“The meaning of one’s life in certain ways escapes us, so we have to reinvent it in our writing” Serge Doubrovisky, 1997
Publicado em 2014, Esboço de Rachel Cusk criou fervor na literatura contemporânea de língua inglesa, dando continuidade a uma tradição de reinvenção da forma do romance via autoficção (alinhando-se a nomes desde D.H Lawrence e Philip Roth, a Sylvia Plath e Sheila Heti). Esboço é investido de uma série de personagens que a narradora conhece durante a sua viagem a Atenas, deixando suas informações preencher suas páginas consigo mesmos mais do que a própria protagonista do romance. A tentativa da narradora de delinear um esboço das diferentes pessoas na narrativa enfatiza e incorpora a nuance das dimensões autoficcionais da escrita.
Esboço não tem uma protagonista convencional: é uma história construída por dez capítulos, em que cada capítulo mostra uma “conversa” da narradora com outras pessoas. Seus fatos biográficos são ditos em passagem a outros personagens, desde seu motivo para a visita a Atenas (para ministrar uma oficina de escrita criativa), que é o mais próximo possível de um enredo para o romance, a seu próprio nome, Faye, chamado somente uma vez no livro durante um telefonema. O que prevalece sobre a personagem principal é a grave interrupção da sua vida em família, que a faz acolher novas falas. Desse jeito, a protagonista convencional, assim como um estudo explícito da autora, são substituídos pelas conversas, pela escuta atenta da narradora dos diversos personagens.
Examinar o sujeito de Faye e, ao mesmo tempo, o das pessoas que ela “entrevista” reflete diretamente o sentido de Serge Doubrovsky ao cunhar o termo da “autoficção”. Ela se difere da autobiografia uma vez que esta, mesmo também envolvendo a ficcionalização de fatos reais, pretende somente retraçar a vida de alguém, e não apresentar seu sujeito. Segundo a teórica literária Margaret Worthington, o autor francês pretendeu apresentar o seu próprio Eu no sentido fragmentado e incompleto da modernidade, o analisando.
Isso reflete o entendimento de Cusk, como ela argumenta em sua entrevista do The New Yorker em 2018, de que “personagem” não existe mais, tendo em mente tanto a estrutura do romance vitoriano quanto da vida na atualidade. Segundo ela, a forma do personagem foi abafada pela maneira homogênea e dominante “de como vivemos e como falamos”, fazendo com que a experiência de uma pessoa seja lateral e em contato imediato com a de outras.
Por isso, a autoficção de Cusk necessariamente trabalha com outras pessoas que, mesmo não sendo a narradora, compartilham situações em comum, seja de lados opostos ou em condições diferentes. Com isso, é possível notar, em relação a definição da autoficção de Doubrovsky, como todos contam à sua narradora uma autobiografia, um esboço da sua vida até a sua “transformação no homem relaxado e rico sentado à mesa na sua frente aquele dia” no caso do bilionário sem nome, mas também no velho e reflexivo homem sentado ao seu lado no avião, no seu colega de trabalho autoconfiante e aprendido, dentre outros. Dessa forma, as situações comuns, como da separação, da maternidade/paternidade, de mudanças radicais de vida, correm especialmente na fala dos personagens por darem abertura para novos sujeitos nas mesmas pessoas, como ocorre com Faye.
Sendo um livro que gira em torno da prática da escrita, Esboço atualiza a forma do romance ao refletir sobre a forma contemporânea do sujeito. Observadora e contemplativa, a protagonista se assemelha ao próprio ato da escrita diante das autobiografias de outros personagens, fazendo sentido da vida deles ao mesmo tempo que da sua própria. A leitura do romance, portanto, abre um espaço necessário para rever a vida e si mesmo nos tempos atuais.
