Arundhati Roy é uma escritora muito conhecida pelo seu livro ganhador do Prêmio Booker, intitulado O Deus das Pequenas Coisas. A autora também é uma influente ativista política, tendo diversos escritos sobre o fascismo, questões ambientais e justiça social associados a uma extensa história de ativismo em outros meios. Nascida em 1961 no estado da Índia de Maghalaya, Roy é filha de um homem hindu bengali, administrador de uma produtora de chá, e de uma mãe cristã que atuava como educadora e ativista. A matriarca, Mary Roy, foi uma grande influência para a sua filha e para outras mulheres, lutando ativamente pelos direitos de herança para mulheres na Índia. No entanto, esse exemplo de força contrastava com uma postura muito autoritária dentro da própria casa — que ocasionou diversas tensões entre as duas ao longo da vida de Arundhati Roy, que morava com a mãe após a separação de seus pais. Essas memórias foram abordadas em seu memoir Mother Mary Comes to Me e se tornaram fundamentais para a sua decisão de buscar independência ainda muito jovem: aos 18 anos, enquanto estudava arquitetura na Universidade de Delhi, Roy decidiu viver por conta própria, ainda que passasse por algumas dificuldades.
Já nessa época, ela já ansiava por uma carreira na escrita, mas passou por diversos ofícios de caráter mais artísticos ou técnicos antes de passar a efetivamente escrever. Sua carreira teve início ao começar a redigir roteiros como In Which Annie Gives It Those Ones (1989), no qual também atuou como atriz, Electric Moon (1992) e outros dramas televisivos. Sua carreira na área, no entanto, foi pausada após Roy publicar alguns artigos fortemente retaliados sobre um filme de tema polêmico. A partir desse momento, a autora passou a focar mais diretamente em sua carreira literária, tendo como principal foco seu livro de estreia, que já estava em andamento.
O primeiro romance de Roy, O Deus das pequenas coisas, foi lançado no mesmo dia da independência da Índia, em 1997, e conquistou para a sua autora, além de uma notável apreciação crítica e comercial, o primeiro Booker Prize recebido por uma escritora indiana. A narrativa segue os irmãos gêmeos Rahel e Eshta, filhos de uma mãe que foi marginalizada pela sociedade, sendo mesmo exilada da própria família no sul da Índia na década de 1960. Escrito em uma linguagem poética e lúdica que é própria da obra, o livro navega por diferentes momentos, não seguindo uma ordem cronológica, para, enquanto um romance histórico, dissecar a vida dos diferentes personagens da família em meio a uma sociedade marcada por conflitos políticos e sociais entre comunidades. A história tem como centro narrativo uma vila tropical em Kerala, um estado indiano que, pouco depois do país tornar-se uma república, teve como primeiro governo um partido comunista, o que despertou uma onda de insatisfação por parte da comunidade cristã síria, da qual a família faz parte. O livro viaja pela infância dos gêmeos, pela vida deles e de seus familiares, e pela realidade difícil de uma sociedade conservadora que ainda estava lidando com o colonialismo, que, como posto por seu narrador onipresente, “havia se difundido por Kerala como o chá de um saquinho no bule”.
Depois de seu primeiro romance, Roy retornou a publicar a sua escrita de não-ficção em ensaios e artigos sobre variadas questões relacionadas ao imperialismo americano, ao colonialismo, ao capitalismo, e as suas consequências ambientais, sociais e culturais. Muitos de seus trabalhos se debruçam sobre a história contemporânea de diferentes países em níveis locais e geopolíticos, ativamente trazendo atenção jornalística a esses problemas em tempo real. Refletindo esse rigor social e teórico, a sua escrita ensaística, principalmente em obras como The Algebra of Infinite Justice, An Ordinary Person’s Guide to Empire, e The Cost of Living, entre outras, consagrou a autora como uma pensadora importante da atualidade.
Publicado vinte anos depois de sua estréia na ficção, o seu segundo romance The Ministry of Utmost Happiness (2017) apresenta uma narrativa similarmente fragmentada e desprovida de uma ordem cronológica. Elencando personagens de uma miríade de contextos, com histórias conectadas pela narrativa, a obra tenta englobar a diversidade de vozes e de tensões sociais e políticas na história moderna da Índia. O romance traz foco narrativo para a vida de grupos marginalizados na sociedade indiana, como membros de castas consideradas inferiores e “intocáveis”, minorias religiosas, e a comunidade de pessoas transgênero hijra, como uma dos personagens principais. A narrativa tenta retratar as raízes dos conflitos, como a repartição de Paquistão e Índia em territórios distintos, entre muitas outras, assim como os seus episódios de violência no agora do enredo.
O forte ativismo de Roy em questões humanitárias e ambientais frequentemente a coloca em posições de conflito com as autoridades indianas, já que muitas de suas colocações são oposições diretas ao governo. Dentre suas participações políticas, está o movimento contra o represamento do rio Narmada, e sua reação após muitos ataques por ela recebidos resultou em sua multa e prisão de um dia por desacato. Tal episódio foi retratado no documentário Dam/Age (2002). Por sua defesa dos direitos humanos, recebeu vários prêmios, incluindo o Lannan Cultural Freedom Prize (2002) e o Sydney Peace Prize (2004), além de ter recebido também outra honraria por seu trabalho contra o sistema de castas e ser amplamente conhecida por seu trabalho de não-ficção. A Academia de Letras Indiana tentou conceder-lhe o Sahitya Akademi Award em 2006 por sua coleção de ensaios The Algebra of Infinite Justice, mas Roy recusou o prêmio por não concordar em aceitar uma honraria de uma instituição ligada ao governo que criticava. No âmbito literário, em junho de 2024,a autora recebeu o PEN Pinter Prize, que reconhece escritores que demonstram determinação intelectual para revelar e questionar a realidade de suas sociedades.
