Nos últimos anos, muitas adaptações cinematográficas de clássicos literários têm sido lançadas nos serviços de streaming e no cinema provocando tanto indignação quanto interesse pelas obras fonte. Algumas adaptações foram tão marcantes que passaram a encarnar as próprias obras-fontes no imaginário popular, como o Adoráveis Mulheres de Greta Gerwig, ou a série Anne with An E, que introduziu Anne of Green Gables a toda uma geração em 2017. Já em 2022, o Persuasão de Carrie Cracknell foi lembrado por uma distorção mais infeliz do romance de Jane Austen, de uma maneira parecida que o recém-lançado Frankenstein de Guillermo Del Toro foi questionado em certos pontos, ainda que aclamado, e, mesmo antes de sua estreia no próximo ano, o Wuthering Heights de Emerald Fennell já tem dado o que falar por esse mesmo motivo.
Em todo caso, a adaptação reflete uma nova interpretação da sua fonte diante dos olhos de um público maior, a recriando a partir de tanto um cenário contemporâneo quanto em um meio diferente, o audiovisual. Enquanto todas essas obras recentes abrem discussões sobre a adaptação e os limites da liberdade (re)criativa que ela dá aos novos autores, pode ser interessante retornar à década passada para ver um outro tipo de adaptação cinematográfica: as webséries do Youtube.

Nos meados dos anos 2010, quando o video-blogging já havia se concretizado como categoria popular no Youtube, os leitores que haviam crescido com as adaptações dos anos 2000 e 90 começaram a incorporar seus livros favoritos no vlog. Os personagens teriam cada um seu motivo para documentar suas vidas na internet, não somente pelo próprio canal mas também por contas fictícias nas redes sociais. As histórias, desse jeito, eram obrigatoriamente ambientadas no contemporâneo, além de adaptadas para o formato e linguagem específicos da auto-filmagem no Youtube.
O movimento foi iniciado pela popularidade estrondosa de The Lizzie Bennet Diaries, a primeira e a mais conhecida das adaptações para vlog-séries. Ela foi a primeira websérie a vencer um Emmy, além de ter sido considerada pelo The Guardian como a “maior adaptação Austeniana”. A pequena nobreza rural dos Bennets de Orgulho e Preconceito (1813) se torna o subúrbio da classe média norte-americana, de onde a estudante de mestrado Lizzie Bennet faz do seu canal de vlogging no youtube a sua tese.
Um dos maiores times criativos dentro do movimento, Pemberley Digital, o mesmo time por trás de Diaries, continuou não só a desenvolver outras adaptações dos trabalhos de Austen, como inspirou outras adaptações da autora, além de novos leitores. Spin-off da primeira série, Welcome to Sanditon reconta o último romance de Austen como protagonizado pela irmã de Darcy, Georgiana (chamada de Gigi), enquanto Emma Approved apresenta a empresária Emma Woodhouse, profissional de matchmaking e coach de estilo de vida. Dos mesmos produtores, Frankenstein, MD é o canal educacional dos estudantes de medicina Victoria Frankenstein e Iggy Lancey, e The Marsh Family Letters o canal onde as cinco irmãs do romance de Louisa May Alcott mandam mensagens para a mãe trabalhando fora.
A trama das obras de partida é traduzida para os tempos atuais e para o formato digital nas obras de chegada, os eventos sendo reescritos com os códigos específicos do ambiente virtual e com as discussões que estavam os permeando na época. Por exemplo, a escapada de Wickham com Lydia de Orgulho e Preconceito, que consequentemente mancha a sua imagem, é retratada pela tentativa de Wickham de postar um vídeo explícito seu com a Lydia, uma forma de revenge porn.
O avanço das discussões de pautas sociais se mostrou muito presente nessas adaptações. Hamlet The Dame, de 2017, remodela a misoginia do herói de Shakespeare na raiva frente ao trauma causado pelos homens poderosos do drama ao não só trocar o gênero masculino da maioria dos jovens amigos de Hamlet e ele mesmo, como a escrevê-los abertamente queer.
A escolha das obras adaptadas e das direções tomadas, desse jeito, não foram coincidências, mas o resultado de obras que continuavam a acumular releituras contemporâneas ao longo do tempo. Por isso, textos como Carmilla (1876), que permanece com uma conhecida leitura contemporânea dos elementos queer do gótico, tiveram sua sobrevida prolongada nessas adaptações, como Carmilla – The Series (2014). É possível ver o mesmo em obras que possuem um histórico de produções populares, como Orgulho e Preconceito (2005) e outras, ou o boom de releituras modernizantes dos anos 2000 e 90, com filmes como 10 coisas que eu odeio em você (1999) e As Patricinhas de Bervely Hills (1995).
A questão da tradução de um meio para outro na adaptação, especialmente na adaptação para vlog-série, também pauta a posição desses recriadores, tendo em vista que não só os personagens literários são transferidos para atores, pessoas reais, que os representam, mas personagens que agora representam a si mesmos numa narrativa de sua própria criação. Desse jeito, as obras são tão inseridas no contemporâneo, que suas narrativas são viabilizadas não pelos criadores e produtores, mas pelos personagens em suas respectivas contas nas redes sociais. Isso envolve até a ficcionalização de autores reais, como o diário de vlogging de escrita de “Ed Poe” ou o canal compartilhado dos roommates universitários Jane Austen, Oscar Wilde e Emily Dickinson, literalmente colocando um autor em conversa com outros.
Ainda que muitas vlog-séries não tivessem os recursos de produções de maior escala, tendo que ser apoiadas por vaquinhas online, elas eram movidas de perto por fãs e estudiosos das obras originais. Através desse viés, essas adaptações responderam os autores e obras utilizando as discussões que eles instigaram mesmo muito depois de sua publicação. Por isso, assisti-las pode ser uma ótima opção para repensar e reviver os textos amados.