Publicado em 2026, Famesick, o segundo memoir da escritora, atriz e cineasta Lena Dunham, tem sido objeto de muita discussão. O livro, à princípio, alimentou muitos com o registro de Dunham sobre outras celebridades, e, conjuntamente, impulsionou o reengajamento da escritora nos olhos do público on-line. No entanto, o que o texto guarda em suas quase 400 páginas realiza uma análise que vai além das personas associadas ao nome da autora, desenterrando anos da apropriação e exploração da vida de Dunham, ao mesmo tempo que emprestando uma lupa na contemplação de numerosos personagens e eventos da sua experiência.
Dunham se destacou na cultura pop devido a um viés fortemente autobiográfico no seu fazer criativo e na sua presença pública. Desde os seus primeiros trabalhos, uma honestidade crua, aparentemente despreocupada com se filtrar, se fazia presente na sua voz, narrando detalhadamente o próprio constrangimento e a própria desgraça, o que havia de sombrio e de imperfeito, na sua narração de si. Isso já foi refletido de maneira positiva, com o seu primeiro longa-metragem, Mobília Mínima, trazendo a atenção de produtores da HBO no pretexto de que o filme “te mostrava como é ser humano”; em outras ocasiões, diferentes falas de Dunham foram publicamente repreendidas por sua falta de decoro.
Em Famesick, a narradora é equipada dessa mesma honestidade, mas não abre caminho a uma autocomiseração sobre o seu sofrimento sem a mediação de um olhar crítico. A linguagem usada assume um tom mais informativo, observando os sentimentos da autora e a sua experiência das outras pessoas e eventos na sua vida em uma tentativa de exatidão. Além de debruçar uma lente sobre as forças e afetos agindo sobre a sua vida, para fazer sentido dela e das diversas condições que a situaram, a escrita de Famesick faz o mesmo sobre outras pessoas da vida pessoal de Dunham. Uma autobiografia que envolve numerosas outras biografias, Famesick centraliza a experiência humana.
É importante sinalizar o “humano” na narrativa de Famesick porque, nela, Dunham desenha um conjunto de instituições que a levaram reestruturar seu entendimento de si. Assim, a partir de uma aproximação que a narradora faz da experiência da fama e a da enfermidade, é possível considerar o livro uma narrativa de burnout: o desgaste emocional, corporal, mental e interpessoal de Dunham. É essa modulação do seu corpo, seu eu e sua vida, o que traça a narrativa de Famesick.
A narradora começa a introduzir no livro essa ideia, depois da explicação sobre os diferentes sentidos que seu próprio nome passou a ter, numa parte de sua vida ainda antes da produção de Girls, a famosa série que tornou Dunham famosa. Nesse intervalo entre o fim de sua graduação na faculdade e da sua entrada na indústria, em meio a um universo de jovens entusiastas de cinema, que se abriu para uma jovem Lena ao submeter seu primeiro curta-metragem, abriram-se também diferentes relacionamentos. O “homem do lábio rachado”, referido assim na narrativa inteira, se destaca por torturar sexual e emocionalmente a autora que, mais de dez anos mais nova, “permitia” – esperando-o amá-la de volta.
Simultâneo a esse abuso, e a todo um cenário criativo que acabou se sediando em um estúdio que Dunham herdou de seu tio, o emprestando a diferentes cineastas, e ao retorno da autora à casa dos pais e sua dinâmica familiar, ela escreveu e dirigiu o seu primeiro longa-metragem Mínima Mobília. No filme, a protagonista encontra o diário antigo de sua mãe, em que se replica o mesmo relacionamento romântico interpolado por abuso que ela mesma vive. A autora e a sua mãe interpretam versões ficcionais de si mesmas, representando a maneira real, e os acontecimentos reais, que a autora pôde enxergar e entender as duas. Foi com a distribuição do filme que os produtores da HBO recrutaram Dunham para escrever e dirigir na indústria televisiva.
O trecho de transição da autora para a indústria, em que, junto com a HBO, diferentes agentes a contatam com o lançamento do filme, se mostra uma aventura que destaca a raridade do seu sucesso e fama. A narradora descreve um salto abrupto de uma vida essencialmente comum, que é familiar para a maioria das pessoas, para um mundo da fama, que a recebeu com recursos e visibilidade artísticos que poucos artistas têm acesso, mas juntamente com uma hipervisibilidade que a vulnerabiliza em relação aos demais, e inúmeras responsabilidades. Aos 23 anos, Dunham tinha nas mãos a renda financeira de mais de cem trabalhadores e suas famílias.
No decorrer da entrada da jovem na HBO, com a produção da primeira temporada de Girls, vai sendo fornecido o entendimento a quem está lendo de que o problema que Famesick aponta na experiência da fama não está somente na comodificação do nome, do corpo, da pessoa de Dunham pelo público, mas pela indústria. Essa relação abusiva pelo fazer artístico infestou-se no entendimento de si da autora na esfera de seus relacionamentos (mudando radicalmente a maneira que ela se inseria socialmente, sacrificando certos laços afetivos, e sacrificando a si mesma pelo bem de outros), e do seu corpo. Ganhando espaço no próprio título do memoir, a relação da narradora com seu corpo adoecido navega a cronologia de sua carreira por este responder às suas tentativas de se objetificar, seguindo o exemplo de seus perpetradores.
Em um dos momentos mais severos, na intenção de se livrar das razões da diretora para se afastar mais ainda do trabalho para tratar da saúde, a companhia de seguro de Girls a aconselha um doutor, apesar de já estar sendo tratada por outro, que a rende um dos seus piores traumas médicos. Tocando no seu corpo e pressionando onde doía, o médico manualmente estourou o cisto hemorrágico grande na pretenção de examiná-lo.
He didn’t stop, even when I begged. He only stopped when he was finished.
A dor desperta a narração de um longo histórico de violência de gênero que vitimizou a narradora, uma violência que se estendeu para além de episódios que ela menciona de passagem em Famesick. Neste ponto do livro, já se percebe que ela também habita relacionamentos aparentemente consensuais com homens para além do cenário sexual, envolvendo mesmo a produção de Girls, a sua hipervisibilidade que permitiu Dunham tornar-se um “saco de pancadas” do ódio contra o feminismo, e mesmo o tratamento médico que, priorizando sempre a fertilidade feminina, contribuiu para ignorar e diminuir a dor e a vontade de Dunham ao invés de seguir com a decisão da paciente da retirada do útero.
O histórico das tentativas de corrigir o corpo rebelioso da diretora a fim de torná-la mais funcional também incluiu a sua dependência em remédios que, como outras supostas soluções médicas, acabaram por trazer mais problemas. Como narrado, comparando a fama e a enfermidade,
“It has a maddening circularity, and it’s also very hard to explain, even to the people closest to you. When you’re sick, one medication causes side effects that must be treated by another, more drastic drug. If you’ve publicly fucked up before, you have to be careful all the time not to reignite a dormant story, to have past mistakes create future discomfort.”
As duas experiências pediam para que a narradora se desassociasse da realidade, paralisando-a num contínuo acerto de contas, na falsa pretensão de que isso faria ela ser adequada novamente. Por isso, assim como as maiores obras de Dunham, Famesick chama a atenção para a experiência de si como se é, não como “se deve ser”.
