Literatura Inglesa Brasil

Classe e identidade em Whatever People Say I Am That’s What I’m Not

Emergindo-se no cenário britânico do pós-guerra, o Kitchen Sink Realism apareceu como um movimento que, ao desprender-se da cultura inglesa do século passado, fez renascer as artes de literatura e de performance. Ele contemplava o estado da classe trabalhadora nesse momento histórico de declínio da Inglaterra, ocasionado tanto pelo pós-guerra quanto pelo fim do poder que o país tinha sobre algumas de suas terras colonizadas. O ato de tornar a classe trabalhadora o assunto das artes pode ser avistado como porta de entrada para esse universo artístico mesmo muito depois da Guerra e muito longe da Inglaterra. Da mesma forma, tão recente quanto 2006, apareceu o lançamento do álbum de estreia dos Arctic Monkeys Whatever People Say I Am That’s What I’m Not. Partindo da experiência adolescente do início dos anos 2000 de assuntos parecidos, as canções seguem o mesmo ato de falar das próprias experiências como elas são ao invés de como deveriam ser, enfatizando a retomada de identidade que o título já sugere.

A frase titular, Whatever People Say I Am, That’s What I’m Not, que nem grande parte da inspiração para o álbum, é originada de uma das maiores obras do movimento, o romance Saturday Night and Sunday Morning de Alan Sillitoe. Liricista e vocalista dos Arctic Monkeys Alex Turner viu a adaptação cinematográfica de 1960, título importante do cinema britânico, que uniu a frase do meio do livro com outro trecho mais perto do fim:

Ay, by God, It’s a hard life if you don’t weaken, if you don’t stop the bastard government from grinding your face in the muck, though there ain’t much you can do about it unless you start making dynamite to blow their four-eyed clocks to bits.

No romance, essa rebeldia do jovem Arthur, situada na supervisão disciplinar e autoritária do contexto operário e militar, finalmente se volta contra essas amarras apenas no que toca a sua pessoa, o seu ser. Ainda que as autoridades estatais e os capitalistas definam a vida de Arthur em inúmeros aspectos, ele coloca um limite em definir quem ele é. Esse conflito permeia o romance e, assim como ele afeta a identidade do protagonista, o divide em duas partes: a noite de sábado, onde vivem as tentativas do jovem de 20 anos de rebelar-se e de retomar controle sobre a própria vida, e a manhã de domingo, em que, um pouco mais crescido, ele se concilia com o quanto essa vida já é definida para além de seu controle.

No álbum, o sujeito das canções participa da mesma narrativa, sendo as treze faixas também separadas nesses dois momentos e cenários diferentes. Como Simon Lee observa no romance em The Intersection of Class and Space in British Post-War Writing, sendo o confinamento na classe operária intrínseca às duas metades do livro, o que está em jogo é como a identidade de Arthur é construída mediante os espaços sociais que ele habita. Mesmo contendo outras questões e ambientes na parte inicial das duas obras, o eixo de sábado à noite é do pub, um suposto refúgio que permite ter mais controle, enquanto a manhã de domingo é a vida como ela é, que, como diz o verso de “From the Ritz to the Rubble”, é “em uma cidade diferente daquela da última noite” (mesmo sendo a mesma cidade). 

Seguindo o intertexto que essa faixa tem com o poema “salome maloney” de John Cooper Clarke (poeta que, assim como os Arctic Monkeys, não omite a própria origem operária do norte da Inglaterra), pode-se perceber que as referências culturais por trás do disco não são apenas a sua inspiração, mas parte de um mesmo contexto. A constante entre os homens poetas, romancistas e cinematógrafos do século passado e esses adolescentes mostra, além do desenvolvimento e manutenção de uma mesma experiência de classe, o esforço do governo inglês em conservar a relevância cultural do Kitchen Sink Realism e de outros assuntos através do ensinamento nas escolas e a mídia de massa (rádio, televisão, cinema). Sem essa reflexão na vida dos jovens Arctic Monkeys, não haveria o aprofundamento do conceito do álbum.

Alex Turner redimensiona a obra com uma escrita que expõe mais ainda a autoconsciência de estar submetido ao sistema. Situadas nos anos 2000, as canções narram a experiência de classe de maneira tão global e atual, refletindo as convenções comerciais da época e a subordinação geopolítica de certos lugares por outros, quanto local e interpessoal, apresentando a realidade social de jovens que só tem a noite de sábado para ter controle da própria vida. Pode se ver sumarizado esse problema de construção do Eu em “Red Lights Indicate Doors Are Secured”, com o eu lírico narrando que “Well, you’re actin’ like a silly little boy / Oh, they wanted to be men”. 

Nesse sentido se apresenta o problema da negociação de identidade em todo o álbum, desde o comportamento violento dos jovens que se descreve nessa faixa e em outras como “When The Sun Goes Down”, “A Certain Romance” e “Riot Van”, às ambições no contexto da indústria musical como em “Fake Tales of San Francisco” e “Perhaps Vampires Is a Bit Strong But…”. Mais ainda, as faixas que encenam a conquista romântica nas pistas de dança, como “Bet You Look Good on The Dance Floor”, “The View From The Afternoon” e “Still Take You Home” enfatizam a busca por reconhecimento, por meio de uma forma de competição por atenção. 

Utilizando o sentido que deu E.P Thompson, na introdução de A Formação da Classe Operária Inglesa, ao conceito de classe, se vê nas canções o senso de identidade dos jovens sempre em relação com a própria classe, isto é, a relação com outras classes. Em “You Probably Couldn’t See for the Lights but You Were Staring Straight at Me”, por exemplo, isso se deve ao flerte heterossexual e seu situamento entre as duas classes de homem e mulher, com eu lírico notando seus amigos e a si mesmo tentando impressionar essa presença feminina. Notando que esta e as outras canções de flerte só ocorrem na noite de sábado, se percebe que esses adolescentes encontram os homens em si mesmos através dessas conquistas noturnas.

Por outro lado, é possível ver diferentes reflexões desse solo comum mesmo em faixas como “Fake Tales of San Francisco”, que relaciona a realidade dos personagens no subordinado norte industrial da Inglaterra com o pretexto americano da indústria de música, e “Riot Van”, que choca a vida supostamente independente dos jovens com a realidade da vigia dessensibilizada dos policiais. Ao passo em que a primeira termina num chamado empoderador para “get off the bandwagon and put down the handbook” (“descer do trem e jogar fora o manual de instruções”), rompendo com a submissão cultural, “Riot Van” narra uma visão muito menos autoconfiante de um jovem menino sendo reprimido e levado de modo que “there was no way he could win” (“sem chance de se defender”). 

Por fim, “A Certain Romance” pode resumir o conflito de identidade que o álbum trata ao contemplar a construção de uma romantização da vida em lugares como Sheffield. Como descreve o sujeito da canção, os jovens das redondezas podem vestir-se de modas socialmente populares como celulares com ringtones e “classic rebooks”, mas, ultimamente, não existe nenhuma desejabilidade na realidade deles. Isso é uma representação literal da fragmentação entre noite de sábado e manhã de domingo que sofrem os sujeitos escritos por Sillitoe e Turner. Entre os dois, fica marcante o esforço contínuo de ressituar a representação naquilo que é presente, da mesma maneira que ambos escritores refletem a tentativa dos seus personagens de ignorar a própria realidade. Whatever People Say I Am That’s What I’m Not, desse modo, segue com o compromisso do Kitchen Sink Realism de retomar a própria narrativa.

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