“Era o pior dos tempos, era o pior dos tempos.”[1] Assim se inicia Autumn (2016, p. 3), romance de Ali Smith que cita de forma quase literal a renomada abertura de Um conto de duas cidades (1859), de Charles Dickens. A substituição de uma única palavra, pior no lugar de melhor, criando uma repetição dentro da famosa frase, altera o sentido da citação e estabelece o diálogo com a tradição literária inglesa que será desenvolvido pela autora ao longo do romance. Mais do que uma referência pontual, esta retomada de Dickens evidencia o projeto intertextual que se apresenta na obra de Smith e orienta sua leitura no presente.
Autumn é o primeiro volume de seu quarteto sazonal, conjunto de romances em que Smith se propõe a escrever em relação com sua própria contemporaneidade e contexto histórico. O ritmo acelerado das publicações de cada volume, então, eram também parte integral do projeto; de acordo com uma entrevista dada pela autora para o The Guardian (Armitstead, 2019), cada livro, ou seja, cada estação, deveria responder quase imediatamente aos acontecimentos recentes do ano em que foram publicados. Neste sentido, Autumn articula discussões sobre a votação do Brexit, em voga na época, a ascensão do trumpismo e de discursos nacionalistas extremos no Reino Unido, bem como a crise migratória que marcou a Europa naquele período.
Ao longo do romance, Smith mobiliza referências provenientes de diferentes tradições artísticas e literárias, que vão de Um conto de duas cidades, de Dickens, e A tempestade (1611), de William Shakespeare, a pop art e manchetes jornalísticas. Essas alusões ajudam a aprofundar a compreensão do leitor sobre a sua história. Em entrevista concedida à Penguin UK em 2020, Smith afirma que “Livros, eu sempre acreditei, não são realmente escritos por escritores, mas por tudo aquilo que essa pessoa já leu. É a escrita que já existe que gera a escrita”. Toda obra literária se constrói, então, a partir de outras vozes e narrativas já existentes, e esta conexão entre textos ilumina a elaboração crítica que será feita sobre um dado livro ou escrito. Ou seja, toda obra se vale do processo de intertextualidade.
Em seu artigo “Intertextuality – Origins and Development of the Concept”, María Jesús Alfaro (1996) nos lembra que a intertextualidade é uma noção antiga: já em Aristóteles vemos a ideia de que aprendemos imitando, e, para além disso, Cícero afirma que a imitação não é a simples repetição, mas também interpretação e transformação, tendo transformação aqui como palavra-chave. No século XX, Mikhail Bakhtin amplia essa noção ao afirmar que todo discurso é dialógico, e que cada palavra carrega sempre murmúrios de outras palavras, outras vozes e discursos. Julia Kristeva (1974) traz essa ideia mais firmemente para o campo da teoria literária, dizendo que “todo texto se constrói como mosaico de citações, todo texto é absorção e transformação de um outro texto” (p. 146). A intertextualidade, então, é a própria condição do texto literário: ela existe em diálogo com o passado e com o repertório cultural do autor e do leitor, e se constrói a partir desse amálgama de vozes. Ela evoca na mente do leitor um conceito, consciente ou inconscientemente, e assim dá profundidade ao texto. É como uma colagem, onde o autor sobrepõe elementos diversos, e cabe ao leitor fazer a junção e interpretação de todas essas instâncias como um todo significativo.
No caso de Autumn, Ali Smith oferece sua nova interpretação dessas obras do cânone literário inglês e as coloca efetivamente no presente, evidenciando sua imortalidade e mudando, assim, até o próprio entendimento do leitor sobre o que textos mais antigos podem significar quando reinseridos em um contexto contemporâneo. Com isso, Smith não enriquece apenas o seu texto, mas também os textos que referencia. Como disse T.S. Eliot, em seu ensaio Tradition and the Individual Talent (1919), “o passado deve ser alterado pelo presente tanto quanto o presente é direcionado pelo passado” (p. 55). Desta forma, quando em Autumn Ali Smith faz referência a A tempestade, por exemplo, ela não está fazendo uma simples alusão. O que se inicia é um processo de resgate na mente do leitor de todo um interdiscurso cultural que se tem por trás desta peça, a fim de colorir e dar dimensão à sua obra.
De acordo com David Lindley (2013), em sua introdução a A tempestade na edição The New Cambridge Shakespeare, esta é uma peça cujas interpretações ao longo dos séculos variaram consideravelmente. Uma dessas interpretações, muito prevalente, é a de que seus temas tratam de colonialismo e imperialismo, do medo do estrangeiro e do que é diferente que se transforma em violência ou tentativa de controle. Em 2016, quando Ali Smith lança Autumn, existe no Reino Unido um contexto de ascensão do fascismo e do discurso do “nós contra eles”. A invocação d’A tempestade neste momento serve como um índice de um dos temas que será trabalhado durante o livro todo, e também como um lembrete de que discussões deste teor vêm sendo pauta da literatura há séculos. O escritor e seu público não existem isoladamente, falando apenas de uma situação única em um ano específico. Estas discussões são antigas, e fadadas a se repetirem ao longo dos anos.
Patricia Marouvo (2022) fala do paralelismo dessas duas obras muito claramente em seu ensaio “Autumn, de Ali Smith — uma colagem modernista na contemporaneidade”. Ela diz que a monstruosidade do personagem Calibã “é ecoada nos discursos eurocêntricos e racistas que ganham contornos no romance de Smith, admitindo a leva de refugiados que procuravam asilo em 2016 como uma horda descontrolada que desestabilizaria a economia e sobrecarregaria o sistema de saúde britânicos” (p. 116). Isto fica exemplificado no romance em diversos momentos, como quando Elisabeth Demand, uma das personagens principais do livro, encontra as palavras “Vão para a casa” (Smith, 2016, p. 53) escritas em caixa alta na porta de uma casa em sua vila. Ou quando a mesma personagem vê um casal de espanhóis esperando para pegar um táxi, e esse casal é discriminado por ingleses que estão atrás deles na fila. Esses ingleses dizem “Voltem para a Europa” e “Aqui não é a Europa.” (Smith, 2016, p. 130).
Mas, se em relação a Shakespeare vemos a intertextualidade dessa obra se desdobrar em questões coloniais e medo da alteridade, em Dickens essa conexão é ainda mais visceral, porque Ali Smith não apenas o cita diretamente, mas também o subverte. Charles Dickens abre Um conto de duas cidades com a frase “Era o melhor dos tempos, era o pior dos tempos” (1998, p. 46), e todo o parágrafo de abertura do livro estabelece as contradições da época da Revolução Francesa. Ele fala de esperança e pessimismo, de liberdade e opressão. Essencialmente, de dualidades. Mas Ali Smith faz a substituição de uma única palavra, e muda todo o clima de seu livro. Era o pior dos tempos, era o pior dos tempos. Em Autumn, existe pouco espaço para o otimismo. Não são os melhores e os piores dos tempos; são apenas os piores dos tempos. A autora segue a abertura dizendo que as coisas sempre se desintegram, e sempre irão se desintegrar, tal como o início do processo de desintegração da natureza durante o outono, estação que guia a atmosfera simbólica do romance.
Adicionalmente, a relação de Autumn com Dickens vai além da citação em diversos aspectos. Um deles é o de se inspirar nas obras de Dickens como obras que falavam do “Estado da nação”. De acordo com o site British Heritage, que nomeia Charles Dickens como “o romancista do povo”, ele era um escritor profundamente atento aos conflitos que se davam em seu tempo. Em obras como Oliver Twist (1838) ou Hard Times (1854), por exemplo, ele denunciava as injustiças sociais da era vitoriana enquanto elas aconteciam. Ele tinha a estrutura do presente escrito no presente que Ali Smith quer invocar aqui com todo o seu projeto do quarteto sazonal. A votação do Brexit, por exemplo, se deu em junho de 2016, tendo a maioria dos votos a favor da saída do Reino Unido da União Europeia, e o livro Autumn foi publicado em outubro do mesmo ano, menos de quatro meses depois. A autora trata o assunto da votação no livro, descrevendo a personagem principal andando pela rua e vendo uma cerca elétrica que é erguida entre dois lotes de terreno em sua vila. Uma barreira física representando a barreira moral e política que dividiu a nação.
Terry Eagleton, em The English Novel (2005), sugere que a ficção pode ser mais eficaz em descrever a realidade do que a realidade em si. Este é o trabalho do romance, ser um modelo da sociedade moderna, mesmo quando ele se volta para o passado. De acordo com Eagleton, o romance pode refletir o tempo em que vivemos sem se preocupar em dar ao leitor alguma esperança, e realçar apenas os elementos mais cruciais de um momento histórico (p. 11). Nesse sentido, quando Ali Smith está descrevendo um episódio efêmero como a briga na fila do táxi, antes mencionada, ou o momento em que Elisabeth Demand vê que uma enorme cerca foi erguida ao redor de um enorme pedaço de terra vazio em sua vila (Smith, 2016, p. 55), ela também está denunciando uma crise nacional, o aumento da hostilidade com estrangeiros que é muito real no presente, e que se dava no exato momento da elaboração do romance.
Ao recorrer a essas obras canônicas da literatura Inglesa, uma no século XVII, outra no século XIX, e a oportuna publicação de Autumn no século XXI, Smith está, na verdade, expondo a terrível ciclicidade da história. Em todos esses textos existe a conexão da opressão, do conflito de classes, e do ódio. Estamos até hoje na literatura falando das mesmas coisas, e é isso que as escolhas intertextuais de Ali Smith denunciam, o eco de um discurso ao longo de séculos, que perpassa países e culturas, e que se mantém, em seu cerne, o mesmo.
Em vista de acontecimentos recentes de deportação em massa e da nova ascensão do ódio aos imigrantes que ocorrem nos Estados Unidos e na Inglaterra no anos de 2025 e 2026, o discurso do “nós contra eles” fica de novo em pauta. Retorna-se à questão do que efetivamente mudou, e como será possível libertar-se dessas amarras. Autumn deixa a provocação de que esta é apenas a natureza dos acontecimentos, da história, como tudo sempre foi e sempre vai ser. Mas o romance, ao mesmo tempo, não está totalmente desprovido de otimismo, e de insinuar que mesmo que não possamos fazer nada para quebrar o ciclo, de qualquer forma, o mundo continua avançando. Afinal, após o outono e o inverno, temos o renascimento da primavera e do verão, como sugerem os títulos de cada volume do quarteto sazonal. São questões desconfortáveis que sempre existiram na literatura, e Ali Smith não se propõe a oferecer respostas, mas a própria elaboração da pergunta é importante para iniciar o processo de reflexão.
[1] Todas as citações do inglês tem tradução minha para o português.
Publicado por
Ana Clara Cobra
É graduanda em Letras - Inglês/Literaturas pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), monitora da disciplina de Cultura Inglesa II e voluntária do projeto de pesquisa “A kind of keeping the novel novel project: uma nomadologia do romance contemporâneo na literatura inglesa”, sob orientação da Profa Dra Patricia Marouvo.
