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A exploração e o feminino em As alegrias da maternidade, de Buchi Emecheta5 min read

De autoria de Buchi Emecheta, já previamente homenageada como nossa autora do mês, o romance As alegrias da maternidade explora narrativas multigeracionais de mulheres e mães entre o vilarejo e o espaço urbano colonial de Lagos, na Nigéria. Publicado em 1979, ele explora as dissatisfações com a experiência da maternidade do núcleo familiar de Ona e Nnu Ego, a medida em que a realidade de suas vivências foge de uma expectativa criada pela supervalorização da capacidade de gestar. O texto evoca como mulheres são historica, cultural e socialmente criadas para produzir filhos saudáveis, mas que são desamparadas cumprindo ou não esse papel. Nessa ótica, as potencialidades femininas são drasticamente reduzidas às demandas exaustivas da vida doméstica, em uma sociedade dependente da exploração feminina.

Esses efeitos desdobram-se tragicamente sobre mãe e filha, ainda que em temporalidades e dimensões distintas.

Apesar de Ona, matriarca da família, possuir certa autonomia e recusar a submissão advinda do casamento institucionalizado em seu relacionamento, a pressão social da maternidade ainda pôde lhe impactar psicologica e fisicamente. Após enfrentar uma dolorosa perda gestacional, Ona tem a oportunidade de trazer Nnu à vida, mas acaba por falecer no parto em que conceberia um descendente homem para Agbadi, um respeitado chefe local. A jovem protagonista herda essa história de traumas, mas acaba por viver sem experienciar alguma liberdade similar à da mãe: ao contrário de Ona, Nnu Ego experiencia o desamparo e é assolada por costumes patriarcais cada vez mais pungentes, estando sob a tutela das figuras masculinas do pai e dos maridos, com perdas crescentes de autonomia. 

Em um contexto em que ser uma boa esposa e uma boa mulher coincide com a capacidade reprodutiva, Nnu é devolvida ao pai após falhar em sua função esperada dentro do núcleo familiar. A rejeição que sofre é exacerbada pela reduçao de perspectivas de um segundo casamento, tendo em vista a perda de sua “pureza” e um histórico tido como insatisfatório, ainda que pertença a uma família de prestígio. A atribuição da culpa sob tal contratempo à mulher pela família e por si mesma, em uma percepção cada vez mais afetada sobre a própria capacidade, demonstra um aparato de redenção e sacralização daquelas figuras masculinas. Em nenhum momento a capacidade biológica ou espiritual do marido é questionada e este não é exposto a nenhuma condição vexatória ou perde seu papel social.

Há uma constante denúncia dessas violências de gênero conforme o andamento do romance, especialmente quando eventualmente Nnu desafia sua suposta incapacidade após casar novamente. A passagem de Nnu por diversos cenários em que ocupa posições distintas também ajuda a desvelar mais intensamente as mudanças no território e tecido social africano conforme a colonização britânica se intensifica, e questões socioeconômicas passam a se proliferar na malha textual. Quando esta se casa com um trabalhador chamado Nnaife e sai do meio rural para o espaço colonial da cidade, o seu papel social outrora ainda atrelado a comunidade passa a ser mais visivelmente permeado pela lógica capitalista. O papel de Nnu dentro do contexto familiar também é modificado e a exaustão da vida doméstica se intensifica, sobretudo com a presença eventual de filhos numerosos. O desgaste psicológico de Nnu escalona devido ao trabalho doméstico não reconhecido e também pelo trabalho informal, e a completude que deveria advir de uma próspera família é substituída por uma sensação de aprisionamento. As suas vontades pessoais e autonomia vão sendo esmigalhadas pela necessidade de educar e criar as crianças sozinha, com pouca consideração por sua condição psicológica, enquanto o marido é cada vez mais desintegrado da família pela submissão aos interesses do mercado e da exploração. 

A denúncia de uma ausência de solidariedade para com Nnu e da desintegração do eixo familiar é intensificada em espirais de vulnerabilidades e crises. Há uma incompreensão generalizada que precede os quatro filhos, uma rede de lutos profundos e falta de acolhimento enquanto mulher e esposa, que piora em meio aos sequenciados afastamentos de Nnaife. Já o direcionamento individualista tomado pelos filhos, aflorado pela educação colonial, gera um abandono singular da figura de Nnu: ainda que criados em grande proximidade com a mãe, estes são removidos de sentimentos comunitários advindos da cultura Igbo ou de gestos de gratidão, e Nnu é afastada de qualquer recompensa pelo seu árduo esforço. Para além disso, há uma recusa em entender minimamente a sua subjetividade para além de sua contribuição dentro da categoria de cuidadora.

Ainda que tantos percursos tenham feito com que Nnu reavaliasse seus julgamentos sobre si mesma e sobre o papel análogo ao do “anjo do lar” que foi levada a tomar como ideal para si, Nnu não pôde escapar de ser reduzida a ele pelo olhar coletivo. As disputas de poder no espaço sociopolítico nigeriano e as constantes mudanças perceptiveis na linha do tempo da obra traduzem-se diretamente nas tensões domésticas e na reconfiguração das estruturas familiares, com um peso muito característico nas figuras femininas. A construção da trama de As alegrias da maternidade traz uma profunda crítica ao esvaziamento e abandono dessas subjetividades dentro das logicas patriarcais e que se exacerbam através dos processos de dominação e acumulação capitalista 

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É graduanda em Letras - Inglês e literaturas na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e contribui com textos para o projeto de extensão Literatura Inglesa Brasil, do qual já participou como bolsista. Tem como principal interesse de pesquisa a literatura contemporânea, atuando sob orientação da Profa. Dra. Marcela Santos Brigida.

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