O movimento artístico que ficou conhecido como Kitchen Sink Realism surgiu entre os anos 1950 e 1960, visando retratar a realidade vivida pela classe trabalhadora britânica no cenário do pós-guerra. Essa escolha fugia das convenções do teatro da época, que não apresentava maiores inovações e retratava majoritariamente classes mais privilegiadas. Essas escolhas não produziam muita identificação nem contemplavam a vida dos habitantes do norte do país, sobretudo com as bruscas mudanças sócio-políticas do período, em que o fim da guerra e seus temores não implicou diretamente em condições melhores de vida para a população. Ainda que as peças do Kitchen Sink Realism fossem geralmente protagonizadas por homens insatisfeitos com essas questões, há uma grande importância das personagens femininas nas obras. No que tange à peça A Taste of Honey, escrita em 1958 por Shelagh Delaney, é perceptível que as personagens apresentam características desviantes dos padrões de feminilidade e gênero e desempenham papéis atípicos dentro e fora da esfera familiar, com seus comportamentos em ambos espaços sendo ultimamente influenciados pela relação entre mãe e filha.
A peça de Delaney se inicia com uma descrição de Helen, mãe da protagonista Jo, como uma “semi-whore”, o que já denota uma subversão das dinâmicas tradicionais de gênero e, consequentemente, de família. As personagens entram simbolicamente na peça “cheias de bagagem” e, nisso, pode-se perceber as tensões previamente existentes e que aparecem e se materializam recorrentemente no relacionamento entre mãe e filha. Essa relação conturbada é atenuada pelo espaço precário dividido por elas em Salford, em meio à crise residencial da época. No livro The Intersections of Class and Space in British Post-War Writing, Simon Lee Argumenta que o estilo das moradias em que as pessoas de classe trabalhadora se alocavam produzia um efeito de alienação e confinamento, caracterizado pelo carecer de recursos básicos como lazer e noções de comunidade e convivência (Cf. Lee, 2023). Sob essa ótica, a vulnerabilidade social — somada à questão do abandono paterno e à vida como mãe solteira — parece levar Helen à condição de trabalho sexual, ainda que este se desvie de suas regras morais, explicitadas com frequência no enredo da peça. Para além disso, as insatisfações de Helen geram um ressentimento que não poderia ser canalizado para além das paredes da moradia e que, por consequência, recai em Jo e em suas relações. Essa postura obriga a mais nova a comportar-se de forma rude e desafiadora como um mecanismo de autoproteção que ajuda a dar forma à peça.
Apesar da trama ser fortemente afetada e conduzida pela mãe, há uma grande ênfase em como seus comportamentos se reverberam na formação da jovem Jo. É visível que, apesar de tentarem ver o espaço por seu potencial, constantemente procurando por visualizá-lo de uma forma mais positiva através de pequenas mudanças — o que Lee chama de “making-be” —, as personagens ainda buscam por uma fuga daquelas amarras. Helen abandona Jo no final do primeiro ato, ao se casar com um homem, buscando por uma promessa de vida perfeita e idealizada dentro dos moldes patriarcais. O texto, no entanto, indica que aquele espaço alternativo nunca seria exatamente seguro para ela ou propriamente seu, sobretudo quando aquela união instável e pouco sólida se fragilizasse ainda mais. Já Jo, ao buscar por amor, acaba desiludida e grávida, o que atenua a sua depressão e a dissuade ainda mais de ideais familiares e de uma suposta felicidade que poderia advir da maternidade — assemelhando-se, assim, à Helen. É nesse sentido que a casa e a configuração familiar foge ainda mais de qualquer expectativa tradicional: assim como apontado por Lee, a família mais estável que Jo pôde encontrar foi formada junto a Geoffrey, seu amigo homossexual, em uma conjuntura completamente assexual e de respeito mútuo e parceria no reconhecimento de uma vulnerabilidade partilhada.
Essa formulação de um novo “núcleo” familiar (resultante de uma personalidade mais jovem e desconectada dos preconceitos da época) é desafiada pelo eventual retorno de Helen. A mãe de Jo aparece profundamente incomodada com a filha — grávida de um marinheiro negro que não retornaria de seu ofício — e com o seu amigo homossexual que agora ocupava o seu espaço. Helen se incomoda com a presença de Geoffrey independentemente de ele ser uma presença positiva para as duas mulheres, vulnerabilizadas e estigmatizadas, e o que Lee aponta como uma “queerização da esfera doméstica” que torna a casa finalmente habitável é rapidamente desprezada. Ainda que as duas sejam mães solteiras e favoráveis a alguma liberdade sexual e fugas de papéis de submissão, Helen não alcança a disrupção do discurso hegemônico dos anos 1960 por inteiro e criminaliza, junto ao Estado inglês, a existência de Geoffrey. Para além disso, a personagem encara a distorção dos mesmos papeis de gênero que inconscientemente desafia ao se incomodar com os itens de bebê sempre providenciados pelo rapaz, que acaba por assumir um papel duplamente materno e paterno, já que oferece ao bebê um acolhimento e afeto normalmente associado ao cuidado feminino, enquanto Jo se comporta de modo negativo em relação à criança.
É importante perceber, em última análise, que os ideais conflitantes que surgem no espaço de encenação não afetam apenas aquele núcleo familiar de existência já questionável, mas o próprio modelo de nação e sociedade inglesa, formado em moldes poucos flexíveis. è importante pensar na relevância das representações arriscadas trazidas por Delaney em um período em que relações interraciais eram tidas como problemáticas e que a homossexualidade era ilegal. Para além disso, é importante pensar na potência das personagens femininas que fogem, ainda que em instâncias diferentes, de passividade, submissão e conformismo. Essas experiências de feminilidade (ou de contestação à essa feminilidade) são fundamentais no entendimento da alteridade feminina no contexto do pós guerra, sobretudo em um movimento majoritariamente marcado por personagens masculinos e seus dilemas, criados por um coletivo de “Angry Young Men” do qual Delaney se deslocava enquanto mulher. A potência discursiva da curta peça põe à prova concepções vigentes de gênero de família ao utilizar de artifícios teatrais diversos para representar uma relação entre mãe e filha que ora se adequam e ora se rebelam à si mesmas e às conjunturas do Estado britânico, em uma exploração densa das possibilidades e limitações da vivência humana.
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É graduanda em Letras - Inglês e literaturas na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e bolsista do projeto de extensão Literatura Inglesa Brasil, sob orientação da Profa. Dra. Marcela Santos Brigida.

