“I don’t know if I will be able to get you to see her the way I saw her. I worry that if I cannot make you fall in love with her inexplicably, inexorably, and immediately, the way I did, then you will not be experiencing this book in the way I hope you will.”
Logo nas páginas iniciais da novela Women, a personagem de Chloe Caldwell expressa, em diálogo com o leitor, como o seu desejo para a história era transmitir toda a intensidade do seu primeiro apaixonamento por uma mulher. Acompanha-se a protagonista desde um pouco antes desse momento de gradual descoberta, no seu processo de tentar desenrolar um “grande novelo de lã” através das páginas que se apresentam ao leitor – desde o seu descobrimento ao entendimento do que sente por Finn e aos caminhos percorridos dentro dessa relação até seu eventual fim.
A personagem cresceu com a mãe em sua cidade natal e, durante muitos anos, ambas foram vizinhas de um casal lésbico, encontrando-as ocasionalmente no cotidiano da região. No entanto, as duas mantinham uma distância simbólica em relação a essas mulheres, quase sempre referidas apenas como “as lésbicas”, em uma demonstração de pouco interesse para as suas individualidades ou para a criação de um convívio mais sólido. Esse isolamento parece se refletir no distanciamento que a protagonista parece tomar da própria sexualidade, já que demora a entendê-la ainda que se torne cada vez mais obcecada pela figura peculiar de Finn, uma butch cerca de 20 anos mais velha que conhece em um evento literário. A escritora em ascensão troca e-mails e mais e-mails com a mulher, e eventualmente se muda para a sua cidade, sem perceber que Finn estava entre as razões de sua escolha: sua presença se torna cada vez mais frequente no texto e mais física e, concomitantemente, seus relacionamentos com homens se tornam cada vez menos significativos, ainda que o seu apaixonamento por Finn não estivesse plenamente entendido entre as duas.
A transposição fragmentária dessas experiências com seu futuro par romântico faz com que se crie uma relação íntima de aproximação com a narradora e seus sentimentos, a medida em que esta os retoma e expõe ao leitor em um tom conversacional simples, mas interessante e efetivo. Desde o início, tem-se uma grande imersão em Finn e no que ela passa a significar para a narradora em meio à diversas incertezas quanto à intenção de sua aproximação. A não-linearidade da história nos faz ir e voltar em momentos desse relacionamento, e o não dito e os pequenos cortes nessa temporalidade funcionam muito bem para transmitir sentimentos que devem se manter confusos, estranhos ou meio perdidos enquanto memórias. Nesse sentido, o dinamismo do texto serve como uma forma de evitar prolongamentos ou exposições extremamente factuais, bem como forma de manter a promessa da narradora de omitir certos eventos para preservá-los para si.
É evidente que o interesse da protagonista toma proporções cada vez mais obsessivas, e que seu mundo emocional passa a se resumir a Finn, em uma relação que parece a transformar e moldar como indivíduo antes mesmo de se estabelecer. É essa obsessão que a torna individualista e a faz pouco considerar quaisquer consequências, para ela ou para outros, que pudessem vir com o início e um eventual fim da relação: o encantamento por Finn desconsidera logo cedo a sua relação de 10 anos com outra mulher, e a narradora também ignora os custos de não lidar com sua codependência e a seus padrões de tendência a vícios. São as suas falhas e seus comportamentos muitas vezes sem sentido ou irracionais que trazem uma impressão muito realista para a obra, o que mostra uma forte capacidade de construção de personagem de Caldwell.
O desejo construído ao longo da novela é tão belo quanto danoso, e muitas vezes esse erotismo particular da obra acaba por ser ressaltado em sua divulgação – e a atração física desempenham papéis importantes na construção da personagem e de sua autodescoberta. Essa importância do desejo já aparece marcada através do destaque destaque da citação de Orlando, “love the poet said is woman’s whole existence”, marcada na pele de Finn e encontrada e reencontrada em um momento sexual. Mais importante que essa característica da obra e o que também permitiu que este mesmo erotismo surgisse, é a aceitação da própria vulnerabilidade: a narradora se dá a chance de explorar uma brecha de sua vida ainda não vivida, ainda que incerta dos percursos que o amor por uma mulher poderia fazê-la percorrer.
Lançado em 2014 por uma pequena editora, o livro parou de ser impresso logo em 2018 e virou um clássico cult entre mulheres queer. Recentemente, a obra passou por reimpressão. O que você, leitor, acha de lê-la neste mês do orgulho?
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É graduanda em Letras - Inglês e literaturas na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e contribui com textos para o projeto de extensão Literatura Inglesa Brasil, do qual já participou como bolsista. Tem como principal interesse de pesquisa a literatura contemporânea, atuando sob orientação da Profa. Dra. Marcela Santos Brigida.

