O único romance escrito por Sylvia Plath foi publicado em 1963 sob o pseudônimo Victoria Lucas, parcialmente influenciado pelo caráter autoficcional de A Redoma de Vidro e por uma necessidade de manter sua vida pessoal longe de maiores especulações. Simultaneamente, a decisão da autora parece também diferenciar as suas personas literárias enquanto novelista e poetisa, de acordo com Diane Middlebrook. Ambientada nos anos 1950, a obra conta a história da socialite e universitária Esther Greenwood que, apesar de bem sucedida e talentosa, progredindo em sua carreira e formação pessoal em um contexto de pouca liberdade feminina, não se vê satisfeita. O livro aborda um conflito interno entre o mundo de possibilidades que se abrem à sua frente mas que também são rodeadas pelas expectativas de gênero e pela falta de suporte às suas questões de saúde mental.
Tem-se acesso à um modo de vida um tanto privilegiado para uma mulher: Greenwood frequenta festas, trabalha em uma área que a proporciona o acesso à lugares refinados, tem uma educação de nível superior de faculdade, mas essa ascensão não tem efeito semelhante na sua vida íntima: a personagem tem questões familiares conturbadas e parece não se encontrar em si mesma ou no modelo cultural e ideológico dos anos 1950, no caráter automático da vida cotidiana e suas pressões. Ainda nesse sentido, pode-se perceber algum ar de culpa, já que a personagem está consciente que tem uma vida boa, até mesmo invejável, apesar de não estar realizada ou feliz.
“Acontece que eu não estava conduzindo nada, nem a mim mesma. Eu só pulava do meu hotel para o trabalho e para as festas, e das festas para o hotel e então de volta ao trabalho, como um bonde entorpecido. Imagino que eu deveria estar entusiasmada com a maioria das outras garotas, mas eu não conseguia me comover com nada. (Me sentia muito calma e muito vazia, do jeito que o olho de um tornado deve se sentir, movendo-se pacatamente em meio ao turbilhão que o rodeia.)”
Sylvia Plath, em A Redoma de Vidro
Ainda que possa acessar tratamentos médicos, o cenário da época não permite que ela recupere sua sanidade, e a personagem utiliza de imagens grotescas e de um olhar irônico para se voltar a si mesma e para o mundo ao seu redor, afetada pelo peso do ar dentro da redoma em que se via presa. Nesse sentido, a certa separação que Plath cria entre o sujeito-narrador e o sujeito-protagonista constrói um espaço interessante de análise crítica. Dentro de uma dicotomia do próprio ser, a srta. Greenwood paira confusa com a própria fluidez de seus comportamentos e desejos, que falham em ser captados por modos de viver que parecem para ela tão fixos: nesse contexto, emerge a tão popular metáfora da figueira. A personagem se vê frente à ramificações de sua vida e destinos diferentes, possibilidades de futuro materializadas na forma de grandes figos púrpuras: dentre imagens mais fantásticas e outras mais palpáveis, emergem as possibilidades de ser uma mulher prolífica ou a de ter uma casa feliz, com marido e filhos, como se as duas possibilidades se antagonizassem ou não fossem plenamente alcançáveis simultaneamente. A figura do figo e de seu eventual apodrecimento frente à inércia da mulher evoca também o controle da gula feminina, uma afronta à estar na posição de mulher e, ainda sim, querer e desejar demais: em diversos momentos do livro, Esther é negada o prazer da comida e, consequentemente, uma necessidade física e biológica é vista como um momento de ganância insaciável danosa, por transgredir os limites da dominação do corpo.
Não é apenas nesse momento da figueira tão ilustrativo, ainda que melancólico, em que Esther Greenwood experimenta diferentes possibilidades ou foge da realidade palpável: muitas vezes, a personagem utiliza de diferentes identidades, não querendo ser reconhecida como Esther por amantes, rouba o nome de suas colegas de quarto — que, em contrapartida, roubam a possibilidade do espaço pessoal dentro do Amazon Hotel, um ambiente sacro no qual elas estariam a salvo da lascívia e enganação masculina.
Essa transgressão da imagem feminina traz a tona a questão de duplos que emerge na narrativa: o apagamento e descentramento do eu fraturado dentro do romance e os comportamentos erráticos ou inaceitáveis para a época de Greenwood parecem estar simbolicamente depositados na quantidade de espelhos que aparecem no livro e na relação que a moça desenvolve com eles. A protagonista se vê confusa frente à diversos reflexos, nunca capaz de entender o seu real entre as múltiplas imagens de si. Quando internada, as enfermeiras negam que Esther se veja fora de suas condições ideais ou mais estáveis, mas Esther, mesmo insistindo em se ver, não se reconhece na figura e acredita que ela seja uma fotografia.
Ainda que entre muitos lapsos e momentos de tristeza e inadequação mais atenuados, somada às intervenções da psiquiatria da época, tem-se momentos de paz de espírito e de aceitação. A história traz a ideia de que a sua melhora é possível, apesar do caminho mental conturbado, e que é por esse motivo que ela a narra.
