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“O Cometa” e a ficção especulativa afropessimista de Du BoisLeitura em 6 minutos

Uma ilustração de um cometa

W. B. Du Bois foi um intelectual conhecido pela sua importância política nos Estados Unidos do fim do século XIX e no século XX, especialmente no que tange aos direitos humanos e na abordagem sociológica das vidas afro-americanas em uma sociedade abertamente racista. Sua coleção de ensaios As Almas do Povo Negro é de suma importância nos estudos da literatura afro-americana e, nesse contexto, o autor também foi essencial no período do Renascimento do Harlem. Apesar de mais conhecido por suas obras de não ficção, Du Bois escreveu textos literários, dentre eles o conto de ficção científica “O Cometa”, que foi importante na fundação de noções como o Afrofuturismo e o Afropessimismo, apesar de não ser muito complexo em quesitos formais. Publicado na coletânea Darkwater: Voices from Within the Veil (1920), o texto trabalha com as dinâmicas raciais a partir de uma suspensão da realidade que tem início com a queda de um cometa de gases tóxicos, que dizima a todos, exceto Jim, protagonista da ovra. 

Em um momento em que todos os seus superiores discutem empolgadamente à respeito do fenômeno prestes à acontecer, o homem, chamado de “O Mensageiro”, é direcionado para o subsolo para acessar cofres cujo conteúdo ainda não havia sido realocado após uma inundação. Ainda que nada de grande valor estivesse lá armazenado, Jim é alocado, enquanto homem negro, para a  desagradável tarefa de ir para o ambiente, tida como muito perigosa para “homens de maior valor”. A sua exploração, no entanto, é interrompida por um grande barulho vindo da ala superior e, ao voltar e encontrar a porta que se fechou com o estrondo, encontra o guarda morto. Esse movimento intensifica o eco de horror que iniciou ainda no subsolo em que antes apenas realizava uma ação laboral: ainda que poupado da morte pela posição de inferioridade a que é colocado, Jim não pode comemorar a sua permanência no mundo ou ao menos lamentar algum caráter trágico. Ao contrário, é imediatamente assolado pelo medo de acusações e com a possibilidade de ser visto como assassino e ladrão, ainda que sem provas concretas  — o que reflete a conjuntura política dos Estados Unidos em meio às Jim Crow laws e a desumanização, a série de acusações e linchamentos aos quais pessoas negras eram submetidas.

Ao sair do espaço de trabalho e se encaminhar para Wall Street, o homem se abisma ao perceber que está de fato, sozinho, e tenta encontrar alguém naquele mesmo mundo, mas não sem experimentar uma mudança na ordem das coisas: adentra um restaurante e pontua que no dia anterior, ou ainda algumas horas antes, ele nunca teria sido servido uma refeição — ainda que as mãos que o serviram fossem as de um morto ainda segurando o carrinho. Ao invés de pegar o metrô, pôde dirigir até o Harlem, centro de efervescência cultural e artística negra, de onde sai e eventualmente encontra, em uma área nobre, uma mulher que também teria sobrevivido — a voz assemelhando-se com a de Deus em um mundo em que o contato humano teria sido mitigado.

 Tal encontro traz novamente as tensões raciais e de classe que se desenrolavam na superfície agora desolada, ainda que de início Julia, uma mulher branca, não tivesse percebido ou dado importância à diferença de raça — o que é explicitada por um narrador que passa a se tornar onisciente, com uma diminuição crescente da figura de Jim ao longo do conto. Jim acaba passando a servir a mulher, agindo como uma espécie de salvador ou guia para alguém que parecia achar que o mundo deveria respondê-la, em um desespero contrastante com o controle de Jim em relação ao silêncio, a um mundo que não se dirigia a ele — e que nunca o havia feito ou permitido com que fosse ouvido, a não ser de modo inquisidor. 

É perceptível que em meio ao desassossego, o foco passa a estar cada vez mais centrado nas conspirações e leituras estranhas de Julia, que se apropria do espaço discursivo da obra: ela passa a lê-lo como um “alien” em questão de raça e cultura, a colocá-lo sob estereótipos vis, e seu desespero se torna maior a medida em que saem do centro rico de Nova Iorque — como se quaisquer diferenças em relação aos espaços não tivesse sido suspensa pela morte. Há um trânsito de emoções que permitem uma conversa e reconhecimento de humanidade, mas que não a impedem de enxergá-lo a partir de sua própria vontade e não na constatação da sua individualidade enquanto sujeito — ainda que argumente que suas distinções enquanto pessoas tenham sido dissolvidas com a morte.

A fabulação de Julia, no entanto, tem fim com a chegada de seu amado, que traz de volta o ciclo de acusações, associações racistas e apontamentos, não apenas de um “outro” detestável mas como também ao desejo de que ele fosse linchado apenas por ter existido ao lado de uma mulher fragilizada, que não ousou olhar em seus olhos ou assumir que qualquer interesse tinha vindo dela. Enquanto ela pode voltar a uma vida relativamente normal, não resta nada a Jim além do anonimato e de uma vida subsequente destroçada, apesar de ter sido visto antes como a única possível fonte de um futuro humano pelo olhar religioso de Julia. 

Du Bois coloca em perspectiva que a supremacia branca — alimentada pelo valor profético deste discurso religioso que permeia o conto para além de uma possibilidade de novos Adão e Eva — só poderia ser apagada ou amenizada através de uma reconstrução de proporções apocalípticas, nas quais a subjugação à posição de alteridade se alicerça novamente com a figura do retorno imperativo do homem branco: quaisquer reconciliações que coloquem negros e brancos em posição de igualdade parecem, assim, ser apenas utópica para Du Bois, a considerar a impossibilidade do apagamento de um violento passado colonial. Nesse sentido, pode-se invocar também como a experiência afro-americana estaria marcada por uma “consciência dupla”, segundo o autor, que considera a ideologia e cultura do país incompatível com a identidade negra, que se forma em um processo diferente marcado pela exclusão dentro do próprio país.

 

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É graduanda em Letras - Inglês e literaturas na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e bolsista do projeto de extensão Literatura Inglesa Brasil, sob orientação da Profa. Dra. Marcela Santos Brigida.

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