Nos dias 20, 21 e 22 de março deste ano, São Paulo viu um número de artistas da música popular se apresentar no Lollapalooza, muitos deles tendo seu primeiro concerto no Brasil. O festival havia composto os seus três dias de múltiplas performances de modo que, como é o caso de eventos do tipo, elas ocorressem ao mesmo tempo que outras, em partes diferentes de todo o espaço reservado ao evento. Isso circunscreveu um trecho significativo da capital paulistana, incluindo os hotéis, transportes, e demais lugares de passagem dos turistas, para além da área do Autódromo Interlagos. Os shows não se trataram de testemunhos passivos de artistas reproduzindo suas músicas, mas de performances nas quais tanto artista e quanto público participam, atuando papéis mental e corporalmente.
Diferente do Lollapalooza, em que, tanto nas gravações das apresentações, quanto na experiência delas em primeira mão, a presença física dos performers é inegável, ouvir música tem atualmente significado a reprodução de música gravada. A menos que cantada espontaneamente no cotidiano, a música é geralmente situada no meio eletrônico, completamente a mesma toda vez que é reproduzida. Nessa instância, a presença dos performers quase lembra uma voz “sem dono”, na ausência da cultura visual e videográfica que tipicamente encorpa a canção popular.
O corpo ganha um peso duplo na relação da audiência com o artista. Primeiro, de acordo com Paul Zumthor, ele constitui um papel central na recepção de um texto, isto é, o momento em que ele se encontra com o leitor. O teórico também argumenta que esse momento é a performance, registrando tanto as marcas das condições concretas do evento (os aspectos físicos e geográficos, a semiótica ou a falta dela), quanto das condições em que o corpo se encontra: o estado de espírito, de saúde, a memória e as associações que ele faz.
Um festival liberta das visualizações nas plataformas de streaming todo um número de corpos vivos, cada um com sua organicidade, textura, aparência, bagagem, carregando sua própria persona para fazer seu papel junto aos outros, e ao próprio artista.
Philip Auslander localiza no corpo do artista um elemento próprio da performance. O escritor sugere a persona como uma identidade musical que existe de acordo com o que é apresentado e atualizado no momento da performance. Mesmo performers que não estão ativamente interpretando personagens por meio da persona (como faz Doechii, com sua parceira de cena em “Denial is a River”), eles não meramente apertam botões e tocam seus instrumentos no palco, mas performam um papel.
Nos palcos do Lollapalooza, resta a pergunta: que papel, e que significados sociais, estão sendo transmitidos? Auslander aponta que o conceito de gênero musical, ainda que bastante subjetivo, demarca a identidade cultural da comunidade envolta da música. A parte dos headliners e subjacentes da edição de 2026 do festival, principalmente, reflete os gostos dos brasileiros do pop contemporâneo de língua inglesa, e nisso podem ser vistos múltiplos gêneros e subgêneros. O pop, enquanto gênero, oficialmente compõe cerca de metade dos maiores nomes, e pode ser visto em diferentes performances de nomes como Sabrina Carpenter, Marina, Tyler The Creator, Chappel Roan, Katseye, Addison Rae, Doechi, entre outros. Mesmo artistas pop são dissidentes, por conta da contínua atualização e recriação (mediadas tanto pelo mercado quanto pelo contemporâneo), mas é possível perceber nestas (re)elaborações artísticas a questão pós-moderna com a ironia e a sinceridade.
O problema foi popularizado por David Foster Wallace ao trazer a primeira descrição de uma New Sincerity, que se opõe à “pós-ironia” que, segundo o autor, teria se integrado ao fazer cultural moderno. Uma nova sinceridade não teria a preocupação com originalidade, com renovar e quebrar com lugares comuns, com comparar e relacionar a si mesmo com outras obras e seus legados – uma posição denominada como a ironia pós-moderna.
Nem uma e nem a outra constituem indicativos de qualidade. Pensando elas como dois extremos opostos, é possível notar essa relação de autoconsciência nos atos mais famosos do Lollapalooza. O female fatale (que se faz literal em videoclipoes) de Sabrina Carpenter traça relação direta com outras performances do passado, lembrando tanto artistas dos anos 2000 quanto de outras décadas, para fazer um deboche feminista da relação heterossexual. Recriando a dinâmica de girl-groups coreanos na multiculturalidade de língua inglesa, Katseye, como um grupo, entende o que é esperado de si, e o realiza se utilizando de um maximalismo videográfico e musical que se apossa do absurdo. Doechii convida os telespectadores a seu confessionalismo por meio do chiste, além do resgate da performance de outros artistas do passado.
A ironia pode aparecer mais distinta em artistas pop de língua inglesa por participarem mais ativamente no gênero, mas a questão discutida por Wallace pode fazer parte da performance dos outros artistas do festival, nacionais ou estrangeiros, pop ou alternativos, sendo eles contemporâneos. Do pop, no entanto, a apresentação de Lorde no Lollapalooza se destaca ao concentrar-se em uma sinceridade nova.
A apresentação da neozelandesa, em competição acirrada com Tyler the Creator e Deftones, foi eleita duas vezes o melhor show do festival, principalmente por causa da sentimentalidade estabelecida entre sua persona e a audiência brasileira. Sua performance se apoia na irmandade construída entre as duas ao longo dos anos, desde o debut de Lorde e a sua primeira realização no concerto de 2014 no Rock in Rio. O eu lírico da artista tem personificado o eu sensível dos telespectadores ao redor do globo, mas a platéia brasileira, que, em shows internacionais, é usualmente sujeita a maiores agitações em comparação a outras, é culpada de uma sensibilidade muito poderosa em torno de Lorde.
No Autódromo Interlagos, como antes em 2022, brasileiros que cresceram com Lorde, que a acompanharam ao passar dos anos da própria idade, encarnaram “Ribs”, fan-favorite que elegia a juventude e o passar do tempo. Em 2026, após o lançamento de Virgin, que contraria o dito do disco anterior em relação a “jogar seu telefone-celular na água do mar” (como cantado em “Solar Power”) para uma examinação de “todo o metal em que eu digitei” (“Shapeshifter”), o hino de “Ribs” é ecoado em “Buzzcut Season”, uma meditação sombria sobre o real (“I live in a hologram with you”).
