O conto “The Yellow Wallpaper” foi publicado pela autora estadunidense Charlotte Perkins Gilman na edição de janeiro de 1892 da New England Magazine e acabou sendo muito repercutido por tratar de temas muito relevantes para a causa feminista e por promover reflexões acerca dos tratamentos médico e familiar dado à mulheres. O texto, escrito em forma de diário, apresenta as páginas de uma jovem esposa em crise física e emocional, e o conteúdo do livreto é mantido em segredo, produzido em isolamento e desconhecido pelo seu núcleo familiar. A narração angustiante revela uma casa de veraneio de aspecto grotesco. A e mulher é confinada a um quarto no topo da instalação como medida de descanso para a cura de uma “certa tendência histérica” percebida após o parto de seu filho.
O enclausuramento e o repouso total são indicados pelo marido, um médico de grande renome, e a própria mulher se sente desamparada com seu diagnóstico e prognóstico. Quem poderia questionar o tratamento de sua “depressão dos nervos”, senão o homem acolhedor com quem dividia a vida? Como ela poderia admitir que seus tratamentos genéricos simbolizavam uma negligência emocional e do seu bem-estar? O diário se torna o único confidente de uma mulher que carece de um entendimento honesto, que é pouco incentivada a entender as próprias emoções e necessidades e exercer algum tipo de atividade, ainda que esta lhe promovesse algum prazer na condição não considerada da depressão pós-parto. Essa condição acaba sendo transposta para a casa colonial, que se metamorfoseia tanto em um lugar no qual ela tenta achar algum contentamento, quanto em prisão e principal palco para a desordem mental se manifestar.
A personagem é isolada sem que lhe seja facultada a possibilidade de discordar daquelas medidas, de fazer o que acreditava ser melhor para si: o testemunho do ofício da escrita se transformava em motivo de assombro, bem como o contato daquela mãe com o bebê ou até mesmo com alguém da residência. Ainda que essas desaprovações sejam sempre estritas, John estava sempre fora a cuidar de algum caso urgente e a irmã dele também não oferecia companhia, mas igual oposição à qualquer tipo de trabalho que a mente da mulher pudesse vir a ocupar. Essas questões não eram específicas da casa que a ficção de Gilman estrutura, já que a própria autora experienciou um tratamento parecido, indicado por um especialista em saúde mental. A ficcionalização criada pela autora demonstra que muitas mulheres de classe média em precarização da saúde mental ou que se encontravam infelizes na esfera doméstica eram submetidas a regimes de medicalização semelhantes. A dominação masculina incorporada por John encontra, então, o respaldo médico para desmotivar o trabalho intelectual e o desejo por alguma participação social da mulher moderna: o distanciamento do mundo doméstico para o exercício da fruição ou do próprio desenvolvimento pessoal era colocado como adoecedor e exaustivo, e a tentativa de redocilização se baseou na prisão da consciência e do livre arbítrio, bem como na geração de desconfiança quanto às próprias capacidades.
Ainda que a criança da qual é afastada não tenha aparição física na obra, ela se mantém como um importante objeto significativo: o lugar não ocupado da maternidade tradicional gera ansiedade, já que o sofrimento mental não permite conexão emocional. Para além disso, revela como a imposição do papel materno tradicional acaba sendo danoso ao não considerar as necessidades da própria mulher, que muitas vezes perde o seu “eu” para a devoção total ao papel materno e é negada a possibilidade de sentir emoções negativas na experiência de maternidade. Enquanto a criança se desenvolve de maneira saudável aos cuidados de Mary em outro cômodo, a mãe definha e destina seus cuidados maternos ao papel de parede do quarto nauseante que, na verdade, pertenceria à ele (e agradece por ser ela a ocupar aquele lugar). A pressão da maternidade se manifesta em estes relances de cuidado (ainda que desviado do objeto inicial), nos mistos de culpa e alívio em se ausentar da posição materna e desta pressão social.
É o descontentamento e o tédio do ócio que também trazem ênfase a este papel de parede amarelo, cujos trejeitos ficam cada vez mais aterrorizadores ao longo do conto: suas descrições ganham contornos psicodélicos em meio à paranoia e sensibilidade adquirida pela mulher, que são aumentadas pela percepção de barras na janela e da cama pregada ao chão da casa colonial, que intensificam ainda mais o aspecto violento de sua reclusão. Os dias sem sol revelam um odor peculiar, e a mulher não nomeada se sente vigiada por outras mulheres, por olhos vidrados e oprimida incontáveis outros signos presentes nas paredes amarelas e na negligência. A inexistência de um mal físico visível a acometer a esposa e explicitar o seu abandono satisfaz John, que se torna a causa de seu mal estar nas poucas cenas em que toma o seu lado — o ar se tornando cada vez mais rarefeito à medida em que passa a desacreditar do próprio potencial de se encontrar, encontrar companhia e refúgio. A mulher é relegada a não apenas a vislumbrar mulheres presas naquela situação, mas a também crer ser uma delas, como se tivesse surgido de lá e não tivesse uma vida própria prévia à sua condição de esposa e cativa.
É visível que o conto ainda tem suas reverberações na sociedade contemporânea, sobretudo com a insurgência de discursos que insistem em um rebranding da inferiorização feminina e reclusão ao ambiente doméstico e à devoção, bem como a ondas de violências de gênero cada vez mais alarmantes.
