Literatura Inglesa Brasil

David Chariandy é o autor do mês de junho do Literatura Inglesa Brasil

Grande expoente da literatura negra canadense, David John Chariandy é um autor de diversos trabalhos de ficção e não-ficção que recebeu diversos prêmios ao longo dos anos, dentre eles o Windham-Campbell Prize em 2019. Sua obra explora uma série de questões sociais, como raça, experiências de migração, pertencimento e discriminação e as relações construídas pelo autor exploram detalhes muito particulares da vivência diaspórica.

Nascido em Scarborough (região que hoje integra a cidade de Toronto) em 1969, Chariandy realizou sua graduação e seu mestrado na Carleton University, tendo também se tornado doutor pela York University em 2002. O autor foi um dos primeiros a tematizar a literatura negra diaspórica em sua dissertação de doutorado, com ênfase na literatura canadense e nas particularidades da escrita diaspórica. Após o término dos estudos na pós graduação, se mudou para Vancouver, onde atualmente leciona literatura e escrita criativa na Simon Fraser University. Chariandy tem um papel fundamental na promoção de escrita criativa na região, onde auxilia escritores de diversos níveis através de mentorias e demais tipos de suporte. Ele também participa do conselho editorial da revista literária Brick.

Tanto sua vida acadêmica quanto sua obra fictícia são marcadas por este interesse literário e social, com muitas influências de sua própria vivência enquanto filho de imigrantes. Filho de mãe negra e de pai sul-asiático que se mudaram de Trinidad em busca de trabalho, Chariandy pontua que seus pais sofreram forte pressão da branquitude dominante na região de Ontário antes dela se tornar mais etnico-racialmente diversa com as ondas de imigração dos anos 60 e 70. Essas questões aparecem de forma pungente em Soucoyant, seu premiado primeiro romance.

Soucoyant foi nomeado para onze prêmios literários, dentre eles o Governor General’s Award e o Giller Prize. Já seu segundo livro, Brother, foi nomeado a outros catorze prêmios, tendo ganhado o Rogers Writers’ Trust Fiction Prize de 2017, o Ethel Wilson Fiction Prize e o Toronto Book Award. Essas obras têm ganhado diversas publicações internacionais, tendo sido traduzidas para mais de dez idiomas.

Apesar de infelizmente ainda não ter sido publicada no Brasil, a sua escrita é vitalmente importante e relevante para além de seu país de origem por tratar, por uma via literária e teórica, da existência na diáspora. O trabalho de Chariandy não foca somente na vivência canadense das segundas e terceiras gerações de imigrantes, nem tão-só na “vida passada” das primeiras gerações: os seus três títulos interconectam essas experiências a fim de formar uma narrativa maior. O autor, desta maneira, realiza por meio da prosa, uma contribuição epistemológica a respeito da violência colonial e pós-colonial, que, segundo suas obras, age fluidamente no inconsciente e nas relações cotidianas.

Lançado em 2007, o romance Soucouyant pauta o retorno de um filho já crescido para a sua mãe, que sofre de demência. A princípio, a história toma cenário na década de 1980, em Scarborough, bairro na cidade de Toronto historicamente conhecido pela marcada presença de imigrantes e, por isso, popularmente malvisto. Em um nível mais profundo, o protagonista navega, pelo registro oral da mãe sobre sua chegada no Canadá na década de 1960, e sua infância em uma Trinidad devastada pela Segunda Guerra Mundial, a História pessoal de sua mãe. O romance dessa maneira examina as dores, o luto, e as intersecções da emigração e do multiculturalismo, de raça e classe, e da memória pessoal, cultural e intergeracional.

Também um retrato de uma família negra imigrante em Scarborough, o seu segundo romance, Brother, foi publicado em 2017, ficando em mais de oito listas de jornais e revistas entre um dos melhores livros do ano. Esta obra, por sua vez,  enfoca-se ainda mais no crescimento conjunto dos filhos no Canadá, sendo protagonizada pelos irmãos Michael e Francis. Eles são criados e sustentados por uma mãe solteira de baixa renda que tem que se deslocar longamente pela cidade para trabalhar, ficando não só desgastada, como também deixando de cuidar e supervisionar seus filhos, que são deixados sozinhos em casa. Com os três vivendo num complexo de apartamentos compartilhado por outras famílias de imigrantes, essa parte do livro mostra os garotos crescendo sozinhos, em uma relação um com outro, ante os seus desconfortáveis arredores. Em outra parte, é o passado que se apresenta como desconfortável para o protagonista Michael, com já 28 anos, defronte com a ausência de seu irmão e com o estado de sua mãe.

Além da ficção, o romancista também publicou um íntimo memoir em 2019, sob o nome I’ve Been Meaning to Tell You. Inspirado no ensaio de James Baldwin, que escreve uma carta para seu sobrinho, Chariandy  escreve uma carta para a sua filha pré-adolescente, explicando o complexo contexto racial de onde ela nasceu e a apresentando uma biografia de sua própria família.

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