Maggie O’Farrell é uma escritora e roteirista irlandesa imensamente reconhecida e aclamada por sua contribuição à literatura inglesa. Sua variada e complexa obra é composta por nove romances, um memoir e dois livros infanto-juvenis, com títulos premiados que foram traduzidos para mais de 30 línguas.
A escritora nasceu no condado de Londonderry na Irlanda do Norte em 1972, próximo ao conflito que ficou conhecido como Bloody Sunday, que fez seu pai se mudar para trabalhar no País de Gales. Por ter crescido entre Irlanda, Inglaterra, Gales e Escócia, sendo uma imigrante irlandesa em anos muito conturbados entre Inglaterra e seu país de origem, a autora acabou por experienciar diversas questões relacionadas ao seu pertencimento e à sua formação de identidade. Em entrevistas para o The Irish Times, a autora afirmou já ter se sentido inglesa demais para a Irlanda, e irlandesa demais para a Inglaterra.
Apesar de ter ambos os pais irlandeses, seu pai parece ter tido uma grande influência em O’Farrell por nunca ter distanciado o seu pensamento da vivência no país: a autora contou que, na infância, sempre teve mitos irlandeses como histórias para dormir — e o contato com esta literatura foi fundamental para a formação de suas narrativas. A autora acabou passando por períodos de reclusão por ter estado doente, o que a aproximou ainda mais da literatura. Já na vida adulta, como estudante de Cambridge, O’Farrell ampliou seu contato com a Literatura Inglesa, além de ter trabalhado como jornalista no The Independent on Sunday e frequentado diversos workshops de escrita. Eventualmente, ela também se tornou professora de Escrita Criativa na Universidade de Warwick e na Goldsmith’s College, em Londres, atualmente residindo com a família em Edimburgo.
Durante a sua carreira literária, que começou no ano de 2000, O’Farrell recebeu diversos prêmios para obras de língua inglesa, mesmo antes do estrondoso sucesso de Hamnet em 2020. Sua estréia After You’d Gone foi vencedora do Betty Trask Award em 2001, o seu terceiro livro, A distância entre nós, venceu em 2005 o Somerset Maugham da Sociedade dos Autores, e, com outras três de suas obras listadas para o Costa Book Awards, o seu romance de 2010, A Primeira Mão Que Segurou a Minha, foi ganhador. Se em 2007 a autora tinha sido mencionada na lista da Waterstones de “Autores do Futuro”, em 2021 ela foi anunciada como membro da Sociedade Real da Literatura.
Embora sua obra mais conhecida, Hamnet (2020), entre no campo da ficção histórica, a escrita de O’Farrell explora diferentes ambientações, tendo uma bibliografia um tanto diversa. A marca de sua autoria poderia ser resumida num olhar inclinado a ruminar sobre o que não foi, a “vida que caminha ao lado desta”, “os fantasmas e as escolhas que nos assombram” como descreve a introdução à autora em Seattle ‘s Art and Lectures.
Sob essa perspectiva, é possível enxergar no trabalho de O’Farrell a (re)escrita de narrativas que não são tão popularmente visitadas, fazendo ela ser aclamada não só por ser um ponto de referência ao escrever personagens femininas, mas também por captar a sensibilidade da vida humana.
Nesse sentido, Hamnet mostra uma história e uma nova versão do luto apresentado em Hamlet que a crítica da tragédia de Shakespeare nem sempre se interessou: a morte real do filho do autor. Não chegando nem a mencionar o nome do dramaturgo, a autora redireciona a narrativa para a ficcionalização de sua esposa Anne Hathaway (agora Agnes) e seus filhos, uma vez separando e imaginando o fato biográfico da vivência do filho de Shakespeare para depois (re)uni-lo com o luto representado no drama. O romance, que ganhou neste ano uma adaptação para filme dirigida por Chloe Zhao, manifesta uma reflexão importante sobre a arte e a vulnerabilidade humana.
O seu romance mais recente, The Marriage Portrait (2022), também adota a tarefa única de despertar o contexto sensível por trás do cânone literário, adaptando o poema de Robert Browning My Last Duchess para mostrar a história violenta forçada a uma menina de 13 anos, Lucrécia de’ Medici, duquesa de Ferrara. O monólogo dramático de Browning ficcionaliza a voz de Afonso II d’Este, seu viúvo, para falar do retrato pintado da esposa, dando a entender que ele “encomendou” não apenas a esposa e a pintura, como também a sua morte. O romance de O’Farrell explora a concretude da dinâmica de poder que realizou uma rasura na vida da duquesa, que já é apresentada sem-vida no começo do livro.
A reflexão sobre o sofrimento, o sentimento e a morte humanas, juntas ao efeito de ressignificar o que já é estabelecido, não se limita aí. Ela permeia a escrita de O’Farrell em obras como The Vanishing Act of Esme Lennox, que vem sido considerado uma leitura difícil acerca do histórico de instituições psiquiátricas na Escócia Vitoriana, até o seu memoir, cujo título, I am, I am, I am: Seventeen Brushes with Death (2017) parafraseia Sylvia Plath para, através do contraste das experiências narradas de quase-morte, descrever a vida e o que esta fez da autora. Dessa maneira, a obra de Maggie O’Farrell não faz somente seu leitor ser levado ao passado, à arte, e aos sentimentos que eles comovem, mas ao agora.
