que passa a ser chamada de Agnes por causa do dote que seu real pai fazendeiro deu, chamando-a por esse nome. Significando carneiro em latim, a personagem de Agnes incorpora, em uma herbalista “filha de uma bruxa da floresta”, a natureza em seu vigor, uma ideia de fauna e flora ainda não dominadas pelo homem.
Uma vez que a consideração inicial sobre os dois modos diferentes de ver, “como algo é” e “como algo deve ser”, passa a ser dita primeiro por Agnes sobre como Will Shakespeare a vê (invertendo a cena do livro), a adaptação para cinema encarna o orgânico, sob um âmbito tão humano e emocional, quanto ambiental. O texto cinematográfico, que faz tanto um texto e um contexto antigos como o de Hamlet e de Shakespeare aparecerem tangíveis para uma nova audiência dos cinemas, não foi sozinho em dissecar o material sensível e exposto das tensões dos personagens. Também foi a aparência rústica e natural do corpo dos atores, dos quartos, das paisagens, estradas, luzes, texturas. Mesmo os ambientes mais urbanos em Hamnet, como Londres, remontam uma aparência indigesta, como se a cidade ainda tivesse um longo caminho para ainda não lembrar o campo que um dia foi.
Nesse sentido, vale apontar os caminhos diferentes que cada obra (de Shakespeare, de O’farrell, e de Zhao) traçou, especialmente através dos limites de cada meio. Como filme, Hamnet recolhe de sua obra-fonte as tensões emocionais dos personagens, fazendo-as estourar da face e da voz dos atores. A agonia vivenciada por eles assombrou Paul Mescal, Jacob Jupi e Jessie Buckley, chegando quase a agredir esta, ao transparecer o horror, desespero e angústia das cenas de parto e de morte dos gêmeos Judith e Hamnet. Neste ponto, o papel de Emily Watson como Mary, sogra de Agnes, apresentou uma força poderosa, reiterando a mensagem de antes na preciosidade da vida em si mesma.
Nesse momento muito importante em que Mary fortalece Agnes verbalmente durante o parto, a fala do falecido Hamlet para o seu filho é recuperada, “remember me”, quando Agnes retorna introspetivamente à morte de sua própria mãe durante um parto. Por causa disso, os dois momentos em que a vida de seus filhos está nas suas mãos, o parto inseguro e a morte de Hamnet, são impulsionados por um novo pânico, um novo luto: perder a mãe, e perder a si mesma.
Desse jeito, Agnes vivencia não apenas o luto, mas também a morte, que é mais ainda enfatizada pelo filme. Mostrando a jornada de Hamnet sozinho, honrando a ordem de seu pai para ser corajoso e cuidar da família, o longa-metragem, além de pôr em discussão a culpa, a perda, os sentimentos de cada personagem deixado por Hamnet, retrata o “país desconhecido” da morte (como questionado pelo príncipe Hamlet), e a passagem de um pequeno menino para ele.
Por esse viés, os sentimentos de auto-agressão batalhados pelo personagem de Shakespeare, tanto antes quanto depois da morte do filho, são canalizados na cena final da apresentação de Hamlet, em que a platéia, assim como Agnes, sente com o príncipe dinamarquês a mesma agonia, morte, e luto. A lembrança de Hamnet nos Hamlets, o pai e filho, ambos podendo verbalizar a própria morte e a ideação dela, ecoa o que Agnes sentiu, assistindo a vida deixar tanto o corpo do filho em seus braços, quanto a da própria mãe.
No palco do Globe, assim como nas telas dos cinemas, a fala de Mescal e de Zhao, que citam O’Farrell, citando Shakespeare, se apresenta através da arte: lembre-se de onde/quem você veio, lembre-se de quem você é.
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É graduando em Letras - Inglês/Literaturas na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e bolsista do projeto de extensão Literatura Inglesa Brasil, sob orientação da Profa. Dra. Marcela Santos Brigida.
