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As implicações afetivas do gosto em Hungry (2021) de Chris BushLeitura em 7 minutos

Apresentada pela primeira vez em 2021 e publicada como playtext no mesmo ano, Hungry é uma peça que concentra importantes questões relacionadas à classe no Reino Unido contemporâneo ao tratar, principalmente, da relação das pessoas com a comida. Na obra, a autora Chris Bush retrata a história de um casal de duas mulheres, Lori (descrita na lista de personagens como “branca, entre os vinte-e-tantos e trinta-e-poucos”), e Bex, (“negra, vinte e dois anos”), cada uma com um relacionamento diferente com a comida. Enquanto Lori é uma chef profissional que detesta a cultura dos fast-food e consome somente alimentos orgânicos, Bex é uma garçonete que só está tentando se sustentar e cujas “comfort foods” costumam ser processadas. Explorando esses gostos que parecem apenas pessoais à primeira vista, a peça trabalha as implicações afetivas da desigualdade socioeconômica e medita sobre diferentes maneiras de conviver com essa realidade.

A narrativa parte do entendimento de que a relação com a comida está, em muitos aspectos, inserida no sistema capitalista e que, por causa disso, é um reflexo da disparidade social e da cultura alimentar que se constrói com ela. Bush argumenta que, por mais que tenha o incentivo do consumo ético e saudável de produtos orgânicos, localmente produzidos, e livres de crueldade, estes bens não são produzidos em massa para alimentar a população geral. “Uma alimentação ruim é raramente apenas o resultado de escolhas ruins”, como salienta a autora, “ela é inegavelmente afetada pela classe e pela precariedade financeira, junto da força de outros fatores”. 

Ao entrar em um relacionamento com Bex, Lori imediatamente se coloca em uma missão de reparar as escolhas ruins da alimentação de sua namorada e mostrar a ela que “há um mundo para além de nuggets de frango”. Seu desejo é de cuidar de Bex e a alimentar, em atos de amor que realmente ocorrem durante a história, mas esse cuidado logo toma dimensões morais em volta da idealização de tornar Bex, e o mundo, melhor. Nos olhos da chef, o relacionamento se torna uma maneira de salvar Bex do sistema, e do que Lori acredita ser o destino de Bex, pensando não só no cotidiano alimentar da maioria da população, mas na família dela. 

I’m not asking you to rewrite your personality. I’m not asking you to turn your back on the people who raised you. I’m just asking you to do…something. […] Suggesting that you do something – anything – that you don’t drop out of college for a second time, that you take yourself seriously and figure out what it is you love – that doesn’t make me a bad person, doesn’t make me a snob, and it doesn’t make you a class traitor.

A peça é encenada somente pelas duas personagens e, como outros títulos da autoria de Bush, alterna-se entre duas linhas do tempo, Then e Now, da cronologia do relacionamento. Ao que esta apresenta o agora, tomando o espaço de uma tarde, a outra retrata desde o primeiro encontro entre as personagens até o que as levou ao presente. Then retrata os esforços de Lori, que vão de expandir os horizontes culinários de Bex para mudar os rumos de sua vida, mesmo sugerindo-a que tentasse ingressar na universidade uma segunda vez. 

Now mostra as consequências dessa visão dentro do relacionamento. Já distantes uma da outra, as duas se reúnem no dia do funeral da mãe de Bex, que morreu devido a complicações de sua obesidade e alimentação. As personagens se sentem livres para confessar suas opiniões sobre uma e outra, agora explicitado o fantasma que pairava sobre ele. A mãe de Bex (e o seu fim) era aquilo que sua namorada estava tentando a salvar de se tornar. 

No entanto, é a morte da mãe de Bex o que finalmente dá a ela voz para romper com a escuta passiva que o relacionamento com Lori requeria, e embora Lori não possa escutá-la, por se tratar de do pensamento de Bex, quem assiste a peça/lê o drama fica com um monólogo vivo, marcado pela fúria de um luto pela mãe, pelo relacionamento e pela ideia do que ela mesma, e sua mãe, e, em extensão, o mundo, “poderiam ter sido”. Isto é, pelo que elas poderiam ter sido se não estivessem confinadas tanto à violência institucionalizada da baixa qualidade de vida, quanto a violência epistemológica e social de terem o que elas consomem, a maneira que consomem, e por consequência, quem elas são, julgadas tão pobremente. 

Y’know she was always big – always had an appetite – but it only really became a problem when she felt like she had to hide it. That’s when it got bad. That’s what you did to her – people like you – you made her feel ashamed. And when you feel shame you seek comfort, and you feel lesser you seek comfort, and when you feel judged for every choice you ever made and every choice that was already made for you… (Gestures to the food around them.) This isn’t what killed her, this is what made her life worth living. 

O desabafo registra que o sistema, que Lori tenta combater no relacionamento, não apenas origina a precariedade das condições de vida de Bex e sua família, mas inscreve a subjetividade deles na precariedade e designa os significados sociais de acordo com o consumo. A expressão que ecoa pelo drama, “você é o que você come”, ainda não é desmentida na tentativa de Lori de re-educar Bex – o ato também é um “alpinismo social” que implica como piores não apenas as condições de vida, mas as escolhas, a moralidade, a inteligência e o caráter de Bex e sua família.

Outro ponto principal do discurso e da peça consta que a maneira que Lori emprega de “melhorar” Bex, o “alisamento de todos os nós nos cachos da sua vida” (as implicações raciais sendo apontadas por essa metáfora no texto de Bush), é também um assinalamento de autoridade. Assim como Bex e sua mãe têm o seu valor designado pela maneira que consomem, o que consomem , a sua sobrevivência é também uma maneira de sobreviver a como são material e socialmente inseridas. A sobreposição desta sobrevivência por outra nega mais uma vez as suas vozes, além de instrumentalizar a própria voz de Lori não como sua subjetividade, sua própria maneira de sobreviver, mas como um dever para melhorar o mundo. 

Ao todo, Chris Bush encena em Hungry um estudo de classe no capitalismo contemporâneo, criticando a maneira que se enxerga, mesmo dentro de círculos progressistas, a maneira que consumimos e o que consumimos. Tendo comida como seu ponto de foco, a peça não está falando só dela, ou do consumo ético, mas das relações que mantemos com o mundo, que são amplamente afetadas e mediadas por classe e outros fatores sistêmicos. A obra lança luz sobre os significados sociais que ficam implícitos nessas relações, compreendendo a presença de tanto uma herança da desigualdade quanto das técnicas de sobrevivência à violência dela. A peça não pede o fim da crítica ao sistema, ela pede a atenção à maneira que o discurso carrega e reinscreve a leitura social, e pelo fim da autoridade na crítica. Como outras obras da autoria de Bush, Hungry pede empatia. 

Publicado por

É graduando em Letras - Inglês/Literaturas na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e bolsista do projeto de extensão Literatura Inglesa Brasil, sob orientação da Profa. Dra. Marcela Santos Brigida.

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