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New Journalism: uma introdução

Já distante do “grande romance americano” dos anos 1930 e mais ainda do romance realista do século XIX, a década de 1960 estadunidense foi atravessada pela modernidade de diversas maneiras. Com certa proximidade ao aparecimento dos movimentos sociais e da contracultura, um dos muitos meios atravessados foi a imprensa, resultando no New Journalism. Foi trocada a pretensão da impessoalidade, neutralidade e objetividade do jornalismo tradicional pelo assentamento do repórter como autor e como dono de uma subjetividade, que não só flui para os fatos narrados como também os forma. Muitas vozes embarcaram nessa direção com a escrita, revelando verdades contemporâneas tanto sobre o mundo quanto sobre os próprios sujeitos por trás das vozes. Ao deixar de abafar o eu, deixar de apagar a subjetividade intrínseca à experiência, a escrita desses autores evidenciou a possibilidade de múltiplas verdades, ao invés de uma única. 

O New Journalism pode ser lido em relação a gêneros mais recentes como a autoficção e a não-ficção, ao mesmo tempo que ele também resgata a literatura até do século anterior ao seu. A preocupação de representar a realidade social na literatura foi também característico do romance, especialmente do realismo. Por isso, em seu ensaio sobre o New Journalism, Tom Wolfe, um dos seus maiores autores, argumenta que na época, o romance e o realismo não estavam tanto se extinguindo quanto transferindo-se para o jornalismo, ou para essa nova literatura de não–ficção.

É possível ver razão nessa ideia se voltando para as publicações dos maiores autores de New Journalism, especialmente na virada da década de 60, quando o próprio Tom Wolfe, assim como outros, escreveram “romances de não-ficção”. O primeiro do gênero é da autoria de Truman Capote, que, acompanhado da sua amiga escritora Harper Lee (autora de O Sol é para Todos) passou anos analisando e investigando o assassinato de uma família do Kansas, entrevistando desde a comunidade fazendeira que convivia com a família, até os próprios assassinos, que foram achados e presos só depois de Capote começar sua pesquisa. Longe de desenvolver um relatório, o autor compôs uma narrativa, discorrendo os personagens das vítimas e dos assassinos, descrevendo cenas e pensamentos das pessoas reais que vivenciaram o caso, e invocando emoção na escrita, fazendo o best-seller A Sangue Frio de 1966 como um thriller de terror.    

Dois anos depois, Norman Mailer, Tom Wolfe e Hunter S. Thomson apropriaram-se do mesmo modelo de Capote, também levando a si mesmos a se inserirem diretamente no contexto sobre o que escreviam e juntamente inserindo as suas marcas autobiográficas em seus textos, retratando si mesmos como personagens da narrativa. Escrito por Mailer, The Armies of the Night narra a marcha anti-guerra que ocorreu em torno do Pentágono em 1967, que o próprio autor participou, passando até uma noite na cadeia. De maneira similar, escrevendo sobre o grupo contracultural de entusiastas de psicodélicos liderado por Ken Kesey, os “Merry Pranksters”, Wolfe participou do “Acid Test”, as festas de LSD que o grupo dava, para publicar The Electric Kool-Aid Acid Test. Além dos dois impulsionarem um tom irônico nos seus jornalismos, os dois encarnaram si mesmos na narrativa, com Mailer explorando o ponto de vista autobiográfico na terceira pessoa e Wolfe alçando sua narrativa com o fluxo de consciência.

Continuando o uso do narrador-personagem e do romance de não-ficção, Hunter S. Thompson publicou em 1967 Hells Angels. Com o livro abordando a infiltração do autor na gangue de motociclistas de mesmo título, criando um personagem para si mesmo já na vida real, o seu sucessor Medo e Delírio em Las Vegas: Uma Jornada Selvagem ao Coração do Sonho Americano, inverte a relação, trocando nomes reais por fictícios na ficcionalização desses fatos reais e autobiográficos. O best-seller, que já conta com uma adaptação para filme de alto alcance de 1997, se acentua como uma das maiores obras do New Journalism e constitui uma parte importante do imaginário popular da contracultura e do questionamento dos ideais norte-americanos dos meados do século 20.

Tomando um caminho mais diferente, menos próximo das consequências e perigos reais que originaram essas escritas, o New Journalism de Gay Talese e Joan Didion foi composto principalmente de artigos e ensaios de revista e jornal, em vez do romance de não-ficção. Ainda em contato com a influência do crescimento do ativismo social e da contracultura, tanto Talese quanto Didion deram profundidade ao escopo do personagem, no sentido literário e popular, ao ocuparem mais a posição de narrador-observador, ainda suportado pelo caráter subjetivo, porém mais para posar como um filtro para a captação (construção) de outros personagens. Escrita por Talese, Frank Sinatra Has a Cold partiu dos relatos que Talese conseguiu captar e da sua própria escrita, possibilitando uma narrativa humana sobre uma das maiores figuras do canône popular americano, identificando o que fazia parte do produto que o constituia e deixando o eu de Sinatra respirar, mesmo nunca chegando a entrevistá-lo. Essa mesma direção foi movida unicamente por Joan Didion, possivelmente a autora do New Journalism mais conhecida no contemporâneo, especialmente por sua escrita não só tê-lo formado, como exemplificado o gênero do ensaio pessoal.

O legado de Didion, e de Talese, assim como o de Thompson, Mailer, Wolfe e Capote, pode ser visto como o fruto de anos de debate a respeito dos limites da literatura e de anos do imaginário do sonho americano, formando essa mudança radical do jornalismo, da literatura, e da cultura juntos.

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