Os momentos dialógicos entre Taylor Swift e Shakespeare começam antes do The Life of a Showgirl, não apenas através de referências diretas, como as do álbum Fearless, mas também por meio de intertextualidades frequentes (como “A rose by any other name is a scandal” em “The Albatross”, aludindo à questão da nomeação que permeia Romeu e Julieta). No entanto, tais abordagens literárias parecem assumir uma perspectiva diferente em um álbum que marca o retorno de Swift ao pop. Ao contrário da reescritura de um destino feliz para os trágicos amantes Romeu e Julieta feita em “Love Story”, que se tornou uma das adaptações cancionais mais populares do cânone shakespeariano, o single “The Fate of Ophelia” não busca reescrever ou reinterpretar os destinos dos personagens, mas realizar um experimento de escrita e rasura a partir de alguns elementos simbólicos da tragédia e do próprio artefato do destino dos personagens trágicos. Swift se baseia em uma das figuras mais proeminentes de Hamlet, que, apesar de não ter muito espaço no contexto dialógico da peça, toma, assombra e permeia a imaginação não só da sociedade que ainda a lê e repensa as implicações de sua figura, como também a dos próprios personagens da peça.
Após um momento de superação e recuperação das Masters de suas canções, também marcado pelo sucesso estrondoso da The Eras Tour, “The Fate of Ophelia” parece trazer um momento mais feliz dentro do storytelling da cantora, que segue alguns paralelos com as abordagens de insanidade feitas em The Tortured Poets Department ao justapor a sua própria persona com a Ofélia de Hamlet. A personagem Shakespeariana se ressalta na cultura popular e nas artes pelo seu fim marcante, lançada por um salgueiro para as águas, onde é encontrada desfalecida, mas lindamente rodeada por guirlandas de flores — cena que é descrita de forma curiosa, quase nos moldes de uma pintura, pela rainha Gertrudes, madrasta de Hamlet, seu par amoroso falido e tão desnorteado por outras questões que o assolam mais que o amor perdido.
Na atribuída loucura que precedeu a sua morte, Ofélia encarnou em seu discurso a linguagem das flores, em um fazer poético peculiar, contrastante com a do colapso do reino da Dinamarca, e parece ter sido nesse lugar que conquistou, através da rebelião discursiva, alguma agência no contexto misógino da peça. Apesar de Swift parecer focar em um amor mais saudável que o de Hamlet dentro dessa canção de amor, que considera o sentimento em relação ao outro como algo importante na recuperação da própria tranquilidade, é importante traçar outros paralelos com a tragédia Shakespeariana para além de uma redução romântica:
Swift parece ter enfrentado, ao longo da carreira musical de sucesso longevo, diversas questões quanto à liberdade de produção e de ter controle sobre o seu próprio trabalho artístico. Pode-se pensar nisso não apenas em relação a perda de direito sobre as masters anteriormente mencionada, mas como também foi impedida, muitas vezes, de ter total autonomia no processo artístico: o que gerou por exemplo, um corte de metade do tempo de duração da All Too Well original, como a própria desconfiança em lançar o Red com músicas menos country. Isso demonstra que, ainda que com a recuperação de alguma agência no momento atual da carreira, esta foi adquirida através de certos processos dolorosos e limitantes dentro da indústria musical. Retomando à Ofélia, sua loucura não advém de uma paixão tão pouco correspondida ou apenas da morte do pai, mas de um contexto maior. Ofélia se vê em uma Dinamarca marcada pela decadência, mas que sempre a retirou de qualquer possibilidade de expressão e a colocou em expectativas tão restritas de comportamento, atreladas ao comportamento superprotetor de sua família. Sua loucura a livra temporariamente dessas amarras que, como Taylor Swift alude, também a deixam presa em uma torre — símbolo interessante tanto de nobreza e solidão, potencialidades esvaídas ou apagadas por um controle social.
O ponto que a cantora parece retomar é que a retomada de controle, apesar de levar Ofélia ao afogamento na época em que se passa a peça, pode não necessariamente gerar um afogamento físico em um período mais contemporâneo — mesmo gerando uma sensação de paralisia ou impotência. Ofélia, se pensada ao lado de outra música “Tolerate It” (do álbum Evermore, 2020), está jogada de lado em meio à tantas conturbações no cenário da corte de Elsinore, e sua morte e loucura parecem a deslocar de uma posição de filha ou de amante, da necessidade de “pedir para ser incluída em notas de rodapé [da vida daquelas pessoas]” tão imersas em seus próprios conflitos. Taylor parece elaborar um movimento de rasura interessante com a referência aos espetáculos das showgirls, transmutando as noites de insônia de Hamlet e seu clima de tensão e ansiedade em algo que não a dirija à uma melancolia inevitável, mas inscrevendo a possibilidade de um sentido positivo [“It’s ‘bout to be sleepless night you’ve been dreaming of”], sem esquecer de como pôde se identificar com a figura plácida de Ofélia em seu leito de morte.
Ao invés de entoar as mesmas canções tão melancólicas de Ofélia, que a mesma também vinha incorporando a sua obra musical, Swift parece trazer um fôlego dançante para a canção, mostrando que após o fim da sequência de músicas não restaria a ela um fim trágico marcado tanto pela melancolia quanto à visibilidade e exposição que sempre geram discussões sobre sua vida pessoal e artística (que podem ser assimiladas como as discussões dos coveiros da peça).
